Nos dois lados da cortina

Eu estou nos dois lados da cortina
e prazer, digo-vos, só tenho a ver.
No lado de cá é só stress e incerteza.
É só técnica, memória, repetição,
medo de falhar, angústia, adrenalina;
ou então, passados uns tempos, rotina.
É só trabalho do lado de cá da cortina.

Há quem diga que não, que é um prazer,
mas estou desconfiado que mente;
para não quebrar a magia que quem
está sentado, no lado de lá, sente.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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17 respostas a Nos dois lados da cortina

  1. manuel s. fonseca diz:

    Que bom, a glória de ser-se espectador: ver a cortina abrir-se e saber que tudo o que a seguir se faça só se faz para a real felicidade, ronronante, deste meu corpo que acomoda a preguiça à forma de uma cadeira.

  2. Palavras inteligentes de quem sabe olhar e ver o outro (e a si mesmo).

    PS: Isto de a cor da letra dos comentários, ao escrever, ser quase invisível é deliberado? Tão clara que se escreve quase sem ver a menos que se incline o monitor para que a luz incida de uma feição tal que a letra apareça, ligeiramente à vista. Curioso, no mínimo.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Quem sente do lado de cá, só bem sente porque acredita que do lado de lá só há prazer sem angustia e sem dor, a arte é mesmo do fingidor…

    • Pedro Bidarra diz:

      … “que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente” como dizia o outro.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Corpo invisível dessa estranha estrela binária que é o Sol.
    Gostei muito.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Há sempre os dois lados, o de cá e o de lá. Será?
    Gostei muito.

  6. pedro marta santos diz:

    Há um suave drama na impossibilidade – incredulidade? – de o espectador saber o que se passa por trás da cortina. O esforço de tanto esforço passar despercebido é a base da grande arte. Tanto como a inspiração (penso eu de que).

    • Pedro Bidarra diz:

      É pelo menos condição necessária à grande performance. Quando se nota os esforços quebra-se a magia. “Suspended disbelieve” é o que fazemos quando nos deixarmos acreditar na fantasia. Quando aparece o erro, ou se nota o esforço é a realidade que está de volta. Num filme o povo chama-lhe “banhada”; é quando se vêem os bastidores.

  7. Nina A. diz:

    Um voyeur…que sente prazer a olhar. Uma vivência feita de olhares é pobre.
    Não acredito no despojamento nihilista do Pedro.

  8. Mariana Galindo diz:

    Deste lado de cá, é um prazer “ler te”

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