Uma Valsa à moda do Eça…

O suor corria-lhe, quente, pela cara, em gotas gordas e flácidas .  Tinha passado horas a vestir a indumentaria, sob o bafo do final da tarde, que entrava rudemente pela águas furtadas do sótão encafuado.

-Então, desces ? Já estamos atrasados !

gritou Diogo, que retirou outro cigarro da cigarreira de prata, e acendeu-o vagarosamente, como se de um pensamento saboroso se tratasse.

Jacinto passeava-se atarantado pelo minúsculo quarto, abrindo as gavetas à procura do laço preto, já  gasto.

-Vai lá estar a Raquel…e também aquela besta imunda do Roberto, com a mania que tem conhecimentos em França,  e de que é primo não sei de quem…já viste como sua do bigode? Diogo falava sozinho, em pausadas fumaradas de cigarro, passeando de um lado para o outro no hall das escadas.

Quem suava agora era Jacinto,  enquanto puxava para cima, perna por perna, as calças duras de goma,  a sentir a barriga gorda na cintura. O espelho pendurado na parede desbotada dava-lhe a aparência de mais velho, o cabelo curto um pouco seboso.

-Estou a descer , estou a descer, atirou sem convicção, enquanto ajeitava a gola da camisa e penteava o cabelo com as pontas dos dedos.

A Raquel! Lembrou-se da noite anterior, do bem estar do álcool, e a vontade de fazer boa figura em frente das senhoras, sim principalmente de fazer boa figura à Raquel, que tinha aparecido deslumbrante num vestido comprido de cetim verde claro,  a  esconder por detrás do leque um risinho matreiro, e outros insondáveis prazeres que o deixaram a ruminar a noite inteira…

Puseram-se a caminho e chegaram em dois tempos, o Chiado vibrante na noite de verão. A elegância transpirava-se no ar, ao subir a longa e larga escadaria de mármore branco. Finos copos de champanhe eram oferecidos em bandejas de prata.

-Isto vai ser de arromba menino, dizia-lhe Diogo, enquanto se servia de uma flute aloirada.

Na grande sala de baile, os tectos em arco pintados a ouro clamavam por restauro, molduras pesadas cercavam espelhos de reflexos distorcidos,  enquanto que as palmeiras do jardim entravam pelas  enormes e altas janelas, abertas para o fresco da noite entrar.  A banda tocava, um pouco fora do ritmo, mas ninguém se importava.

Jacinto olhou a sala, depois de um gole rapido e longo de champagne fresco que lhe palpitou a garganta. Procurou  Raquel no meio da multidão que dançava e falava alto, sobre uma  densa nuvem de fumo.

Descobriu-a no mesmo instante que reparou que para ela avançava também Roberto, o animal!  Apressou o passo, trocou o copo num ápice, e colocou-se junto a Roberto.

Ao  ouvido disparou, certeiro : “Sai da minha frente estafermo, que a Raquel não olha para bodes como tu”. Roberto, lívido  ainda tentou manter a postura, mas ficou sem resposta enquanto Jacinto rematou: “garanto-te que se avanças vamos ter de resolver as coisas lá fora. É que te esborracho essa cabeça vazia  com umas fortes bengaladas!!!”,  terminou por entre os dentes, depois de sorver de um trago o terceiro copo de champagne.

Viu-se finalmente em frente de Raquel, que o olhava desinteressadamente, ou dava ares de isso.

Com os olhos marcados pela noite mal dormida, a correria do dia e o álcool que lhe injectava o sangue, Jacinto curvou-se sobre o maravilhoso decote de Raquel e  oferecendo a mão susurrou em surdina : a menina dança?

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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6 respostas a Uma Valsa à moda do Eça…

  1. o raio do texto deu-me cheiros, uns sebosos outros não
    espero que Jacinto tenha encostado o seu peito ao dela
    😀

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Sei de fonte segura que sim…o resto é que só pode ser contado mais tarde…mais à noite…

  2. manuel s. fonseca diz:

    E ela dançou, Bernardo, ou houve bengaladas cá fora? Esta curta tem ar de folhetim: continua de certeza noutro episódio. Conte lá!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      O folhetim vem também do Eça…mas vamos lá a ver se posso revelar a continuação, porque o próximo episódio( não diga a ninguém) ainda não está escrito…e estou indeciso entre a dança ou as bengaladas….

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Pois, suor já está.
    Agora faltam o sangue e as lágrimas.
    (O Jacinto anda cá numas vidas, ainda vai tombar num duelo!…)

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Uma verdadeira “choldra” que indubitavelmente vai dar sangria…

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