Uma noite no sótão: com Francis Coppola

 

pai & filha

Tinha perdido a chave. Mas hoje ouvi tanto barulho no sótão que rebentei a porta. Fiz bem. Fugida à dura vida de Napa Valley, uma família de camponeses, os Coppola (leia-se mesmo Cópula, como deve ser) vieram esconder-se na amenidade que se chama Portugal. Matámos saudades. Lembrámo-nos de um encontro em Berlim, há 21 anos, num Fevereiro gelado e com ameaças de bombas em tudo o que era aviões. Borrados de cagunfo, os grandes cineastas faltaram à chamada. A “família” nao esteve com merdas e veio toda. Estava o Francis, o pai e a filha: uma santíssima trindade. Sentei-me no meio deles e pedi a benção ao mais barbudo: é o meu padrinho!

The Godfather III

Francis Coppola foi o menino mimado de Berlim. O Festival, a cidade, os jornalistas, prodigalizaram-lhe tantos carinhos quantos os que ele dá, derretido, à filha e ao pai. Durante a conferência de imprensa, Francis sacudia, com um gesto, um cabelo caído no ombro do casaco do velho Carmine e o olhar dele parecia um escudo a proteger a inocência de menina americana que indiscutivelmente Sophie ostenta. Francis Coppola foi o único dos grandes que veio. «Há coisas muito mais perigosas do que fazer uma viagem de avião», explicou.
Veio pela honra da firma. A firma, a instituição, chama-se Padrinho e vai agora no terceiro painel. É um filme monumental. Uma lição de cinema. Clássico. Déjà vu. Cinema estabelecido, sem nada de novo, mas mesmo assim espectacular. A única novidade, comparativamente com as duas partes anteriores do Padrinho, é que na Parte III o carácter operático, implícito nos filmes anteriores, se torna declarado. É mesmo o único propósito: fazer à maneira de uma ópera. Ou então: à maneira de Shakespeare.
Nunca mais haverá, é claro, Padrinho como o de Marlon Brando. Nem nunca mais voltará a haver na obra de Coppola uma sequência como a da abertura do Padrinho I. Porque não há amor como o primeiro. «Por muito que eu goste de todo o Quarteto de Alexandria, nunca consegui voltar a sentir com os outros três livros o que senti quando li o primeiro», desculpa-se Coppola.
Quem faz filmes assim não tem, evidentemente, que sentir culpa. E mesmo sem a força genuína que lhe vinha de temas tão fortes como a vingança e a sede de poder, neste terceiro volet da série, a par dos cometimentos de montagem (fabulosos raccords), a par da  competência esmagadora da fotografia e da direcção artística, Coppola ainda conseguiu fazer passar um sentimento autêntico de tristeza. Uma coisa imensa, como um céu de nuvens negras, o que torna AI Pacino tão grave e pesado como o Emil Jannings de O Ultimo dos Homens, de F.W. Murnau.
Pelo contrário, cumpridos os prazos que a Paramount lhe impunha – estrear o filme a 25 de Dezembro na América – e gratificado pela recepção da crítica e da bilheteira nos EUA, Coppola sentia-se em Berlim um homem leve. Como a seguir se mostra.

Manuel S. Fonseca – Porque é que andou a enganar meio mundo afirmando que nunca faria o Padrinho III?
FRANCIS COPPOLA – Sinceramente, não tinha intenção de fazer o filme. A Paramount mandou-me um script, mas não mostraram o espírito que tinham durante a Parte II. Ou seja, não me deram carte blanche. Ainda por cima, eu não gostei do script. Não era sobre Michael Corleone. Para mim, no Padrinho III Michael tinha de ser a personagem principal e não outras pessoas a negociarem na Colômbia ou a venderem droga. Mais tarde sim, propuseram-me que voltasse a trabalhar com os mesmos actores, além de me ter fascinado a hipótese de estabelecer uma relação com o escândalo do Banco Ambrosiano e com a morte do papa João Paulo I.
MSF – No Padrinho I, o conceito central era a vingança. No II, o poder. Qual é o conceito da Parte III?
COPPOLA – Redenção.
MSF – Porquê esse súbito desejo de redenção de Michael Corleone?
COPPOLA – Senti, no fim do Padrinho II, que ele se tinha tornado um homem muito patético, paranóico, vendo inimigos em toda a parte e mandando matar toda a gente. Era uma espécie de figura nixoniana da América. Quando tive de fazer este filme, pensei: «Que género de sentimentos é que ele sente por ter mandado matar o irmão, por ter perdido a mulher e por ter uma relação tão alienada com os filhos!». Lembra -se, na Parte II, dos miúdos sentados no corredor, sem poderem dizer nada?! Eu achava que um dia, quando ele saísse daquela pressão, teria consciência do que tinha destruído e quereria ser perdoado, como uma espécie de Rei Lear, preservando os seus filhos e limpando o nome. Foi esse o começo da história.
MSF – Donde é que vem a imensa tristeza que se sente no filme? E só da personagem do Michael Corleone ou é também de si, como realizador?
COPPOLA – Tal como um actor, também é difícil a um realizador separar-se do seu trabalho. Quando fiz o Tucker, dizia-se que o Tucker era eu; no Apocalypse, comparavam-me com o coronel Kurtz. Agora diz-se que Michael Corleone é como eu. Já viu que são todos diferentes? É claro que no nosso trabalho nos usamos a nós mesmos. E eu fi-lo especialmente no Padrinho III. Sendo o terceiro filme, é o menos original. As coisas que fizemos no I eram muito novas. Neste já não podíamos ter a mesma frescura. Em jeito de compensação, tentei ser o mais pessoal possível.
MSF – Falou-se de uma certa depressão sua durante parte do processo criativo…
COPPOLA – Foi um filme feito longe da América, em Roma. Na América, ninguém sabia o que se passava. Essas histórias não são nem autênticas nem precisas. Num filme como Cotton Club, houve, de facto, grandes loucuras na rodagem. Neste, à parte o facto da Paramount o querer muito depressa, para sair no Natal, e com excepção do problema da disponibilidade dos actores (Al Pacino, Diane Keaton, Talia Shire) para estarem ao mesmo tempo no mesmo lugar, tudo se passou normalmente.
MSF – O que é que ficou no Padrinho Ill dos seus cometimentos estilísticos e narrativos mais inovadores do Apocalypse e de One From the Heart?
COPPOLA – São totalmente diferentes. Os Padrinhos têm um estilo mais clássico. A câmara não se mexe, não sobe nem desce, nunca se usam lentes de mais de 40mm. O Apocalypse era cinematograficamente muito mais agressivo. É assim, gosto que os filmes tenham um estilo igual ao tema. O Tucker, por exemplo, tem o estilo de um carro.
MSF – Porque é que escolheu a Cavalleria Rusticana como contraponto operático da acção do filme?
COPPOLA – Vi a Cavalleria quando era miúdo. O meu pai dirigia a orquestra. Impressionou-me muito por causa dos cavalos no palco. Como ópera acho-a mais acessível para uma criança do que a Traviata. Na Traviata adormecia, mas na Cavalleria havia lutas e aquela paixão siciliana. Quando fiz o Padrinho I, disse ao Nino Rota que a música devia parecer-se com a Cavalleria. Lembra-se no ll, quando a mãe aparece a gritar para o filho «Hanno ammazzato tuo padre»? Isso é da Cavalleria, tal como os sinos na cena da igreja: «ta-ra-ra-ra-ri ra-ra-ra-ra … ». No Padrinho III fui mais longe: tentei fazer o filme como se fosse uma ópera.
MSF – Como num filme de Visconti?
COPPOLA – Honra-me muito a comparação. Lembro-me muito bem de uma cena de Il Gattopardo, quando voltam da guerra e os criados lhes vêm dar as boas-vindas. Fiz uma cena como essa quando Michael Corleone regressa à casa na Sicilia e é recebido com uma banda de música.
MSF – As reacções à interpretação da sua filha Sophie não foram as melhores.
COPPOLA – As balas disparadas contra a minha filha foram balas disparadas contra mim. Ela foi muito corajosa. E ela que dá a simplicidade e a alma do filme. Ninguém pode dizer que ela não é uma menina inocente. E era essa a personagem certa. Nunca tive a pretensão de a mostrar como uma actriz glamorosa e sofisticada.
MSF – Andy Garcia poderá ser herói do Padrinho IV?
COPPOLA – Bom, é um excelente actor e tem uma psicologia suficientemente complicada. A personagem que ele desempenha é a de um bastardo em quem ninguém confia. Se o pusermos num filme como rei, vai ser uma espécie de Ricardo Ill. Porque um bastardo é sempre um bastardo, como disse Shakespeare.
MSF – Alguma vez teve a ambição de que os Padrinhos, com o seu «pathos» trágico, fossem para estes tempos o que as peças de Shakespeare foram para a sua época?
COPPOLA – Mas eu nunca pensei fazer estes três filmes! Espero agora que formem um conjunto coeso. E espero que com o tempo … Bem, é como as cenas simbólicas: a beleza dos sentidos simbólicos nas cenas é que nunca pensamos neles quando estamos a filmar.
MSF – Com este filme cheio de culpas, arrependimentos e redenção, admite que lhe chamemos católico, no sentido em que usamos a expressão para um Alfred Hitchcock ou um John Ford?
COPPOLA – Penso que sou um cineasta católico. E provável que a minha atitude para com a religião não se adeque muito aos cânones da Igreja, mas a minha alma e o meu coração foram moldados por essa religião. E verdade que há muito tempo que não me confesso, mas a minha relação com Deus é outra… e eu também não fiz nada, não tenho pecados.


ópera mais ópera não há

Publicado no Expresso, há 21 anos, a 23-2-91. A entrevista foi feita no Festival de Berlim. A mais divertida tinha-a feito, anos antes, em Paris. Estava “ele” e o George Lucas. Hei-de encontrá-la.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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18 respostas a Uma noite no sótão: com Francis Coppola

  1. Manuel, Manuel! Coisa boa de se ler, esta entrevista. Estou como a Eugénia, o III é o meu Padrinho. Está lá tudo: da tragédia grega ao Rei Lear.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Obrigado Ivone. Acho que as artes dramáticas não fazem outra coisa que não seja rever os gregos. As agências de rating também, aliás…

  2. Panurgo diz:

    Once upon a time in America…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      I believe in America. America has made my fortune. And I raised my daughter in the American fashion. I gave her freedom…

  3. Fausto L. C diz:

    Manuel,

    Obrigado pela partilha uma vez mais. Eu também gostei muito do padrinho III, do amor de um Pai pela filha ao peso da ideia da redenção siciliana. Podem chamar-me lamechas mas os últimos segundos do filme dão cabo de mim. A morte sozinha e silenciosa, e o cão a passar.

    Bom fim de semana e um abraço,

    Fausto

  4. Rita V diz:

    às vezes viver é pior que morrer…
    bela entrevista
    NeverEnding Attick

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Querer crescer para ver um filme é bonito!

  6. pedro marta santos diz:

    Manuel, é uma óptima entrevista, mas percebeste que ele mentiu em metade das respostas, não percebeste? O Coppola é um dos grandes, de todos os séculos, mas é preciso ter sempre em conta a imagem do Kusturica, no aeroporto de Nice, a pedir-lhe um autógrafo, prestes a ganhar um prémio por “Lembras-te de Dolly Bell?”, e ele a mandá-lo à merda. O Coppola sente-se uma personagem shakespeariana dominante – sempre sentiu. Talvez esteja aí o motivo maior da sua queda: mais olhos do que barriga. Os seus filmes, daqui a dois séculos, viverão mais do que os de Scorsese, mas preferia um pequeno-almoço com o neurótico Martin do que dez jantares com o mitómano Francis. Posto isto, sinto inveja por tanta convivialidade.

    • manuel s. fonseca diz:

      Ah, ah, claro que mentiu. Como mentiam os Fords e os Hawks. Mentiras às vezes monossilábicas. Por vezes elaboradas. Como mente a boa crítica, como mente o Thomson e mentia o Bénard. Desconfio, aliás, de todos os criadores que julgam dizer a verdade.
      E fazes mal não vires a um jantar com o Coppola: ele cozinha mesmo muito melhor do que o Marty! Una bella pasta, I mean.

  7. pedro marta santos diz:

    Tens de vir cá a casa ver a trilogia um dia destes. Manda-se um helicóptero à Eugénia. Paga o Bidarra, que não gasta combustível porque só se move a prancha de surf.

  8. sem-se-ver diz:

    saudades de quando escrevia no Expresso, MSF.

    (crítica de cinema, I mean. you’re missed.)

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Estimada sem-se-ver, alego, em minha defesa, que tive uma primeira fase parvo-universitário, ainda com montes de apontamentos das sebentas de Letras. Que os anjos e arcanjos me perdoem. Na segunda fase, no final dos anos 80, lá me consegui “deslargar” um bocadinho… Mas ser crítico é tramado: é melhor contar histórias e cronicar…

  9. pedro marta santos diz:

    Touché, dottore.

  10. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Gosto bastante de Coppola, desde The Outsiders e de Rumble Fish até ao Cotton Club. Mas O Padrinho é um filme infinitivamente superior às sequelas. Esse e Apocalipse chegam.
    Gostei muito da entrevista, e a franqueza com que Copolla parece aceitar que o Padrinho III não podia ser mais uma obra-prima.

    • Escrever é Triste diz:

      Bernardo, não é vulgar dar-lhe (ao FC) para a modéstia. Lá lhe escapou…

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