Receita à base de lamechices com ingredientes vários

São a minha receita para fugir ao mal de vivre, e, se me permitem começar já com lamechice de primeira ordem, me fazerem arrancar sorrisos ou lágrimas de momentânea felicidade (mas porque é que não se inventa outra palavra menos pirosa para exprimir esse prazer fugaz?). Também servem para confortar na dor, asseguro-vos. Chamem-lhe lamechices, chamem. Mas a verdade é que funcionam. Bem ou mal, mesmo depois de ter visto todo o Woody Allen que havia para ver, ainda não frequentei um divã. 

– O Ryan Gosling a cantar “you always hurt the one you love” para a Michelle Williams em Blue Valentine, a melhor não-comédia-romântica da história do cinema;

– O Sean Penn a morrer como Harvey Milk;

– O velho e descaracterizado Algarve a que eu regresso sempre, verão após verão, só para recordar os verões maravilhosos que lá vivi no tempo em que os doze meses do ano se podiam resumir a dois apenas;

– Qualquer por do sol sobre o mar, e não me venham com tangas de que há uns melhores do que outros;

Preciso de Dizer que te Amo (Cazuza/Bebel Gilberto),  Lived in Bars (Cat Power), Hitsville UK (Clash), ou a sequência perfeita para uma noite de muitas estrelas lá em cima e a estrela maior cá em baixo;

– Uma sala escura e o abandono e solidão ao som de Darkest Dreaming de David Sylvian;

– As pequenas imperfeições da Kirsten Dunst a fazerem-me jurar que a conheço de toda a vida;

– A voz post-mortem do António Sérgio nos separadores da Radar;

– A redescoberta em cada ano da maré vazia de Vale Figueira e da euforia do acesso à Praia da Amália;

– O Estádio da Luz a abarrotar em noite de gala europeia com o Tony de Matos e a águia Vitória a darem o mote;

– Um pé boto e uma vontade capaz de vencer todas as contrariedades na Servidão Humana de Somerset Maugham;

– Uma bela desconhecida a chorar solitária numa esplanada por ela iluminada;

– O Johnny (Guitar)/Sterling Hayden a perguntar, com os violinos lá atrás, “how many men have you forgotten?” e a Vienna/Joan Crawford  a responder-lhe “as many women as you´ve remembered”;

– A contagiante paixão de Martin Scorsese a falar sobre a magia do cinema;

– As memórias de adolescência, reais ou ficcionadas, de Vargas Llosa;

– O meu maior guilty pleasure, o Jonathan Livingston Seagull do Neil Diamond;

– A Letter from an Unknown Woman, de Max Ophuls, a mais bela carta de amor que o cinema produziu;

– A voz de Cesariny num poema de Cesariny;

– O Stromboli em erupção bem por cima da minha cabeça;

– O heres´looking at you kid do Rick Blane/Bogart para a Ilsa Lund/Bergman em Casablanca;

– O Lou Reed e o John Cale a cantarem a vida de Warhol em Songs for Drella;

– O regresso de George Bailey/James Stewart a casa depois da noite de pesadelo da sua não existência em It´s a Wonderful Life;

– O Carlos Lopes a cortar a meta em primeiro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles e, no dia seguinte, a bandeira portuguesa a subir ao som do Hino (aqui, o meu choro foi partilhado com o Manuel e, provavelmente, com mais alguns milhões de portugueses pelo mundo fora);

– A ilusão da paixão no (falso) Baiser de L´Hotel de Ville do Doisneau e os metros e metros de película de beijos censurados do Cinema Paradiso;

– O reencontro com velhos amigos do Liceu Francês, para continuar a conversa que ficou por acabar trinta anos antes;

– Muitas outras coisas que não cabem aqui, ou porque inconfessáveis de tão ridículas ou pirosas, ou porque (e que me desculpem os leitores) aquilo que as faz especiais é serem partilhadas, apenas, com alguém especial.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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18 respostas a Receita à base de lamechices com ingredientes vários

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Diogo: parece ser toda uma vida metida dentro de um saco de memórias…e claro que muitas não se dizem, o sentido para um pode-se desvanecer no momento em que se revela a muitos…

    • Diogo Leote diz:

      Pois é, Bernardo, aquilo que não quero dizer dava para mais alguns posts. Só aqui deixei aquilo que pode ter algum significado para outros também. E espero que continuem sem me faltar razões para ser lamechas.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Gostar de uma menina pelas suas imperfeições ainda é mais bonito do que gostar dela pela soberba perfeição. Uma lista de coração aberto, pois claro.

    • Diogo Leote diz:

      Nem mais, Manuel, nada como as pequenas imperfeições de “girls-next-door” como a Kirsten. Dão-nos sempre aquela sensação que estão prestes a sair da tela para virem beber um copo connosco.

  3. Rita V diz:

    ‘… a ban­deira por­tu­guesa a subir ao som do Hino …’
    pois é!

    • Diogo Leote diz:

      Rita, por enquanto a bandeira e o hino ainda são nossos. É melhor aproveitar, que isto é capaz de não durar para sempre. E estes momentos já vão rareando…

  4. fernando canhao diz:

    Ler as escolhas dos 12, para mim totalmente desconhecidos, tem me dado um prazer semelhante a na infancia receber as tercas feiras o semanario “ O Falcao” trazido pelo meu avo Jaime, versao original, enorme, pre Major Cook e Alvega, quando os personagens eram Dan Dare contra Mekon e muitos outros com El Orrens a dar cabo dos turcos antes de morrer numa Brough Superior, a que limpa com um panito o deposito preto e cromado depois de lhe colocar combustivel. Mesmo antes de morrer cai bem a disciplina. Voltando a Dan Dare o meu heroi morre para dar cabo de Mekon e assim deve ser.
    2 dias depois da queda das torres gemeas entrei numa casa de pasto por cima do Martim Moniz para comprar cigarros. As imagens eram sempre as mesmas, uma torre gemea e depois a outra, gritos e tragedia. Dois cavalheiros sentados ao balcao entreolham se e diz um deles, “homem, ninguem diga que esta bem, o Manel mais duas de branco”. Esqueci me do tabaco e acrecentei “tres”. Foram de penalty com repeticao. Atrasei me no que ia fazer mas sai dali contente e feliz com a vida. Acerca do 9/11 itself o tema fica para outra altura.

    • Diogo Leote diz:

      O que o caro Fernando sentia com “O Falcão” à terça sentia eu com o “Tintim” à sexta. Só por isso, era o meu dia da semana preferido.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Todas as lamechices pudessem ser partilhadas assim…
    Algumas ficam guardadas para nós.
    Venham mais!
    bj

  6. sem-se-ver diz:

    olhe, gosto muito de si.

    (do que aqui escreveu, seguramente : )

    • Diogo Leote diz:

      Que simpatia a sua, cara sem-se-ver. Aposto que também conhece a maré vazia de Vale Figueira e já cantou com o Tony de Matos no Estádio da Luz.

  7. fernando canhao diz:

    Nao tinha dado por http://www.youtube.com/watch?v=O-9yvpkovxg
    quando li a sua escolha exemplar. Foi o equivalente ao Punctum numa fotografia.
    Neil Diamond e David Sylvian pois claro.
    Um dos meus sonhos impossiveis, ouvir Tony de Matos a cantar Brian Ferry com ou sem Roxy Music.
    O problema dos musicos e a malvada da idade, alguns gastam se.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Fernando, eu ainda gostava mais de ouvir o Bryan Ferry cantar Tony de Matos. De preferência no Estádio da Luz.

      • fernando canhao diz:

        Faz todo o sentido.
        Uma imagem da minha infancia que lhe sugiro, Steve McQueen, no”The magnificent Seven” a abrir a culatra da cacadeira antes de iniciar um funeral de pendura com Yul Brynner.

        • Diogo Leote diz:

          Agradeço-lhe a sugestão, caro Fernando. Pode ter a certeza que irei rever em breve o Magnificent Seven.

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