Reflexões de um ponta de lança em Nou Camp

Nunca me senti tão sozinho

Nunca me senti tão sozinho. Cinco metros para a minha direita há um defesa dos adversários, cinco metros para a minha esquerda, outro. De vez em quando um avança ligeiramente, recebe a bola e toca-a de novo para lá da linha do meio-campo onde estão todos os meus companheiros de equipa.

O meu nome é Stefan Kiessling e tenho 28 anos. Já é a terceira vez nos últimos dez minutos que sou obrigado a repetir isto para me convencer a mim mesmo.

Estou estafado e quase não corri. A objectividade é uma virtude alemã. Devo, por isso, dizer que praticamente ninguém correu neste jogo. A bola, sim. Circula quase sempre em viagens curtas, de um pé para outro pé, logo para outro pé e nenhum dos três pés é meu ou de um companheiro meu. Tudo se passa entre pés adversários. Muito embora tenhamos, faço notar, os mesmos pés. Num crítico exercício de razão pura, diria mesmo que temos pés mais atléticos, mais cientificamente desenvolvidos do que os dos ibéricos adversários. Mas há, entre os pés dos atletas adversários e a bola uma afinidade que Goethe invejaria. Uma afinidade electiva e geométrica. Os nossos pés, os meus e os dos meus companheiros, sofrem uma exclusão suicida. Se encontrássemos a bola, se o esférico chocasse connosco, talvez se interrompesse a nossa condição trágica. Na solidão sem bola em que mergulhámos, temos tempo para escrever mais cartas deseperadas do que o Jovem Werther.

Eu disse que a bola circula em pequenos toques. Mas com a incoerência típica dos povos do Sul, sucede que os adversários se entregam ao delírio de lançamentos aleatórios de 30 metros. São bolas que lançam para as costas dos meus companheiros. Os meus companheiros, com toda a coerência organizacional, nem tocam nas bolas que exploram a sua rectaguarda, nem nas que circulam rendilhadas à frente dos seus olhos.

Os adversários são de baixa base de gravidade. É natural que não caiam. São, com grande probabilidade, movidos por um deus ex machina. Funcionam como um fole, um acordeão e por mais companheiros meus que se lhes coloquem à frente, eles passam sempre e a bola com eles.

Tenho grande admiração pelo espírito prático e muito preciso dos meus companheiros. A cerca de 40 metros de mim, bem vejo que eles tentam medir, com total precisão, os movimentos dos pés dos adversários. Mas, numa bizarra demonstração do princípio da incerteza (que estou certo os nossos adversários desconhecem) quanto mais precisamente os meus companheiros medem a grandeza dos pés adversários, forçosamente mais imprecisa é a medida dessa grandeza correspondente. E é por essa imprecisão que os nossos obstinados adversários fazem passar o esférico.

Já não me lembro se cheguei a tocar na bola. Vejo que os meus companheiros, quando procuram o adversário e esticam uma perna, veêm a bola passar-lhes pelo túnel que as pernas abriram. Se fecham as pernas, a bola contorna-as em movimentos descontínuos semelhantes a ondas de luz.

Há um dos adversários, pequeno e com ar adoentado, que se move em pas de deux. Corrijo, talvez seja o passo suspenso da cegonha. Não anda, nem corre. Por vezes uma das suas pernas, em geral a esquerda, sai do corpo e, por uma imperceptível fracção de segundo, vai sozinha. Volta, depois, ao corpo ou talvez seja o corpo que se move ou gira para recuperar a perna. O insondável mistério é a bola seguir, fiel, esse movimento caótico. O golo é, não diria a finalidade, mas a fatalidade última desses movimentos insidiosos. Marcou agora o quinto dele, o sétimo dos adversários.

Confesso a minha profunda desilusão. Não consigo sequer apreciar o que, em boa verdade, não compreendo. Tenho 28 anos e nunca me senti tão rejeitado e inútil. Compreendo o romantismo, Wagner, a nitzscheniana vontade de poder, mas o meu espírito alemão deprime-se com este lúbrico espectáculo sottovoce, a felicidade de olhos fechados com que a bola desliza de pé para pé dos nossos adversários. Olho para a multidão de Nou Camp e, confesso com amargura, nunca me senti tão sozinho.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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21 respostas a Reflexões de um ponta de lança em Nou Camp

  1. Panurgo diz:

    Tem 25. Vou sempre buscá-lo no Football Manager ahaha

    “Há um dos adver­sá­rios, pequeno e com ar ado­en­tado, que se move em pas de deux” – que fabulosa descrição do Iniesta, perdão, do Messi ahaha

    • Panurgo diz:

      que barraca. tem mesmo 28… ups…

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Panurgo, aviso já que só vi dos 5-0 em diante. Ter eu acertado n0s 28 anos do Kiessling foi um acaso. E é verdade que o Iniesta tem a palidez de Nosferatu.

  2. caruma diz:

    Magnífico texto.

  3. João Pessoa diz:

    Por causa do teu texto, fiquei a gostar mais de Futebol.
    Compreendo agora melhor, o que é a solidão! Então, esta solidão para Alemão, ariano, superior e loiro…é demais!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      João, a solidão do Kiessling é uma solidão de um metro e noventa e quatro. Um abraço.

  4. Selvagens e sentimentais, como diria o Javier Marías.

  5. pedro marta santos diz:

    Manel, digno dos grandes prosadores sobre futebol (e são muitos e bons, como sabes). O melhor texto que li a misturar Goethe, o Princípio da incerteza de Heisenberg e desmarcações em passes de 30 metros.

    • manuel s. fonseca diz:

      Uma coisa é certa: gosto de misturas. Do colonialismo o que mais gostava era do selo de povoamento. Um abraço, meu kamba.

  6. Fausto L. C diz:

    Caro Manuel,
    Gostei do seu texto sim senhor. No entanto, pouco me interessa uma equipa menor como o Barcelona. O único jogo com o Leverkusen que realmente fica na memória aconteceu em 1994 nos 4ºs de final da taça das taças (paz à sua alma) e ainda hoje me lembro da força do abraço que dei ao meu avô (paz também à sua alma) quando o kulkov, depois de desmarcado pelo génio JVP, marca o 4-4 com a parte de fora do pé direitoselando a passagem do Benfica. Quando me lembro do meu avô de braços no ar ainda me vêm lágrimas aos olhos e fica desta forma feito meu tributo sentimental às listas de enormíssima qualidade que tenho lido neste blog.

    Abraço,

    • manuel s. fonseca diz:

      Fausto, o meu texto diletante até fica rubro de emoção com a chamada a esse momento homérico. Chorei baba e ranho nesse dia de Leverkusen. Um ciclone, um carrossel, um turbilhão, o SLB!!!!

  7. Luciana diz:

    Pois Nelsons e Armandos Nogueiras fazem reverência. Grande, grande texto, Manuel. Recorda-me que a beleza redime essa nossa espécie.

  8. Pedro Bidarra diz:

    Sempre torci pelas equipas mais fracas (a não ser que esteja o Benfica a jogar). Sou de torcer pela lebre. Mas os do Barcelona, parecem lebres a gozar com o galgos. Coitados dos galgos.

    • manuel s. fonseca diz:

      Olha, deste-me uma ideia: devia ser o Amadeo Souza-Cardoso a pintar o 11 dos catalães. Ficavam todos mais altos e esguios.

  9. manuel s. fonseca diz:

    Eugénia, seleccionadora adjunta? E depois como é que entrava no balneário?

  10. Diogo Leote diz:

    Manuel, rezo para que não tenhas de escrever um texto idêntico para o Cardozo (ou o Rodrigo ou o Nelson Oliveira) daqui a umas semanas…

  11. manuel s. fonseca diz:

    Diogo, homem de pouca fé: há lá alguma comparação.

  12. … era mesmo de futebol que falava?
    😀

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