A Senhora do Cravo é alemã

Madonna com Cravo

Sobre a autoria ainda há uns resquícios de disputa. Durante séculos, pensou-se que o tinha pintado Andrea del Verrochio, em plena Renascença. Os especialistas asseguram hoje que é um puro Da Vinci e que Leonardo o terá criado nos anos renascentistas de 1478 a 1480. O que talvez faça deste cravo um cravo de três 25 de Abril.

Um cravo, um simples cravo vermelho, é o verdadeiro centro desta tela riquíssima. A mulher que o segura, presumivelmente uma Virgem, parece indecisa: deixa que os olhos se baixem vaga e sonhadoramente para a obscena cor da flor.

O menino, disputadamente filho desta Virgem, estende a gorda mão esquerda para aflorar as pétalas, enquanto a mão direita, mais decidida e intencionalmente possessiva, quer agarrar o caule. Nos olhos do menino perpassa a volúpia da posse: um cravo só é um cravo se for o cravo na mão dele.

Há, lá fora, atrás dos arcos renascentistas, uma paisagem mineral, caótica e inumana. A Senhora e o Menino ignoram-na: todo o seu mundo é um caule e uma corola, uma haste que se abre em vermelho. À sua volta, na sala que os acolhe, há um esplendor de veludos, o luxo de sedas que a Senhora veste e um exuberante broche prende e decora. Mas o silencioso olhar da mulher e o guloso olhar do Menino só vêem um cravo, o hesitante cravo, que ainda não sabe quem o pintou e em que mão, de mulher ou menino, vai acabar.

Agora, é claro que se alguém o quiser ver terá de ir à Alemanha. Este cravo alemão está na Alte Pinakothek de Munique.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a A Senhora do Cravo é alemã

  1. Gosto muito desta sua leitura da imagem, Manuel Fonseca.

  2. Rita V diz:

    mais um bocadinho e era uma curta do Museu
    gostei muito

  3. Pedro Bidarra diz:

    Mais um Da Vinci nunca é demais. E mais um cravo também não

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    É bom saber que há coisas boas nessa Alemanha que tem andado com tão má fama…mesmo que sejam Italianas…

  5. manuel s. fonseca diz:

    Ouvi dizer que agora também há coisas boas turcas. Salvo seja, claro.

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