Amanhã já não será

Gaston La Touche. Pardon Breton, 1896.

Amanhã já não será. Mas enquanto a manhã teima em fazer-se hoje, enquanto a noite se compraz em fazer-se eterna, carrega no ventre toda a culpa do Mundo. Negra e feminina. Muda e calcária. E é o silêncio, o peso bíblico do silêncio, que a rasga por dentro. Uma vergonha milenar. Um útero que pulsa, uma vela que sangra. Ao longe um homem chora lágrimas de cancro. E amanhã já não será.

 

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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5 respostas a Amanhã já não será

  1. manuel s. fonseca diz:

    É tão branca esta culpa!

  2. Pedro Bidarra diz:

    E pesada, meu deus, e pesada

  3. Carla L. diz:

    Lembro-me de já ter visto esta imagem em outra paragem, mas ela vinha acompanhada de roupa mais leve. A de hoje acompanha o clima, chuvoso, pesado e melancólico.

  4. Rita V diz:

    pode ser uma bela despedida

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Haverá um rasgo no céu plúmbeo, uma nesga de céu talvez azul, no dia depois do amanhã…

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