O tempo, pó

Vi um bocadinho do tempo mover-se. Não sei como aconteceu, não posso explicar. Era só um fragmento ínfimo, talvez a nongentésima-nonagésima-nona parte de uma fracção de tempo. Mal comparado era um pedacinho de tempo do tamanho de um grão de farinha e a farinha, tão solta e só pó, nem parece ter propriamente grãos. Pó, só pó do tempo em pó. Branco. Era o movimento de um menos que grão de farinha do tempo. Ia nele metade de uma casa e só a perna de uma rapariga que passava, o resto do corpo todo dela ainda no outro imenso, infinito, inamovível tempo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a O tempo, pó

  1. tão bonito … ito
    eco do muito que gostei da sua farinha em pó
    desse seu tempo

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Isto anda a acontecer-me desde que fiz um bombardeamento de laser à córnea: fiquei com uns olhos einsteinianos.

  3. Helô diz:

    ahhh, que maravilha!
    enfim, a medida certa de se contar os tempos: pó de tempo!!
    amei!

  4. Margarida diz:

    Manuel, o seu texto pede um boneco da Rita Vasconcelos. Não acha?

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Por momentos pensei que tinhas ido fazer turismo radical em Fukhushima…
    Tempo em pó, parece-me uma boa metáfora.

  6. Carla L. diz:

    Que delícia de maneira de ver o tempo.Eu já vi o tempo parar e confesso que foi um tanto sufocante!

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