O costume

 

Fui condenado à morte por ter decidido ficar onde nasci. Foi essa a minha rebelião.

Vivi clandestino cinquenta anos, até ao dia em que fui condenado por quebra de lealdade e atentado ao costume. Não transgredi nenhuma lei — neste mundo de circumigrantes não há lei, apenas juízes — e em lado nenhum diz que estamos obrigados a andar atrás do sol. É apenas o costume, um costume de que se perdeu a causa e a origem. Um costume que diz que temos que seguir o sol até ao dia em que, síncronos com ele, a nossa vida se porá também.

Quando e como começou o costume, esta rotina que leva os homens a circular o planeta sem parar, a desenraizar, todos anos, milhões de famílias, de afectos, de hábitos e memórias, ninguém sabe ao certo. Diz-se, dizem os sábios do costume, que tudo começou com o holocausto amarelo, uma catástrofe responsável pela fuga de milhões de asiáticos para oeste. No caminho, e porque os recursos foram escasseando, os povos foram-se empurrando uns aos outros, numa inércia que até hoje não foi possível parar. Uma inércia que só séculos mais tarde foi regulada com a institucionalização da circumigração.

Dizem as regras do costume que de doze em doze anos, a contar do dia em que se nasceu, toda a pessoa, em qualquer parte do mundo, tem a obrigação, e o dever, de migrar para poente, ao longo do perímetro máximo definido a partir do lugar onde se nasceu e numa distância que não pode ser menor de quinhentos quilómetros nem maior de mil, não contando com os oceanos. É assim que todos os anos milhões de famílias acabam e outras tantas começam, e que milhões de crianças, de doze anos, se iniciam a errar, sozinhas, pelo mundo.

Foi o que eu não quis. E foi o que durante cinquenta anos eu não fiz.

Dizem os opositores do costume que a institucionalização e a regulamentação do mesmo, se deveu às corporações. Faz sentido. Quando fomos obrigados a migrar, deixou de haver propriedade. A circumigração acabou com a “nossa terra”. As corporações tornaram-se os senhorios de todos e os donos de todas as terras do mundo, as que deixamos e as que nos recebem quando migramos de doze em doze anos. Sem raízes, não há revolta.

Os sacerdotes e os místicos do costume postulam, ao invés, que sempre foi assim, que a humanidade sempre foi andante, sempre seguiu o sol, sempre viajou de este para oeste. Do racional dos sacerdotes e dos místicos do costume decorre que, sendo tudo energia, na sua essência, sendo a vida energia e sendo a principal fonte de energia o sol, é da nossa natureza segui-lo. O sol nasce para nós onde nascemos e é nosso fado segui-lo para poente até ao dia em que, inevitavelmente, nos poremos com ele. Sempre foi assim, dizem eles, o costume sempre existiu, como é costume dos costumes, e auguram que se quebrado acontecerá a sedentarização e com ela o aumento da população e a guerra, o que resultará num mundo de trevas onde o sol se apagará. Dizem ainda que seguindo o sol se ganha vida, e que o propósito da vida é chegar ao princípio e não ao fim. Quando alguém, o que é raro, morre onde nasceu, como aconteceu com o bisavô, é automaticamente convertido em Santo Exemplo do Costume ou em Santa Confirmação do Postulado.

O bisavô, assim o chamávamos na terra onde nasci, foi um dos poucos homens que, cumprindo o costume, e porque viveu cento e vinte anos, completou a circumigração e voltou, para morrer, à terra onde nasceu. Foi a ele que ouvi dizer, pela primeira vez, que o costume não tem sentido, que não há lógica em passar a vida toda a andar sem nunca criar raízes, que a circumigração trás paz e certeza ao mundo mas tristeza e incerteza aos homens. Foi ele que me pôs a pensar. E eu pensei. E decidi — tinha dez anos quando o ouvi — criar raízes como as árvores e ficar quieto até ao fim. Quando o ouvi contar a sua odisseia, comecei a escavar uma catacumba debaixo da minha casa, por entre as raízes do carvalho do quintal, e preparei-me para ficar.

A catacumba ficou pronta quando fiz doze anos, altura em que teria de migrar como estava obrigado pelo costume. O meu pai já tinha migrado, tinha eu três, e a minha mãe migrou uns anos depois. Aos doze fiquei sozinho debaixo da terra. Ali passei anos no escuro, entre raízes, esperando que todas as pessoas que me conheciam voltassem a migrar. Outras chegavam, entretanto, e eu fingi que chegava com elas. Anos mais tarde voltava à catacumba até que fosse de novo seguro voltar a ver o sol e as pessoas.

Um dia acabou. Fui descoberto, arrancado à força das minhas raízes, e condenado pelos juízes do costume. Era inevitável e só me admiro que tenha conseguido passar cinquenta anos à margem. Mas nunca me arrependi. Não foi por isso que deixei de conhecer o mundo — até o conheci melhor pela boca dos que passavam. É que embora à margem do costume, o mundo sempre correu por mim; como a água sempre corre pela margem de um rio. Eu vi o mundo a passar por mim e o mundo, quando olhou de volta e reparou que eu estava parado, estranhou.

Não sei se fui o único a desafiar o costume. A ter havido outros foram tão clandestinos como eu — eles e as suas histórias — e se foram apanhados foram executados, em segredo, como eu serei, para que o exemplo não frutifique e a circumigração continue. Este testemunho, que deixo — se o estão a ler é porque já morri —, escrevo-o para que se saiba que um, pelo menos um, quebrou o costume.

Mas tinham razão, os sacerdotes e os místicos do costume, quando profetizavam que a sua quebra apagaria o sol. Para mim apagou.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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16 respostas a O costume

  1. manuel s. fonseca diz:

    Tens a certeza, Pedro, de que é ficção? Uma angústia, a circumimigração…

  2. Pedro Bidarra diz:

    Não. não tenho a certeza. Quando o pensamento fica parabólico, baralho-me todo, não sei se o que penso e escrevo é ficção ou realidade.
    Curioso é que escrevi sempre circumigração, à brasileira, e não circum-migração, à portuguesa. Será acto falhado (ou certo)? Pronúncio do costume?

  3. Carla L. diz:

    De certo é que sua circumigração, à brasileira, me acertou em cheio.Nunca havia pensado desta forma sobre estas indas e vindas.Vivendo num país de dimensões gigantescas, aonde cabem muitos mundos, sua história é absolutamente plausível.Transportei-me com essa gente que migra para os sertões, os serrados, as montanhas e os rincões mais esquecidos.Vejo-os em cidades, fugindo das raízes que lhes deram vida, alimentando o desejo de um dia voltar à origem. O seu texto é perfeito!!!

    • Pedro Bidarra diz:

      Eu só posso imaginar o que é, vivendo como vivo na minha terra, debaixo das raizes de um carvalho. Tentando fugir ao costume.
      Obrigado pelas palavras bonitas.

  4. a sua catacumba tirou-me o ar e viajei de Este para Poente, mas não parei …

  5. Teresa Conceição diz:

    Gostei tanto que nem consegui escrever assim que li, Pedro. Fiquei a imaginar porque é que queria saber mais, se gostava que o conto fosse mais longo ou não. Mas a contenção alimenta-o.
    É um texto que me faz ficar como os cães, de orelhas espetadas como quando pressentem o perigo.

    • Pedro Bidarra diz:

      Obrigado Teresa. Também tenho vontade de o ver mais longo, tão longo quanto os perímetros da terra que já lá estão todos dentro. Mas para isso era preciso sair de debaixo do carvalho.

      • monika diz:

        Porque não experimenta, entrar por uma das raízes e subir por ali acima. Porque não experimenta ser o carvalho?! Não foi por acaso que a árvore que cresceu no seu quintal escolheu ser um carvalho e muito menos foi por acaso que escolheu crescer no seu quintal. Talvez o ajude a perceber porque não foi atrás dos outros, já que quando se é carvalho se vê tão mais longe.

  6. Pedro Bidarra diz:

    Também sinto que há muitas histórias dentro desta: uma odisseia, a História do Costume.

  7. rosa joão diz:

    Não sabia da inquietação que trago comigo até ler o seu texto, Pedro. Mas em vez de subir ao carvalho para espreitar, vou descer pelas raízes para entender. No fundo, é outra forma de circumigrar. Obrigada.

  8. Pedro Bidarra diz:

    É seguramente a melhor forma, e a mais rica. Boa viagem

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