Não gosto do Dia de Coisa Nenhuma

Cais das Colunas, de Dias dos Reis, 2008

Nunca gostei do Dia de Coisa Nenhuma. Gosto do Natal e do Ano Novo, do Carnaval e ponto final. Também não gosto do Dia Mundial da Poesia. Cheira-me a espécie em vias de extinção, a disfarce de uma afasia.

Mais, sou um tipo de convicções fortes. Ou seja, julgava que era, até a Rita Vasconcellos me telefonar e pôr na ordem. Mandou-me sentar, virar para a frente, agarrar no telefone e ler um poema.

Faço questão de ser eu a escolher o poeta”, disse-lhe. “Pois não, disse ela, escolha o que quiser da Eugénia de Vasconcellos.

Gosto muito de muitos poemas da Eugénia. Mas gosto particularmente dos que combinam discursividade com súbitas rupturas e com o intenso recorte metafórico que, por vezes, os ilumina, esplêndidos.

A poesia portuguesa está cheia de arroubos de linguagem, lancinantes gritos de alma. O que é raro é haver poetas discursivos, poetas que sustentem uma narrativa que se arranca do quotidiano. E ainda é mais raro haver nessa emergência de um mundo objectivo, palpável, uma aceitação da palavra dura, de pernas escancaradas, sexuadas.

Tudo o que disse se aplica e me faz gostar sentidamente dos versos de “Amor, Fica”. Narrativos, incendiados, marítimos, são versos que se fazem poema de ausência, partida e já saudade.

Vão ouvi-lo, mas façam-se o favor de sobretudo o lerem.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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15 respostas a Não gosto do Dia de Coisa Nenhuma

  1. Belíssimo poema, este da Eugénia. E o conceito de poemas ao telefone é um magnífico conceito. Deixe lá o dia da poesia, senhor de Fonseca. Dias são dias, a poesia há-de ficar seja lá qual for a forma que queira tomar.

  2. escrever é Triste diz:

    Olá Priminha Ivone, claro que o De Fonseca (mas ele agora é argentino? não lhe dê ideias à vaidade, por amor da santa) deixa a poesia passar: tanto como o Chico a Banda. É o que nos vale quando se está à toa na vida. Só a poesia chama.

  3. Carla L. diz:

    Dito assim, fica ainda mais bonito, lindo!!!

  4. heloisa diz:

    … e o amor ficou.
    Pelo menos, no belo poema.

    • manuel s. fonseca diz:

      Que é, Heloísa, onde o amor deve ficar… O amor passa por aí e fica no poema.

  5. Manel
    Gosto de Tudo
    do texto
    da foto
    da voz
    um bom dia para si também

    • manuel s. fonseca diz:

      Óóóó Rita, a menina não é uma co-autora, a menina é um raio de luz. Brilhante e quentinha.

  6. Luciana diz:

    Pois foi um sopro soprado com gosto e beleza. Pra que se lê um blog? para ouvi-lo em poesias de Eugenia na voz amiga. Como gostei!

    Obrigada, Rita.

    • manuel s. fonseca diz:

      Tem razão Luciana: este é um dos poucos blogs do mundo que se ouve. Este blog fala (rsrsrsrs)… Obrigado pelas suas visitas.

    • Rita V diz:

      ainda me estou a rir …
      obrigada querida Luciana

  7. manuel s. fonseca diz:

    Eugénia, confesse: apanhou um grande susto!!! Mas deixe-me dizer-lhe que gostei muito deste desafio da Rita. E o seu poema convida à leitura. Mesmo quando se começa a ler para dentro, damos connosco, a meio, a ler para fora, e de repente em voz alta. Obrigado pelo poema.

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Ai então o Zeus não era eus (eu…)??!…
    Muito bom, tudo.

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Com os poemas encontrados e as vozes escolhidas, para quando o CD ? Lembrou-me umas belas edições da Casa Fernando Pessoa , com o Miguel Cintra a declamar Ruy Belo…

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