Um leopardo em Lisboa

 

Há homens que têm a ventura ou a desventura de viver entre dois mundos. Giuseppe Tomasi, Príncipe de Lampedusa, o homem que fora o rapaz que dizia preferir a companhia das coisas à companhia das pessoas, é uma dessas figuras trágicas. Luchino Visconti di Modrone, Conde de Lonate Pozzolo, alma eternamente perdida entre a estética aristocrática da sua infância (Senso, O leopardo, Morte em Veneza, Ludwig) e o apelo neo-realista do seu ideário comunista (La terra trema, Ossessione) é outra dessas almas penadas do entre dois mundos. Talvez por isso seja filha de ambos essa obra maior sobre a decadência. Decadência de que Visconti dizia ter uma opinião “muito favorável”. Decadência que é simultaneamente luto e esperança e que é, precisamente, o nome do angustiante lugar que é o de entre dois mundos.

Distraio-me. Vem toda esta conversa a propósito, imagine-se, da demissão do secretario de estado da energia. Portugal é um país entre dois mundos. Não tanto entre o norte e o sul, não tanto entre a Europa e a África. Mas entre um Mundo de rigidezes e atrofias sociais, económicas, politicas que são múltiplas e enraizadas, e um mundo que promete, por vontade da troika ou por genuíno impulso do Primeiro Ministro, ser um amanhã que canta no que toca a concorrência efectiva nos vários mercados, regulação musculada, desmantelamento das relações perigosas entre política e economia, fim das rendas e dos sectores protegidos e mais um sem números de símbolos que farão do país um paraíso da igualdade de oportunidades. No papel, na retórica pública, é essa, claramente, a agenda (chamem-lhe neo-liberal se não aguentarem) do governo PSD/CDS e da Troika que o governa.

Para que conste, revejo-me, com genuíno entusiasmo, em todo este propósito. Não é seguramente a proclamação do principio que me incomoda. Sonho, sempre sonhei, com um Portugal (chamem-me cândido, chamem-me ingénuo) onde todos nascem iguais e onde todos morrem diferentes.

Voltemos pois à Sicília e ao Rissorgimento, sede dos meus descontentamentos. A porca torce o rabo à medida que vou ficando com a ideia que o governo, o núcleo mais politico do governo, refém vá lá saber-se de quem, encantado vá lá saber-se com quê, se vai parecendo cada vez mais com o jovem Tancredi. E com o seu pragmatismo cínico que, a páginas tantas, o leva a proclamar: “se queremos que as coisas fiquem como estão, algumas coisas têm de mudar”.

Nos tempos mais próximos Portugal não vai ter uma segunda oportunidade para romper com os poderosos interesses instalados na sociedade e na economia, com os conservadorismos sociais, com o paroquialismo imobilista, com a promiscuidade entre decisores políticos e económicos, em suma, com a tralha toda que tem feito de Portugal um país profundamente anquilosado, desigual e injusto. Se a conversa toda sobre reforma estruturais, se a verborreia toda sobre a luta contra os interesses, se vai desvanecer, num pragmatismo “à la Tancredi”, de cada vez que algum dos suspeitos do costume fizer voz grossa, então mais vale estar quieto. Se a ideia é só mudar as moscas, tenham um mínimo de decoro e poupem-nos aos discursos messiânicos. Não é só Portugal que estragam. É sobretudo a esperança de ver um Portugal melhor.

Uma vez sem exemplo, é uma antestreia. O texto será publicado na Visão a 22.3.2012.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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14 respostas a Um leopardo em Lisboa

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Bem, a BRISA já está a pedir mil milhões de indemnização ao Estado por causa das quebras no tráfego…
    Isto é dum cinismo a todos os títulos insuportável.
    Se nada for para mudar então prefiro mesmo uma revolução – só que desta vez sem cravos.
    Vermelho está bem, mas na próxima que seja de sangue.

    • Pedro Norton diz:

      Caro António,
      Percebo bem a revolta e se calhar é mesmo numa revolução que isto descamba. Apesar de tudo não é o caminho que eu preferiria. Mas que andamos a brincar com o fogo, lá isso andamos.
      Abraço!

  2. fernando canhao diz:

    Nao me parece que se va em breve cair numa sangria desatada, mesmo com as AK 47 ao preco da chuva, tanto mais que depois era um sarilho com os bombeiros sem gasoleo para as ambulancias, os hospitais sem camas e assim por diante, no pior dos casos, e pela natureza das coisas, um ligeiro corrimento devido a idade coisa usual em adultos acamados.
    Mas nem tudo sao mas noticias, o Cooper Climax T51 ex Mario de Araujo Cabral esta a venda no reino unido, e pronto a correr, perante tal facto no minimo quem rouba sem vergonha o povo portugues, nomeadamente as inocentes classes mais humildes, que o compre e traga para Portugal.
    Acerca do Sr. Secretario de estado nao sei quem seja.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Clap, clap, clap

    • Pedro Norton diz:

      thanks, old chap. Mas salta lá da plateia e anda aqui para o palco porque a malta está com saudades dos teus textos.

  4. Panurgo diz:

    Trazer o Leopardo para fazer de tenda ao circo destes badamecos que fazem oposição ao povo português, devia dar fogueira. Mas enfim.

    “ou ficando com a ideia que o governo, o núcleo mais poli­tico do governo, refém vá lá saber-se de quem”- sabe-se muito bem, sabe-se muito bem. E você também sabe. E, se sabe, porque é que não escreve os nomes dos bois? Romper com a promiscuidade entre políticos e agentes económicos? Então em vez dos panegíricos ridículos que fazem a certos advogados, talvez fosse melhor investigar a legislação a eles encomendada e quem é que ela favoreceu; talvez fosse melhor publicar aí quanto custam os almoços dessa cambada nos restaurantes “a que vão muito” e com quem é que vão muito; os “suspeitos do costume” também têm nome, e os “suspeitos anónimos” deviam começar a ter cara, os estão entre a praça do Saldanha e a Duque de Loulé. E vendo a vida vergonhosa que essa escumalha leva, talvez a nossa gente tivesse mais vontade de romper tais laços. Bem podemos esperar sentados, não é verdade? Pois. Pode ser que um dia as pessoas se cansem.

    • Pedro Norton diz:

      Presumo que a fogueira seja para mim… Não sei se mereço tanto. Mas obrigado pela visita.
      Abraço.

      • Panurgo diz:

        ehehe perdoe-me o exagero sem importância nenhuma. nós vivemos no tempo das hienas e dos chacais, como bem adivinhava o tiozão, culpando, justamente, um “judeuzinho alemão”. Destas hienas não nos livramos com ideias, mas com violência. Não há-de ser o suicídio da troika, a burocracia de bruxelas, ou berlim a impedi-lo. Não por nenhuma vontade histórica, claro. Simplesmente não há dinheiro para acalmar as hordas. E tão depressa não haverá. Portanto… basta imaginar o que deve sentir um desempregado entre os 30 e os 40 ao ler a última página do correio da manhã de hoje. Veremos..

        e desculpe-me mais uma vez.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Pedro, espero que não seja uma vez sem exemplo. Venham mais antestreias. E gostei que trouxesse este leopardo que afinal é um gattopardo que não é um leopardo. O mundo que ele recobriu creio ser espelho do nosso: um tempo de valores fúteis, de perda de lealdade e de ganância. E perdoe-se-me o moralismo que nem é muito meu feitio (ou é?).
    No mais, quero só subscrever o que diz: a troika produziu um programa que, filosoficamente, é uma revolução para Portugal e nos pode modernizar: regula, acaba com os compadrios, torna leal a competição. O grande problema é o tempo. Tudo isto se pode legislar, mas não se faz num estalar de dedos. E tem de ser feito em democracia, esse sistema movediço e insalubre. Entretanto, os interesses agem – e todos temos interesses.
    Há quem queira isto feito já, como se fosse fácil. Fácil era se se pudesse meter muita gente no Campo Pequeno. Fácil também se houvesse uma pidezita. Sempre achei que a facilidade tem muito pouca graça: assistem-me algumas boas razões históricas.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Não sou pessimista no sentido que acho que a vida vale a pena, mesmo com a troika e com os seus altos e baixos, que felizmente , não conseguimos controlar. Agora a comparação com a Sicília, de troféu de Guerra Púnica a uma das regiões mais pobres de Itália….não seria a primeira vez que uma região, ou país, se auto-destrói, e isso custa a aceitar…

  7. fernando canhao diz:

    1. Bombardeados pela forca aerea;
    2. Estejam quietinhos;
    3. Os Paras ficam parados;
    4. Houve aqui um engano qualquer;
    5.Dialogar 1. para evitar mortos;
    http://www.youtube.com/watch?v=1WVvqWw8IN8
    Entao e desta vez matamos quem? E criancas tambem?
    Nas imagens surgem Fiats, Toyotas, um VW. Agora com BMWs, Audis e outros Porsches ha que ter mais cuidado.
    Tirando isso, “fascista vem ca que o povo da te um Raja”.
    Argola e nossa. Nem tudo esta perdido.

  8. Anjo Negro diz:

    Querido Pedro, já há muito tempo que não passeava por aqui e escapou-me este teu post. Interessou-me sobretudo o primeiro parágrafo. Eu sei que era só um pretexto mas julgo que saberás o quanto acho divertida e reconfortante a ideia de decadência. E que bem que tu a defines no texto.Tenho a certeza de que só faria asneiras se amanhã me saísse aqui a Megacena. Acabava-se a decadência mas ia dar merda.Da parte das fitas, até tirei notas dos outros títulos dos da ” … estética aristocrática da sua infância …”. O livrinho (e respectivo filme), como calculas, já o li (vi) e reli (revi).

    • Pedro Norton diz:

      Velho Anjo, Ainda bem que gostaste! Acreditste ou não, pensei em ti ao escrevê-lo. E tenho a certeza que vais gostar dos filmes. Arrisco dizer que por esta ordem: Ludwig, Senso e Morte em Veneza.
      Abraço!

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