À catanada

(Aviso: só na forma esta história é ficção)

Um rapaz corre descalço pelo alcatrão gelado. Parece fugir. Ao olhar para trás, por cima do ombro, tropeça e cai no chão. A sua cara, estatelada no alcatrão está suja de sangue e agora de lama; os olhos estão raiados. O rapaz levanta-se e continua a correr serra abaixo. O destino está escrito numa placa na berma da estrada: Pampilhosa da Serra, 27 km. O rapaz não tem mais de dezasseis anos. Veste umas calças de ganga e uma t-shirt ensanguentada.
A noite está fria. Nas serras, cobertas pela neve, um pássaro voa agoirento sobre o vale. Lá em baixo, iluminado pela lua, o manto de neve cobre os campos até à berma da estrada. Um cão ladra ao longe, uma coruja coruja num ramo e o rapaz, descalço, corre. Só se ouve o silêncio da noite nas serras e da neve que as cobre.

“Hope is the thing with feathers,
that perches in the soul,
and sings the tune without words,
and never stops at all.”

A mão esquerda de um vulto abre a porta do quarto dos rapazes. A mão direita empunha uma catana. O vulto entra. O quarto é um quarto normal, com duas camas pequenas, uma cómoda e uma cadeira. Numa das camas dorme um miúdo, a outra está desfeita e vazia. Na parede um poster do FCP, na cadeira, e pelo chão, roupas em desarrumo. O vulto encosta porta e sai.
O vulto abre outra porta. É um quarto de adulto. Uma mulher dorme na cama do casal. Tudo está calmo. O vulto da catana dirige-se à mulher que dorme e olha-a demoradamente. A mulher não acorda. Ele vira-lhe as costas e sai, fechando a porta atrás de si. Aparentemente a mulher também não é o destino da catana. O vulto percorre o corredor, desce as escadas e dirige-se à sala.

O rapaz continua a correr serra abaixo sem parar, pé descalço ante pé descalço, numa correria desenfreada pelo frio e pelo alcatrão. Os pés estão em ferida. As corujas olham dos ramos, os cães ladram à distância e um lobo uiva longe. O mundo, aparentemente, dorme.

O vulto da catana desce até à sala de estar. É uma sala pequena pobremente mobilada: apenas uma mesa de fórmica com uma toalha de plástico, onde repousam garrafas vazias de cerveja, um cadeirão, um sofá pequeno e uma televisão ligada mas em silêncio. Deitado no sofá um velho, de camisa aberta, ressona. Ao seu lado uma garrafa de cerveja vazia está tombada no chão. O vulto aproxima-se dele e olha-o demoradamente. A televisão, em silêncio, debita imagens de jogos já jogados. O vulto agarra a catana com as duas mãos.

O rapaz continua a sua corrida sem parar e sem abrandar. Ao longe, muito ao longe, no vale, começam a ver-se os cintilos que anunciam a vila. Mas está ainda longe, muito longe. O rapaz não pára e corre descalço pela estrada fria ladeada de neve azulada pela lua.

O vulto fecha as duas mãos com força em volta do cabo da catana, levanta-a, a cima da cabeça, e desfere um golpe certeiro na cara do velho que dormia no sofá. O sangue salta da cara do homem. O vulto tira a catana e desfere novo golpe na cara. Um olho salta. Desenterra a catana e volta a enterrá-la outra e outra e outra vez. Não há gritos. O único som é o som seco da lâmina a martelar a carne deformada e banhada de sangue. Num instante não há nariz nem lábios nem feições, apenas carne e sangue. O frenesim pára com um golpe certeiro no pescoço de onde o sangue jorra como se o pescoço fosse o de uma galinha.
O vulto detém-se, uns segundos, a olhar o que resta do corpo. Finalmente muda de posição e, no sentido longitudinal, zás… desfere o golpe final; bem entre as pernas do velho.

No sopé da montanha, ainda longe mas já visíveis, as luzes anunciam a vila. A montante só negro. O rapaz dando-se conta da proximidade das luzes corre ainda mais.

O vulto, sentado no sofá, limpa o sangue das mãos à camisola e recosta-se, por um momento, a ver televisão. O silêncio é interrompido pelo tossir de alguém no andar de cima. O vulto olha as escadas, levanta-se e volta a subir até aos quartos. Entra no quarto onde dorme o miúdo olha para a cama que está desfeita e vazia e sai a correr. A casa fica em silêncio. A porta da rua, aberta, deixa entrar a noite e mostra, lá fora, a estrada que desce a montanha nevada.

O rapaz, coberto de sangue e de lama, e a tremer, chega finalmente ao seu destino: o posto da GNR de Pampilhosa da Serra. Tentando recuperar o folgo dirige-se ao balcão de atendimento onde está o GNR de serviço. O GNR, ensonado, olha o rapaz ferido, ensanguentado e exausto e nada diz. É o rapaz que fala primeiro:

— O que é que acontece a um rapaz de 16 anos que mata o pai? — pergunta ele perante a estupefacção do GNR e de um colega que acabou de entrar, — É que eu matei o meu pai à catanada. — acrescenta o rapaz que mais não diz.

O rapaz e os GNRs saem do posto e dirigem-se ao jeep que os aguarda no parque. Antes de entrar no jeep o rapaz começa a contorcer-se em dores. Agarrado ao estômago cai de joelhos no chão e começa a vomitar com violência; até que, num espasmo de dor, da sua boca sai um corvo negro que cai, molhado, no chão. O corvo, lentamente, sacode-se e voa.
O rapaz, apoiado por um GNR, limpa a boca, entra no jeep e é levado.


(Baseado numa notícia de jornal sobre um adolescente que matou o pai abusador à catanada.)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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36 respostas a À catanada

  1. Belissimamente escrita esta história dura de ler.

    Não sei se é da hora tardia a que a leio, se é do conteúdo, se é da forma, mas a verdade é que nada mais consigo dizer que isto.

    • Pedro Bidarra diz:

      E é mais do que suficiente O rapaz disse tudo e pôs um ponto final na história.

  2. fernando canhao diz:

    Legitima defesa, passaro nao incluido.

  3. RB diz:

    Apanhou 9 anos de prisão. Está em casa com pulseira eletrónica. A escola deu-lhe um pc e estuda a partir de casa. Está com boas notas.

  4. As coisas que acontecem debaixo do sol. boa semana a todos

    • Pedro Bidarra diz:

      Boa semana Táxi. O dia está soalheiro, obrigado pela música, vou já a saltitar pela calçada

  5. Rita V diz:

    …next!
    (leia-se pai)

  6. Nuno Pimenta diz:

    Só falta pôr em filme. 🙂

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    E a malta a pensar que Portugal era um país de “brandos costumes”…

    • Pedro Bidarra diz:

      E é: de brandos costumes sociais. Mas de menos brandos costumes pessoais. É o contra peso

  8. Carla L. diz:

    Gostei do texto e penso ter visto a sombra de Hitchcock refletida na janela do casebre.E tudo em P&B.

    • Pedro Bidarra diz:

      Se lá estava, estava vestido de guarda republicano no posto da Pampilhosa da Serra

  9. Panurgo diz:

    É por estas que nunca hei-de deixar um filho meu ler; o puto em vez de se meter na droga, meteu-se no Dosto e no Poe e olha, foste. Nem violou a mãe. Uma tragédia.

    • Pedro Bidarra diz:

      Ó Panurgo, se calhar a solução é mete-lo simultaneamente na droga e nos livros. Provavelmente acaba escritor e as violações e catanadas serão só ficção

  10. manuel s. fonseca diz:

    Portugal é um país de twin peaks e a Imprensa tem muito a perder quando esquece a sua origem de “torcendo sai sangue”. Estou como a Ana Rita: mais! Com o corvo a adejar.

    • Pedro Bidarra diz:

      Tens razão. Faz muita falta saber mais deste Portugal de “Twin peaks”, de factos escabrosos e sangrentos que existe e que está encoberto pelo manto da opinião e telenovela partidária que parece ser quase tudo o que os jornais hoje publicam. Mas continuarei à procura.
      A pedido de várias famílias

      • fernando canhao diz:

        Vai para 7 meses foi a vez de um idoso abusado a matar o enteado com uma machadada nas costas. Alegou igualmente legitima defesa, o outro melro nem piou. Certamente e por ter visto na televisao, tal como tantos outros idosos, apos despachar o abusador o abusado lancou o machado por umas veredas. 3 dos GNRs convocados ja deram entrada no hospital local por cairem na vereda em busca do machado (arma do crime nos autos). O chefe do posto ja foi avisado pela mulher que se cair e ficar entrevado vai para um asilo. Perante isto o medico de familia do abusador e abusado, e pela natureza das coisas a pedido do chefe do posto ja emitiu dois atestados, um onde se diz que o abusador morreu na cama apos doenca prolongada e outro onde declara que o abusado tem saude para tirar a carta de conducao uma vez que o Opel Corsa Van diesel do abusador passa a ser propriedade do abusado. O Corsa, semi novo, bom de mecanica, seguro e imposto pago, inspeccao feita no passado mes, tem varios premios obtidos em encontros de Tunning na zona de Badajoz.

  11. ~CC~ diz:

    O mal é qualquer coisa que se infiltra de fininho e pode estar o sangue já se ter saturado dele aos 16 anos, depurá-lo pode ser impossível e a cadeia certamente não o fará, não obstante ser o único lugar possível. Ficam-nos tantas perguntas.
    ~CC~

    • fernando canhao diz:

      ele ha males que veem por bem.

      • ~CC~ diz:

        Pois, pois…mas agora não sei se se safa…dentro de uma cadeia o puto vai ter a vida (ainda mais) lixada para sempre…Com tanta comissão de protecção de menores, linhas de emergência, psicólogos na escola…porque é que o miúdo não fez queixa? Estas são as minhas perguntas…entre outras.

        • MJC diz:

          CC, pelo que li em cima e acabei de confirmar ele está em casa com pulseira electrónica continuando a estudar.
          CC, era tão bom que fosse assim tão fácil falar. Se nem nas grandes cidades onde a informação é maior isso acontece, imagine agora no interior. Sabe lá se sofreu ameaças para não falar com ninguém? Será que a escola em causa tem psicólogo? Apanhou 9 anos e concordo com o argumento do juiz “nada justifica a morte de uma pessoa”. Se fez o que fez foi porque atingiu o limite suportável por qualquer ser humano. A consciência auto-critica que teve levou-o a andar 25 km … que o Pedro Bidarra descreve, extraordinariamente, para se entregar à polícia é revelador de alguma coisa. Não lhe parece?

  12. Acidental diz:

    Os corvos simbolicamente significam regeneração. O facto de o corvo se ter libertado daquele corpo significa que o jovem irá regenerar-se ou pelo contrário a sua partida significa que não há hipótese alguma?

    • Pedro Bidarra diz:

      E pronto… tinha que vir uma pergunta difícil 🙂
      No caso da história o corvo é esperança,
      “essa coisa silênciosa e sem penas
      que mesmo sem fazer barulho
      nunca se cala”
      como diz o poema da Emily Dickinson.
      E no fim alívio. E é corvo por causa da regeneração (de que muito bem fala) e da inteligência que o puto deve ter.

  13. MJC diz:

    Pedro Bidarra, peço desculpa por ter respondido no seu lugar. Só agora tive noção … mas foi superior. Esta coisa de vermos tudo à luz do nosso umbigo e de Portugal ser Lisboa e o resto é paisagem … fez-me, enfim … 🙂

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