A Decadência do Inverno

Durante o Inverno reinam os Deuses do Nada
que são dois dos três Deuses do universo.
Os Deuses do Nada, que são a Escuridão e o Frio,
paralisam os átomos, que praticamente param
e se recolhem em tocas e buracos debaixo da terra
que é onde resta alguma luz.

Os Deuses do Nada, não têm átomos nem partículas.

Na Primavera reina o Deus do Tudo.
Quando a Primavera chega, a neve, a branca manta dos montes,
pura e magnífica obra dos Deuses do Nada,
mistura-se com a lama castanha e suja
e transforma-se em farrapo que se derrete
e escorre em transparências.

As catedrais de gelo, feitas de átomos dormentes,
por ordem dos Deuses do Nada, colapsam;
e então os átomos acordam e rebentam do chão
em forma de formigas, marmotas, ursos e ervas.
Das cloacas saem ovos, dos ovos saem pássaros,
das tocas e dos ventres saem pessoas e dos ramos secos,
folhas, flores e, mais tarde, frutos.

O Deus do Tudo, que é a Energia, é feito de partículas.

Na Primavera os Deuses do Nada sucumbem.
As catedrais de gelo e as mantas de neve, derretem (como já foi dito),
o branco vira cor e o nada muitas coisas pequenas, mais pequenas
do que as majestosas obras dos Deuses do Nada.

É a decadência do Inverno.

(Uma prédica cientifico animista proferida no dia do equinócio pelos Sacerdotes do Costume duma colónia patagónia)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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14 respostas a A Decadência do Inverno

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Como é que da decadência sai tanta vida? E ouve-se aqui o barulho.

  2. E num ano em que não houve Inverno como é? Que desmandos, que desordem, que assombros acontecem?

    Se os átomos não chegam a recolher-se, se as partículas não chegam a aquietar-se, se dos ventres saem pessoas sem que antes as pessoas se tivessem chegado a acolher junto às lareiras, se das árvores saem folhas e flores e frutos sem que antes as raízes se tivessem chegado a acomodar, diga-me: como ficamos?

    O Tudo e o Nada na maior confusão…? Num banho de lama apenas imaginado?

    Pois não sei. Uma confusão, é o que é.

    • Pedro Bidarra diz:

      É uma confusão é.
      A primavera já foi por demais cantada. Tenho saudades do Inverno que não tivemos. E é verdade, sem o assombro do Frio e da Escuridão, a coisa fica preta com a luz, que paradoxalmente queima

  3. uma belíssima decadência
    brrrrrrrr … fria!

  4. Benvinda Neves diz:

    é preciso conhecer-se os “deuses do nada”, para se apreciar em pleno o “Deus do tudo”.
    Gostei muito.

    • Pedro Bidarra diz:

      Muito obrigado. Parece-me que nos arquivos do Costume, há mais prédicas assim. Vou procurar

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Deuses são Deuses, mesmo gelados, mesmo (a expressão é deliciosa) quando são “Deuses do Nada”.

    • Pedro Bidarra diz:

      Lembrei-me agora, que na hierarquia dos deuses, também deve haver semi-deuses do nada. Heróis do nada há. Eu conheço alguns.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    É, os Deuses do Nada trabalharam pouco este ano, o que confunde os relógios naturais.
    Goste muito, é claro.

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