Portugal-Grécia

Para quem vive de forma apaixonada estas questões, e sobre elas pensou a nível profissional na última dúzia de anos, é difícil ficar indiferente. A « Les Inrockuptibles », uma das melhores revistas europeias de arte e entretenimento – para a qual as duas palavras nunca foram antónimos – , publicou esta semana um artigo sobre as actuais dificuldades de algumas cinematografias do continente. Citam-se os exemplos da Roménia, de Portugal e da Grécia. Enquanto que na Roménia (onde há três ou quatro « novos » cineastas de grande talento como Cristian Mungiu, Cristi Puiu, Cristian Nemescu ou Corneliu Porumboiu) o centro nacional de cinematografia – equivalente ao nosso Instituto do Cinema e Audiovisual – reduziu os fundos de apoio à criação de 9 milhões de euros em 2008 para 2,3 milhões ( !) no ano passado, obrigando os seus produtores a encontrarem modalidades alternativas de financiamento no estrangeiro, Portugal está com o seu apoio público à produção para 2012  suspenso até à aprovação da nova Lei do Cinema, ainda em discussão pública. A propósito, a « Les Inrocks » ouviu Luís Urbano, da produtora « O Som e a Fúria ». Conheço o Luís há muitos anos, uma pessoa sensível, inteligente, com grande sentido de humor e um produtor de méritos indiscutíveis. Ora, chamando ao cinema nacional a « indústria do cinema português » (uma contradição em termos, como sabe quem nele trabalhou), diz o entrevistado a certa altura : « Les gouvernements successifs ont une grande part de responsabilité dans le chaos présent du cinéma portugais. Ce sont eux qui ont favorisé un cinéma de genre industriel, un culte du succès populaire, au dépend des petits producteurs ou distributeurs qui défendent des films plus exigeants. »

Comparem-se agora estas declarações com o testemunho, no mesmo artigo, de um… grego, o realizador Argyris Papadimitripoulos, membro de uma óptima geração de cineastas, como Yorgos Lanthimos (o impressionante « Canino ») ou Athina Rachel Tsangari (o interessantíssimo « Attenberg ») : « C’est une période très inspirante pour les cinéastes. Sans la récession que connaît la Grèce, nous n’aurions pas cette énergie, nous ferions des films différents, dans le confort. Je vois une génération de producteurs et de réalisateurs qui arrive et qui a intégré l’idée du do it yourself face à l’inertie des pouvoirs publics.

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

7 respostas a Portugal-Grécia

  1. manuel s. fonseca diz:

    Li bem o que disse o Luis Urbano? Que “… os governos favoreceram um cinema de género industrial, o culto do sucesso popular…”? Definitivamente, ando distraído há 30 anos… E eu a pensar que tinham sido júris ilustres e de alto coturno a escolher o cinema que foi subsidiado.

  2. Teresa Conceição diz:

    Zero – Um.

  3. Teresa Conceição diz:

    É um desafio muito interessante este, Pedro.
    A energia do querer contra a inércia do poder, a revolta contra a espera, o fazer contra o queixar-se. Parece que toda a gente se esqueceu da alegria de brincar na lama ou fazer carrinhos de arame ou lata. E dos grandes filmes que daí saíam.

  4. Panurgo diz:

    Vocês por acaso não têm nos arquivos aquela entrevista do João César Monteiro onde ele explica como é que sacava uns subsídios? Lembro-me de ele dizer que tinha dado um conselho a uma actriz qualquer: ó filha, pede mais cinco mil.

    Não se arranja isso para rir um bocado? O artista português será sempre o artista português.

  5. sem-se-ver diz:

    Compreendo o seu raciocínio, mas é tendencioso, como, começo a verificar, em tudo o que escreve sobre cinema português. Porque obnubila todos aqueles (o Urbano enquanto produtor é um excelente exemplo) nunca deixaram de porfiar e de fazer cinema mesmo sem subsídios ou com parcos subsídios.

  6. pedro marta santos diz:

    Leste mesmo bem, Manel. Também me parece que os gregos ainda têm muito com que nos surpreender, Teresa, eles que têm sido assados a lume brando. Panurgo, vou procurar nos nossos ficheiros secretos. Sem-se-ver, obrigado pelos seus comentários. É sempre um prazer agradar-lhe.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não conheço por dentro o mundo do cinema. Sou apenas espectador. Sei que nada existe sem distribuição, e para mercados pequenos como Portugal, o apoio do estado deve ser fundamental. Mas só isso não dá bom cinema e acredito que muito do bom cinema pode ser feito com pouco…

Os comentários estão fechados.