A Fotografia Mais Triste do Mundo

 

Não sei se existe algum galardão referente à categoria de “fotografia mais triste do mundo”. Sei que o nosso “Dottore” Manuel deve ter lá no sótão exemplares dos “filmes mais tristes do mundo”. Também sei que Walter Hugo Mãe introduz num dos seus livros a personagem do ” homem mais triste do mundo”, personagem deveras interessante.

Mas se existisse a tal categoria eu  tenho guardada pelo menos uma fotografia que escolheria para concorrer ao prémio. Como somos um blog de tristes aqui a deixo, para se entristecerem comigo.

Quem a captou foi Herbert Maeder, um fotógrafo Suíço, e intitula-se, tristemente devo dizer, ” Enterro de Giacometti”. Retrata o enterro do escultor Alberto Giacometti, no ano de 1966.

Mas não é só o tema que é triste.  Afastada, a imagem regista ao longe o cortejo, negras figuras cortadas sobre o enorme pano de neve que cobre casas e campo, indiscriminadamente. Tudo é solene, o silêncio imaginado dos passos que a neve atordoa, a carroça que leva o caixão, as árvores hirtas, estáticas, como compridos dedos ossudos, as janelas pretas recortadas nas paredes brancas.

O resto é branco, um cobertor de frio. Não consigo imaginar a fotografia em cores diferentes de estas, mas sinto-a justa homenagem a um dos grandes protagonistas da arte moderna, longe das multidões, dos olhares furtivos dos “paparazzi”, das pedras polidas dos palacetes pseudo culturais.  Imagino antes o cheiro da terra que Giacometti usava para moldar as suas criações, sobre as árvores despidas e o manto purificado da neve. Para o grupo de restritos amigos e familiares, era o sentido de justiça da história que se completava com o desaparecimento que a todos nos espera.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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16 respostas a A Fotografia Mais Triste do Mundo

  1. manuel s. fonseca diz:

    É a tristeza a cair em flocos do céu…

  2. Pedro Bidarra diz:

    Ouve-se o silêncio do branco

  3. sim
    é triste
    cai em mantos de branco
    longilíneos

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Mas belo também..há um cortejo que sai do ecrã, que continua…nada acaba aqui…

  4. teresa conceição diz:

    Parece um desenho a carvão sobre papel branco. Em lonjura respeitosa.
    É justo o distanciamento do desenhador. Como se a dor doesse menos à distância. Como se a morte se colhesse melhor de longe.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Teresa esse distanciamento é poderoso, como se fosse uma espécie de Deus que consegue ver as coisas de fora… e talvez porque como diz a dor se sinta menos à distância, esta dor porque outras talvez não…

  5. Diogo Leote diz:

    Bernardo, não sei se esta era ou não a fotografia mais triste do mundo. Mas, se ainda não o era, depois do teu texto passou a sê-lo. Tu também fizeste justiça a Giacometti.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Diogo, espero que seja uma tristeza bela, interessante e poderosa, em homenagem ao próprio Alberto.

  6. Ana Rita Seabra diz:

    Bem dito Diogo, fez-me lembrar as figuras/esculturas esguias e solitárias …

  7. Pedro Marta Santos diz:

    Tens razão, Bernardo: a distância é o segredo desta fotografia.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Agora que penso nisso, acho que não é só na fotografia, mas em toda a vida! A escolha de ter capturado a cena de longe é realmente central aqui…

  8. maria poppe diz:

    é verdade Bernardo, é como se com a morte todas as suas esculturas tivessem ganho vida e o acompanhassem no caminho…; é arrepiante esta fotografia por toda a justiça que lhe faz… Obrigada B por a teres desenterrado!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Sinto-a como homenagem fiel ao próprio giacometti, que nunca escondeu a sua fragilidade humana, a sua pequenez, que transformava em estatuas e desenhos monumentais. obrigado e até breve MP…

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