A vida não é as coisas da vida

É preciso fazer um acerto de contas. A vida não é o que vem nos jornais, primeira página ou página de Economia, a vida não é a abertura do telejornal. Essas coisas são, é verdade, coisas da vida, mas ser da vida não é a vida e andam por aí muitas prioridades trocadas.

Não conseguiremos nunca, nem queremos, impedir que as coisas da vida estejam na nossa vida, mas a nossa vida é mais do que as coisas da vida. A vida é o nosso semicerrado olhar de gato a ver a espuma a escorrer pelo copo de cerveja e o mar ao fundo, a vida é a cama de lençol já amarrotado e o corpo nu que cede e se nos abre. As coisas da vida têm um preço, a vida não, que a vida não é puta. A vida é esse ronronar meio-feliz com que nos roçamos pelo amor ou, por amor, contra as paredes, a vida é essa melancólica contemplação do escuro e da luz, a vida é o paladar com que deliciadamente degustamos o desgosto da felicidade e o gosto da infelicidade. A vida somos nós, só nós, a sonora solidão de sermos só nós, mesmo sem ninguém, mesmo sem o Mundo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a A vida não é as coisas da vida

  1. Bau Pires diz:

    Sem querer – talvez não – a vida transformou-se numa espécie de caverna de Platão: poderá ser todas essas coisas acima apontadas, mas acabamos por ver (viver) as sombras que nos criam – e iludem – como a verdadeira luz da realidade, qual marioneta de teatro chinês.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel a vida é também melhor por podermos ler textos como este, rasgos sentidos de palavras encadeadas, que transformam esta existência em algo muito maior e muito mais profundo que as tais “coisas da vida”.

  3. MJC diz:

    Rendida!

  4. teresa conceição diz:

    Que bonito, Manel.
    Tantas coisas boas e más tem a vida. Que bom tê-la.
    E a si para a ler e nos dar a ler sobre ela.

  5. sofia guilherme diz:

    Até apetece escrever num caderninho.
    E ir acrescentando depois as outras coisas que são só da nossa vida.

  6. manuel s. fonseca diz:

    Bau, Bernardo, MJC, Teresa, Sofia,
    sorry, não consegui responder em tempo aos vossos comentários. Obrigado pela simpatia.

  7. Teka diz:

    Gostei tanto deste texto e fez tanto eco em mim!
    Além de muito bem escrito como todos os do blogue que infelizmente só há pouco tempo descobri, fez-me reflectir nas “coisas da vida” que não nos deixam viver as “outras coisas da vida”.
    Fica aqui este meu pequeno apontamento com sentido.
    Obrigada por nos fazer “pensar”!

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