No cinema vi o mundo

 

Quando Neil Armstrong pisou a lua, foi no cinema que o vi pisar a lua. Quando Eusébio levantou a camisola de Portugal para limpar a lágrima vintage de 66, foi no cinema, a cores, que vi a lágrima de Wembley rolar-lhe pela face. No mundo que era mundo, a televisão era a janela para o mundo. Não era esse o meu mundo.

Na cidade colonial de Luanda, nos mais inocentes anos da minha vida, anos de euforia e remota luta armada, o mundo era a minha rua. Não tinha janela por onde o visse e muito menos a desconhecida janela da televisão que não existia no pequeno mundo de Angola.

Nos anos de adolescência, quando vi que o mundo era mais do que a minha rua, foi em matinées que o comecei a ver. Via-o, mal o sol se punha, num ecrã gigantesco, em cinemas ao ar livre, Miramar e Império, ou na sumptuosa sala do Restauração. O mundo vinha em “documentários” que passavam antes do filme. É diferente ver o mundo na televisão ou no cinema. Na televisão, o mundo está encaixotado, pequenino, e nós fora dele. Nos cinemas onde vi o mundo, o céu da tela prolongava-se pela noite do céu angolano. A lua onde Armstrong punha o primeiro pé humano, rimava com a lua que pairava sobre a minha cabeça. Sem sairmos da mesma cadeira, víamos o pequeno passo de Armstrong e virávamos os olhos para a lua da nossa rua a ver se Armstrong ainda lá estava a fazer-nos adeus.

O mundo demorava uns 10, 15 minutos. Lembro-me de ser um mundo falado a brasileiro, por vozes sonoras, as risonhas vozes que proclamavam “a Deutsche Welle apresenta”. Havia actualidades de Portugal e palancas e pacaças do Centro de Informação e Turismo de Angola, mas a minha cabeça obstinada só se lembra das imagens da Deutsche Welle.

Antes do filme e dos artistas do filme, tínhamos esses “documentários”. Elegantes, com presidentes, reis, milionários exóticos, festas deslumbrantes, multidões felizes que ovacionavam. Muito, mas-mesmo-muito-raramente, um conflito, um gesto de inusitada violência. Quase sempre a violenta América: uma bala em Memphis furava o sonho de Luther King; um simpático gordo apagava a cara somítica de Lee Oswald com dois balázios à queima-roupa. E a seguir, vinham os desenhos animados. Um tiro em John Kennedy e lá vinha o Coyotte raivoso a correr atrás do Bip-Bip.

Ainda agora, quando ligo o meu Jornal da Noite, na SIC, começo a ouvir Passos Coelho e já fico à espera de que apareça o Bugs Bunny. Ou que, mal acabe de falar, Tozé Seguro tropece em si mesmo como Mr. Magoo. Tenho a certeza de que, se o Rodrigo Guedes de Carvalho ou a Clara de Sousa ensaiassem um sotaque brasileiro, o Tom e o Jerry conquistavam a Assembleia da República. Não perco a esperança de que um dia o chapéu de Speedy Gonzalez se enfie na velocíssima cabeça de Francisco Louçã.


Pedro e Manuel têm um probleminha com Speedy Gonzalez, mas não são de se maçar muito

Publicado ontem no “Expresso”. Sábado que vem começo de avião e acabo de barco.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a No cinema vi o mundo

  1. Disto e Daquilo diz:

    Simplesmente delicioso 🙂 🙂 🙂

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Fantástica viagem pelo universo dos vendedores de sonhos…achei extraordinária a frase : “Não perco a espe­rança de que um dia o cha­péu de Spe­edy Gon­za­lez se enfie na velo­cís­sima cabeça de Fran­cisco Louçã.” Não sei se ele gostava , mas tenho a sensação de que todo o país se transformaria…

  3. Margarida diz:

    Lindo texto Manuel, só quem já experimentou um cinema ao ar livre sabe do que você fala! E já agora, o leão da MGM era maior, com um rugido mais forte, ou eu é que era pequenina?

    • manuel s. fonseca diz:

      Claro que era maior, era em cinemascope, e nós também eramos mais pequeninos. E que saudades das “cine-esplanadas”.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    O mundo cresce e muda: já não é a mesma a lua. Obrigado pelas boas palavras.

  5. pedro marta santos diz:

    Deste-me saudades, Manel. Ainda apanhei com os jornais de actualidades, tinha 7, 8 anos, na minha grande igreja, o Trindade. No Batalha (“vai no Batalha”), no Carlos Alberto (muito antes de surgir o Fantasporto, em 1981). A seguir também apareciam os desenhos animados, mais ricos e vibrantes do que muitos filmes inteiros – o Beep Beep era o meu favorito, fazendo do Coiote o que eu gostava de fazer a alguns colegas graníticos que me azucrinavam a cabeça, e a um ou outro professor. Ver-se uma fatia importante do mundo olhando para cima, em scope, pode mudar a forma de olharmos para ele. Será por tudo ser hoje tão pequeno que a nova geração tem tanta dificuldade de exercer o seu direito ao fascínio? De abrir a boca de espanto? (para um miúdo de 16 anos, hoje, tudo é banal, tudo já foi visto).

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