Peixe e mofo

Eu tenho um problema glandular muito raro, embora não tão raro como se possa pensar. Trata-se na verdade de um problema socio-glandular: cheiro a peixe pela parte da minha mãe e a mofo pela parte do meu pai. O odor a peixe exalo quase sempre que estou nervoso, quando a vida não me corre bem. Ainda há pouco, e depois de ter perdido o emprego que tinha, e que me proporcionava uma belíssima vida, passei a cheirar regularmente a peixe. Não me acontecia desde a faculdade, altura em que, aos poucos, fui deixando de cheirar a peixe e passei a cheirar a mofo. O cheiro a mofo, menos conspícuo, aparece quando tudo me corre bem. Também não é agradável, mas como desde a faculdade me dou com gente que cheira a mofo, a coisa não se nota tanto.

A família, da parte do meu pai era de Lisboa. Burguesia ali da Lapa, com casa grave de mobília escura e pesada e quadros. Havia quadros em todas as paredes; quadros com jarros e travessas de frutas, quadros com paisagens pinceladas e desfocadas e este quadro velho, de uma festa de valsas. Era tudo velho e muito silencioso, na casa dos meus avós de Lisboa, e cheirava a casa de avó, o tal cheiro a mofo e que era o cheiro do meu pai. Nunca lá me senti bem-vindo nem nunca achei que o fosse verdadeiramente. O meu pai era o comuna da família e, seguramente para os chatear, resolveu casar-se com uma peixeira. Foi assim que eu apareci e cresci no Barreiro.

A família da minha mãe era igualmente triste, mas triste de pobre. Não havia móveis escuros e pesados, antes pelo contrário. Era tudo leve e fininho, de fórmica e plástico. E pequeno, tudo era muito pequeno. A mesa da cozinha, onde almoçava todos os dias com os meus avós, era de desmontar, abanava e estava, por isso, encostada à parede. Aí, olhando os azulejos, sonhei com outra vida. Nem grave e escura nem triste de pobre. Explica-se assim porque cresci com aversão ao velho e à pobreza e porque resolvi estudar e ser bom aluno. Também não tinha grande remédio. Não era bonito, não era desportista, não era popular e cheirava a peixe e mofo. Os livros e estudar era tudo o que tinha e a única forma de sair dali. E saí.

Vim estudar para Lisboa, gestão de empresas, e rapidamente aprendi tudo o que um gestor moderno, e português, tem que aprender. A vestir-me e a falar, os tiques e os truques, as educações, as palavras que se usam e não se usam e, sobretudo, a saber quem são as pessoas. Claro que o cheiro a peixe nunca me abandonou, mas o mofo, da parte do meu pai, deu jeito e ajudou a disfarçá-lo. Arranjei uma namorada bem enturmada e o Barreiro e o peixe foram ficando para trás. Quando acabei o curso, um tio da Bárbara, a minha namorada, que era administrador na PT, pôs-me lá dentro. Fui trabalhar para as compras onde, não só ganhava bem e de várias maneiras, como conheci toda a gente que interessava conhecer. A minha vida, agora cheia de amigos novos, mudou radicalmente. Deixei de sentir o cheiro a peixe e comprei uma casa na Expo, que uma amiga da Babá decorou, e um descapotável. Fomos viver juntos, eu e a Babá. Um espectáculo.

Tudo parecia correr bem, até um dia. Um malfadado concurso, e uma confusão com fornecedores, selou o meu destino. Fui convidado a sair e aquele odor a maresia misturada com cadáver de peixe voltou. A coisa ficou insuportável. Para a Babá, que tinha imensos amigos que cheiravam tanto a mofo como ela, a separação não foi tão dolorosa. Para mim foi mais complicado. Tinha perdido tudo. Deixei de ir a restaurantes, a festas e a casa de amigos. Vendi o carro e a casa na Expo, voltei para o Barreiro e arranjei emprego numa empresa de venda de brindes. Mas o negócio não pegou. Era muito difícil manter um bom ambiente nas reuniões, mesmo com a ventilação no máximo. Bati no fundo. Tresandava a peixe de novo.

Voltei para o Barreiro e aí fiquei um ano até que a minha avó resolveu finalmente morrer. Tinha noventa e oito e uma saúde de ferro, mas o coração lá bateu tudo o que tinha a bater e a senhora bateu as botas. Literalmente. Tinha acabado de as calçar, levantou-se, bateu com o tacão no chão, como que para as ajeitar, e caiu redonda. O funeral foi nos Prazeres. Vieram velhas e velhos, amigos e primos do meu pai.  A cheirar a peixe só eu e a minha mãe, tudo o resto era do mofo.

Ainda pensei que o meu pai, que era filho único, quisesse voltar para a Lapa, para a casa onde tinha nascido e crescido, mas não, não queria nada daquilo, era feliz no Barreiro e amava verdadeiramente o cheiro da minha mãe. Deu-me por isso carta branca para vender e ficar com o que quisesse. Eu só quis a casa.

Mudei-me, fiz o inventário e comecei a vender. Algumas coisas ainda valeram bom dinheiro, mas o que me surpreendeu foi o quadro da valsa. Aparentemente era verdadeiro e dum tal Bordalo Pinheiro. Havia outro igual, pendurado no museu, mas era uma cópia feita por um discípulo a pedido dele. Este era o original, autenticado pela mão do próprio e com uma dedicatória, por carta, à minha bisavó que, aparentemente, andou metida com o senhor depois de o ter conhecido num baile de valsas. O quadro foi-me comprado por um balúrdio, que não posso revelar pois assinei um documento que mo impede, e foi, sub-repticiamente, substituir um outro que foi arquivado sem mais.

Hoje vivo confortável e feliz na Lapa. E as minhas glândulas voltaram a exalar mofo.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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21 respostas a Peixe e mofo

  1. caruma diz:

    Peixe e mofo temperados com vinagre, brrrrghr.

  2. R diz:

    Gostei mesmo da morte da velha.

  3. Gostei do conteúdo do curso de gestão (:-)

  4. ZECA MARIPOSA diz:

    Pois, enquanto dissertas sobre sócio-odores o mundo alpino chama por nós

  5. Brilhante, a forma como a escada social é dividida em cheiros igualmente repulsivos.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Qual será o cheiro da Troika? ou do Parlamento Europeu? Mofo e peixe à mistura se calhar…muito divertido, ainda me ri um bom bocado…agora vou ali tomar banho e pôr um pouco de perfume não vá o diabo tecê-las….

  7. teresa conceição diz:

    Cheira-me que ainda vou ter de começar a andar de mola no nariz. Estes cheiros vão longe.
    Muito bom.

  8. manuel s. fonseca diz:

    Cheirar pela parte da mãe e cheirar pela parte do pai é uma ideia arrasadora. Uma aromática ruptura epistemológica . Fartei-me de gostar,.

    • Pedro Bidarra diz:

      Obrigado Manuel pelo cheiroso comentário. Conseguir “uma aromática ruptura epistemológica”, era uma ambição antiga

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