Conversa Filosófica de Café

-No tempo em que papaia era luxo, a manteiga escasseava e o vinho era da Bairrada, ácido no estômago,

-Era o tempo em que a televisão tinha sardas, pretas e brancas, as estradas camiões que não se deixavam ultrapassar, e muita poeira,

-E as “sandes” de queijo tinham só uma fatia, a sair para fora do pão, os envelopes já tinham o selo, para poupar, e o bitoque era um prato mais sofisticado lá no café, com “pickles” de conserva,

-No tempo em que não havia “jeans”, e os bonecos animados eram checoslovacos,

 -Nesse tempo pensava-se menos no futuro, que tinha uma tonalidade castanha, como os casacos das pessoas que enchiam os velhos autocarros…

 -Pois, agora comemos espargos verdes frescos, e os supermercados têm “foie gras”, e existem excursões a preços pindéricos às Maldivas,

 -Agora somos  mais sofisticados, refilamos que o “rizotto” não está “al dente”, e é tarefa difícil escolher o tipo de pão nas novas padarias, tantas são as variedades,

 -Agora a água sabe a limão e há cervejas de framboesa, a manga é fruta banal que se desperdiça e o “sushi” serve-se em restaurantes chineses,

 -Pois, agora  somos responsáveis e tomamos conta do “ambiente”, seja lá o que isso quer dizer, mas tudo se lava e empacota entre regras complexas e plásticos, e a sardinha magra é deitada fora,

 -Agora confundo-me a tentar entender o que é que mudou mesmo, talvez menos do que pensamos, talvez mais do que aquilo que vemos,

 -Agora vou ali sentar-me no “Zé” e pedir uma carcaça com um queijo seco em fatias, um copo de vinho que pode ser do Douro, mas “não muito caro”,

-Vou olhar o rio que continua ali, mesmo com a Troika a ordenar as marés, e dizer mal do país e dos políticos, e da porra da chuva que já me estragou o fim de semana…

 -Agora percebo que tudo mudou muito por fora mas pouco por dentro, e ainda bem,

 -Agora, ao imaginar o futuro tenho a sensação que a laranja vai passar a ser fruta dos ricos, um luxo só para alguns, e vamos voltar a comer pão do dia anterior,

-Pois,  vou ficando velho, como este aqui em baixo, a ver o tempo passar e o país a andar para trás,

-E qualquer dia o “Zé” ainda fecha e então é que está tudo estragado.

                                                         Eduardo Grossman, Untitled, 1982 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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9 respostas a Conversa Filosófica de Café

  1. Rita V diz:

    estava à espera da sandes de mortadela e da canada-dry de laranja
    ( sim porque a laranjina C … )
    😀

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Ou mesmo pão com “flora” , ou sande de torresmos…eu gostava da larangina C…e ainda havia aquelas pastas de fiambre…UGGGGHHH!

  2. teresa conceição diz:

    Grande diálogo, Bernardo. (Ou monólogo).
    Bem caçado: as conversas de café entre quem tem tempo para se queixar da vida acabam por seguir um rumo semelhante a este.
    Mas é preciso muita filosofia para a conversa chegar ao “tudo mudou muito por fora mas pouco por dentro”. Desde que o Zé nao feche e o chão não nos saia debaixo dos pés…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Gostei desse “ter tempo para se queixar da vida”, porque é mesmo isso há que gastar tempo para dizer mal do mundo…acho que o chão vai ficar onde está com mais buraco ou menos buraco… Ou como diz Pessoa:
      Tudo o que sonho ou passo,
      O que me falha ou finda,
      É como que um terraço
      Sobre outra coisa ainda.
      Essa coisa é que é linda.

  3. inma diz:

    Um grande diálogo , lembro-me quando era criança na minha aldeia cá em ESpanha, não tínhamos brinquedos, porém, brincavamos quebrando vidrios com a fisga feita po nós mesmos.
    Em Espanha e Portugal acontece o mesmo, em Espanaha monarquia, Portugal monarquia, republica para os dois , queda economica em um queda economica em outro.
    Não vamos mudar.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Sabe que pensei numas tardes bem passadas a beber cervejas em copos grossos, por terras do norte de Espanha, que como bem diz são muito parecidas com as nossas. E também acho que não vamos mudar , o segredo está em sabermos “brincar com brinquedos feitos por nós mesmos”… E não envelhecer nas rugas do azedume…obrigado pelo comentário…até breve

  4. G. diz:

    Disse tudo quando disse que tudo mudou por fora mas não mudou por dentro. De facto os tempos mudaram, mudaram-se as vontades, mas as mentalidades continuam por mudar….passados 38 anos esperava-se mais e melhor…. não sei o que correu mal… mas gostaria de um dia poder saber para explicar ….. às futuras gerações!!! :/

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Acho que é um balanço que devemos todos fazer, não acredito que tenham sido só os outros a fazer o país que temos agora…Claro que nem tudo é para pior, o que quis tentar dizer nesta pequena ficção é de que muito do que muda nem sequer é o mais importante. Como bem diz as mentalidades mudaram pouco, no meio de uma sociedade de consumo que parece tudo esconder…Resta fazer o melhor que pudemos e não desistir…Obrigado pelo comentário!

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Conversa boa!
    O Zé não fecha e somos felizes com uma sandes de queijo seco acompanhado de um belo tinto do Douro e olhando o Rio. Há melhor??

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