Três ou Quatro Coisas Que Me Põem Sentimental

 – A Alexandra a sorrir-me como se tivesse sete anos

– O meu pai a contar, subitamente, uma história do meu avô Santos que eu não conhecia

-A minha mãe a falar sobre o Cine-Brazão, em Valadares, o cinema que o meu bisavô Marta construiu em 1921 quando regressou de África e que o meu avô Marta geriu durante décadas

– As recordações do meu tio António

– As lembranças dos fins de semana de campismo no bosque de São Jacinto

– As memórias do Trindade

– Saber que o meu amigo Zé sabe o que eu vou dizer antes de eu abrir a boca

– A maneira como o meu amigo Sérgio me põe a mão no pescoço para me consolar

– As pancadas valentes que dou nas costas do meu amigo Rui

– Os raros abraços ao meu amigo Paulo

 – Os jantares com os meus amigos Zé, Sérgio, Rui e Paulo

– O pôr do sol no Grand Canyon

– A estradinha, apaixonada pelo mar, entre Carmel e Big Sur

– As sequóias de Muir Woods, a norte de São Francisco

– Os ciprestes de Arezzo e de Radda in Chianti

– O restaurante, meu e teu, sobre os seixos de Camogli

– A água de azul-amor dos Gorges du Verdon

– Os campos de alfazema a nordeste de Grasse

– Os campos de tulipas a sul de Groningen

– A Bow Bridge em Central Park

 – A luz nas falésias da praia de São Gabriel (catedral nº 1)

– A cúpula da Basílica de São Pedro (catedral nº 2)

– O Arbutus Lodge, em Cork (catedral nº 3)

– A portuguesíssima simpatia dos irlandeses

 – Klimt, Millais, Botticelli, algumas cores de Odilon Redon

– O beijo à chuva de Michael Paré e Diane Lane em “Streets of Fire”

– O beijo nas escadinhas, à luz terna do candeeiro, entre Richard Widmark e Lauren Bacall em “The Cobweb”

– Kim Novak, de camisa de noite cor de miosótis, a mostrar-nos que o marido já nada quer dela em “Strangers When We Meet”

– O regresso à casa de gelo em “Doctor Zhivago”

– A escultura de gelo em “Edward Scissorhands”

– A conversa entre pai e filha no restaurante, após 20 anos de separação, em “Running on Empty”

– A passagem do Rex em “Amarcord”

– O monólogo final de Harry Dean Stanton em “Paris, Texas”

– o Surrealista, em Braga

– Folhear o meu primeiro texto no Caderno 3 de “O Independente”

– reler a primeira das 210 páginas de “Fogo”, o primeiro guião que escrevi: começa com um desconhecido a explodir numa Loja Extra de Lisboa, acaba com uma desconhecida a implodir num jardim extraordinário de Dorset (nunca será filmado)

 – O “Goodbye Lucille #1” dos Prefab Sprout

– O “September”, de David Sylvian

– A versão longa, for sentimental reasons, de “Night and Day”, pelo Sinatra

– O “Nimrod” de Elgar

– Qualquer cigarro fumado às 06h15 com 1,2 no sangue (ao ar livre e à boleia)

– A inesperada cortesia de um desconhecido

– A inesperadíssima jogada à Barça na relva sintética rasgada por mil malabarismos e aldrabices no meu futebol das 5ªs feiras (às 2ªs, vale tudo menos tirar olhos)

– O hino antes de a selecção fazer asneiras sublimes

– A bondade, a excelência e a dignidade – hoje em dia, são milagres

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

7 respostas a Três ou Quatro Coisas Que Me Põem Sentimental

  1. fernando canhao diz:

    Ombre, voce nao brinca em servico!
    Cine-Brazão, em Valadares, imagino que sera das raras pessoas que sabe afinar a pequena cruz que puxa o filme e nos suge em “Ao corer do tempo de W. Wenders;
    Michael Paré e Diane Lane em “Streets of Fire”, com Hill e Cooder a dar serventia e o novissimo e bera como a ferrugem Willem Dafoe, a cena das estaladas vale oiro.
    A passagem do Rex em “Amarcord”, a esta junto o po da passage do Duce e os da Situacao a chamarem empolgadamente aos Ballilas “Juventude Granitica”
    http://www.dailymotion.com/video/xddkzo_giovinezza-ballila-italie_music#rel-page-under-3
    monólogo final de Harry Dean Stanton!
    , em Braga…
    O “September”, de David Sylvian!, with all due respect junte lhe mais isto:
    http://www.youtube.com/watch?v=VmybBX-Go2s&feature=related
    – A bondade, a excelência e a dignidade – hoje em dia, são milagres, ligeiro desacordo, julgo que sempre foram.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Nunca mais te vou chamar Young Master. Estás a ficar velho. Refinada e saborosamente velho. Delícia de lista.

  3. Teresa Font diz:

    Que bela lista, Pedro.O que já conhecia, relembrei com gosto, o que não conheço vou procurar-menos o que são memórias só suas.
    Que bom ler este post. Obrigada.

  4. podia colocar na minha lista a forma como ‘acolhe’ os seus amigos
    que bom ser (ter) amigo(s) assim

  5. Pedro Bidarra diz:

    Uma lista de deixar um nó na garganta

  6. pedro marta santos diz:

    Obrigado pelo seu comentário, Fernando. Se calhar tem razão quanto à bondade, à dignidade e à excelência. Pois é, Manel: acho que já estive mais longe de contrair um vírus muito comum – acho que se chama “Meia Idade”. Vou já tratar das vacinas. Obrigado eu, Teresa, pelas suas simpáticas palavras. Thanks, Pedro – recordar é o mais sentimental dos ofícios. Rita, aposto que tem amigos que lhe despertma igual emoção física. Bjs

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que lista! E afinal parece ser toda composta por pequenas simplicidades, pequenas coisas que revelam grandes sentimentos…

Os comentários estão fechados.