Ridículo Douro

Não se escan­da­li­zem os duri­en­ses aman­tes por­que eu faço parte do grupo e sou um seu entu­si­as­mado defen­sor.
O título é ape­nas um cha­ma­riz rou­bado ao New York Times, que tem méto­dos pecu­li­a­res de adjec­ti­var aquilo que real­mente apre­cia e quer pro­mo­ver.
A frase «The Douro Val­ley region of Por­tu­gal has so much going in its favor, it’s almost ridi­cu­lous» tam­bém me irri­tou um bocado quando esbar­rei com ela a pri­meira vez, mas, na ver­dade, ape­nas é hiper­bó­lica em fun­ção dos sen­ti­men­tos vul­câ­ni­cos que este belo naco do tor­rão pátrio pode gerar em quem, des­pre­ve­nido e des­co­nhe­ce­dor, o visita pela pri­meira vez.
No entanto muita gente há neste país que acha que conhece o Douro: pois, as vinhas, o rio, tudo muito bonito etc & tal…
Não conhe­cem nada de nada de nada de nada!
Claro que as fotos mos­tram um pouco do que o Douro é. Mas não trans­mi­tem o sen­ti­mento exta­si­ante de ple­ni­tude abso­luta que se vive num qual­quer fim de tarde, pas­se­ando a pé entre vinhe­dos ali­nha­dos na sua geo­me­tria pecu­li­ar­mente variá­vel, cor­rendo as mar­gens com o olhar a par­tir de um com­boio his­tó­rico ou de um dos mui­tos bar­cos de cru­zeiro que sobem e des­cem o rio, ou obser­vando o pano inteiro dos mon­tes a par­tir dos altos de S. Leo­nardo de Gala­fura ou de S. Sal­va­dor do Mundo.
Conhe­cer o Douro não é ir lá um dia ou dois.
Conhe­cer o Douro é entrar nele, pôr os pés no chão, sen­tir os chei­ros e o calor, bis­bi­lho­tar as quin­tas, falar com as gen­tes, medir as escar­pas com o cora­ção, apa­nhar um punhado daquela terra impos­sí­vel e ten­tar ima­gi­nar como foi acon­te­cer seme­lhante ordem de gran­deza.
É claro que se além des­tes tópi­cos con­se­guir ainda mer­gu­lhar no rio numa tarde quente, obser­var o voo dos gri­fos ou das gar­ças, vibrar com a des­co­la­gem elec­tri­zante de um bando de per­di­zes em for­ma­ção ou ainda, sorte das sor­tes, ser con­vi­dado para entrar num lagar de pedra para aju­dar a uma pisa de uvas…, então é certo que a pai­xão se ins­ta­lará perene e o desejo de lá vol­tar espi­ca­çará o aci­den­tal turista para todo o sem­pre.
Não estou a brin­car, esta é uma das ver­da­des mag­né­ti­cas do Douro, só par­ti­lhada, a meu ver, pelo Alen­tejo – ape­sar de enten­der que todo o nosso Por­tu­gal é uma imensa parure de jóias raras e muito diver­sas.
Li hoje que o com­boio his­tó­rico do Douro deverá parar por falta de verba; sei que umas quan­tas bar­ra­gens impres­tá­veis vão dar cabo de parte impor­tante deste patri­mó­nio único, a bem de coi­sas mui­tís­simo mal expli­ca­das; e sei que temos uma suposta elite que devia ser rapi­da­mente afas­tada à lam­bada e ao pon­tapé dos cen­tros de deci­são que tão mal ocupa.
À laia de com­ple­mento a este meu desa­bafo deixo-vos com Os Tra­ba­lha­do­res do Comér­cio numa das suas melho­res e mais diver­ti­das pro­du­ções, a que junto uma cer­teza quase telú­rica: quem neste país se acha impres­cin­dí­vel, ou muito impor­tante, é fun­da­men­tal­mente ridí­culo e não presta de facto para nada.
É só esco­lher os can­di­da­tos – eles apa­re­cem todos os dias nos jor­nais e nas televisões.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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15 Respostas a Ridículo Douro

  1. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Antó­nio! que bonita a sua topo­gra­fia das escar­pas! Não pode nem ima­gi­nar a sau­dade que tenho da metade norte de mim — às vezes acre­dito que um dia…

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Con­ti­nue a acre­di­tar, Eugé­nia, que um dia, sem per­ce­ber bem como, vol­tará cá outra vez.
    Gosto muito que tenha gos­tado.
    (o mer­gu­lha­dor de fato de banho azul é o meu filho…, nem ima­gina o que foi este dia flu­vial — o tal êxtase com­pleto, afinal)

  3. que­rido Antó­nio, a arran­car os cabe­los de con­tente. Veio tudo como num filme em câmara lenta. O con­vite para beber moran­gueiro, os mer­gu­lhos em Ama­res e aquele bicho assus­ta­dor com uns cor­nos do tama­nho do mundo que me bar­rou a pas­sa­gem no Gerês. Foram 5m de pÂnico mas as melho­res sema­nas da minha vida.
    Quero vol­tar!
    Está por aí? (risos)

    • António Eça de Queiroz diz:

      Estou sem­pre no meu posto de com­bate, Rita.
      Essa rês com cor­nos em forma de lira é o touro miran­dês, supo­nho, e o moran­gueiro… que pinta as malgas!

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Antó­nio são mui­tas as sau­da­des, e uma certa inveja por­que já não enterro ver­da­dei­ra­mente os pés nessa terra há uns lar­gos anos…

  5. manuel s. fonseca diz:

    Mon­si­eur Antoine, belo texto sen­tido! E eu em sen­tido tam­bém para dizer que sou dos reco­nhe­ci­da­mente não conhe­cem o Douro. Até por­que, bibli­ca­mente, só se conhece o que se come. (beber, e eu tenho-o bebido des­me­di­da­mente, não conta, está claro!)

    • António Eça de Queiroz diz:

      Beber não conta, Manuel, mas já dá para che­gar à fala (sem­pre passa pela lín­gua…)
      Mas bem que podias arran­jar uns dias de fas­tio cos­mo­po­lita e subir a ter­ras sue­vas…
      Só te podia fazer bem!

  6. Pedro Marta Santos diz:

    Tenho o Douro em casa. A minha mulher tem raí­zes no Pinhão. É uma terra do caraças.

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Luci­ana, um ano inteiro?!…
    Não sei se aguento a espera.

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