As Mulheres de Hawks

Houve uma altura, 1989, em que escrevi na “Marie Claire”, revista de que a Maria Elisa era então directora. Lembro-me de ter grande liberdade para escolher os temas e o tom. A redacção era só mulheres. Dava gosto ir lá entregar em mão as tristes crónicas.

 As Mulheres de Hawks

Nos filmes de Howard Hawks as raparigas nunca são flores de estufa e os rapazes, guerra é guerra, trazem sempre um revólver na mão.
É verdade que não foram sempre iguais: evoluíram muito, da Louise Brooks de A Girl in Every Port (1928) à Angie Dickinson de Rio Bravo (1959), tornando-se cada vez mais fortes, positivas e sensuais. À medida que envelhecia, moldava-as velozes, assertivas e obstinadas.
Não houve, no cinema americano, mulheres comparáveis às dos filmes dele: mulheres como Lauren Bacall, Marilyn Monroe, Rosalind Russell, Barbara Stanwick, capazes de converter a batalha dos sexos numa batalha de contendores iguais, mais destras na linguagem do antagonismo sexual do que Gary Cooper ou John Wayne a lidar com um Colt 45.

Ensaiemos o retrato robot da mulher hawksiana. O primeiro traço comum é que todas têm um passado. São (ou foram) más raparigas. Cantaram em saloons. E se parecem o protótipo do objecto sexual, sofreram o suficiente para deixarem de ser objectos, sem nunca desprezarem o sexo.
Hawks confessou-o: gostava de descobrir actrizes novas e sedutoras, mas queria que nos filmes elas parecessem mais velhas, experimentadas, maduras, sem perderem o ar jovem. Dir-se-ia tratar-se do sonho sexual perfeito mas impossível. Impossível até olharmos para a Lauren Bacall de Ter e Não Ter e À Beira do Abismo, ou para a Angie Dickinson de Rio Bravo.
A mulher hawksiana, e é o segundo traço, toma a iniciativa. São elas que escolhem os homens. É bom de ver que os homens de Hawks eram tipos duros, habilitados a pilotar um avião numa tempestade, a aguentarem numa trincheira com o fogo cerrado de um exército inteiro. Só têm pavor das mulheres: fogem delas como da peste como se lhes tivesse acontecido ‘alguma coisa’ no passado. São gatos escaldados: se uma mulher os quiser tem de os arrancar do castelo em que se acantonaram.
É por isso que Lauren Bacall é tão agressiva com Humphrey Bogart em Ter e Não Ter. Cada frase dela faz cair uma das defesas dele. O ritmo vivo dos diálogos, e a inteligência do que dizem as mulheres de Hawks, esmaga a lógica defensiva de qualquer homem. O mal de John Wayne, em Rio Bravo, é deixar Angie Dickinson falar. Elas falam e todo o homem descobre que é apenas uma criança, vá lá, um adolescente, e que as suas putativas virtudes – coragem, iniciativa, ética –constituem, em grau superior, a bagagem da mulher madura que lhe fala.

Quer nos filmes de aventuras, quer nas comédias, as mulheres de Hawks têm absoluta consciência do seu valor e sabem o que querem. Para além de Bacall e Dickinson, fazem prova deste ponto a Katharine Hepburn de Duas Feras, a Rosalind Russell de O Grande Escândalo. Curioso, num caso em versão ingénua, noutro em versão cínica, é sempre a Cary Grant que elas levam a palma.
Mas, mesmo que escolhêssemos o mais difícil caminho de prova, também poderíamos chamar à colação a Marilyn Monroe de Gentlemen Prefer Blondes. Nunca ninguém esteve tão consciente de representar, ponto por ponto, os fantasmas sexuais masculinos. É por ser o espelho do que vai no inquieto e fútil cérebro de um homem, que Marilyn pode, com toda a amoralidade e sem escrúpulos, fazer os homens pagar o mais alto preço por essa imagem ilusória.

O retrato das mulheres de Hawks fica muito desfocado se não for referido um terceiro traço, a sua independência. Só os anjos têm asas e anjos é coisa que as mulheres de Hawks não são. Não é só pelo que se vê, também é pelo que se ouve quando elas falam com vozes baixas e roucas, mostrando mais aptidões para barítono do que John Wayne.
Sem asas, as mulheres de Hawks não voam, mas sentem-se e andam muito à-vontade em cenários que o cinema clássico reservava aos homens – a redacção de um jornal, a selva de
uma caçada no Quénia – despoletando a tensão sexual que constitui a assinatura dos filmes do cineasta. As heroínas de Hawks demonstram a sua autonomia aceitando o perigo como parte integrante da vida: Lauren Bacall, em Ter e Não Ter, aguenta sem uma careta as duas estaladas de um polícia infecto.
Numa coisa os filmes de Hawks são filmes de homens: de todos os perigos e riscos que correm os heróis masculinos de Hawks, o maior teste de coragem, o teste último de virilidade, é reconhecer e aceitar essas mulheres afirmativas que, nessas décadas de cinema dourado, inverteram todas as regras passando de caça a caçadoras.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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22 respostas a As Mulheres de Hawks

  1. MJC diz:

    No fundo, bem lá no fundo, o que todos procuram, os durões e as duronas, é desnudarem-se das convenções e dos mitos com que os envolveram e se envolveram e terem o beijo, o abraço, o colo com que se embalarem mutuamente.

  2. manuel s. fonseca diz:

    O colo é sempre bom, mas antes e entretanto há tanta água a correr debaixo das pontes: troubled water, I mean.

  3. Margarida diz:

    Esses são romances reiterados (e bem); misterioso foi o fim da Marie Claire portuguesa – essa sim, a melhor revista do género no nosso País.
    Um absurdo, esse sumiço. Que se passou? Dão-se alvíssaras.

    • manuel s. fonseca diz:

      Dos romances já sei pouco, Margarida, mas do fim da Marie Claire é que não sei mesmo nada…

  4. Pedro Bidarra diz:

    Confissão: todas as minhas mulheres foram hawksianas

    • manuel s. fonseca diz:

      Mai nada: é de homem!

      • manuel s. fonseca diz:

        Tem razão: belo axioma.

      • RB diz:

        ehehehhehe Gostei dessa Eugénia.

      • Pedro Bidarra diz:

        No singular? De que singular fala a minha queerida Eugénia?
        “Toda a minha mulher foi Hawksiana” ou “A minha mulher foi Hawksiana” (no último caso serei viuvo ou defunto a falar do além).
        E não, não serei Hwaksiano embora os personagens dele, como o Philip Marlowe do Chandler e o James Bond (por causada habilidade de conduzir qualquer veículo em terra mar e ar) tenham sido modelos da juventude.
        ps: gosto que tenha gostado da crónica, Virão mais

  5. Luciana diz:

    Manuel, mas que injusto, um post que eu venho há tempos tentando escrever e zás, já havia….delicioso texto e que sorte tinham as leitoras de Marie Claire por aí!

    Hawks é um dos meus diretores favoritos – ali ali com Ford – gosto dos climas que criava e dos personagens absolutamente carismáticos…”I’m a storyteller – that’s the chief function of a director. And they’re moving pictures, let’s make ’em move!”

    Sem falar que “você sabe assobiar, não sabe?” faz parte do meu repertório de piadas internas que sempre fazem a vida ter uma cor a mais…

  6. manuel s. fonseca diz:

    Ora veja só como uma injustiça pode ser um farto motivo de alegria. Ainda bem que gostou e que até a pus a assobiar, Luciana. Obrigado pela sua sempre grande gentileza.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Assobiar-se uma pessoa a si mesma é um grande conceito: será deitar o ar fora e ficar o som dentro?

  8. Foram-se os cravos, ficaram as rosas:

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Grandioso texto e tema, tão “enorme” como as ditas senhoras que Hawks trouxe para o ecrã…ou as grandes mulheres por detrás da “lente” de um grande homem.

  10. manuel s. fonseca diz:

    Bem visto Bernardo, as mulheres de Hawks, que me esteja a lembrar nunca são do formato portátil. São “enormes”, boa perna, um peito que é um consolo e mesmo quando saem porta fora, dá gosto ficar-se à janela, a vê-las ir andando, oscilando, até uns bons 50 metros de casa…

  11. pedro marta santos diz:

    As minhas mulheres favoritas do senhor Howard Winchester Hawks são a Carole Lombard (uma enorme actriz, desaparecida aos 33 anos num desastre de avião) e o Cary Grant em “I Was a Male War Bride”.

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