De volta, para uma morte inventada (I)

 

                                                    henry cartier bressson

Tinham ido busca-lo à estação de comboio.  A gare estava praticamente vazia, uma ou outra pessoa, no dia frio. Olhou os postes metálicos da linha eléctrica, enferrujados. Um leve aceno e um sorriso amarelo, as coisas não iam ser fáceis, agora que tinha passado tanto tempo fora. Tudo aquilo lhe parecia um pouco retrógado. Meteu a mala na caixa aberta da carrinha, e tapou-a com um oleado. Um rasgo de azul pálido, num céu cinzento opaco. A terra escura, molhada, no desfiladeiro da estrada, o verde das plantas a aparecer por baixo da mancha branca da neve.

“Estás mais magro. Eu calculava, lá para esses sítios ninguém deve saber cozinhar!” Lá saudades da comida tinha, mas era um preço demasiadamente caro para pagar. No fundo entendeu que algo estava errado. E sentiu um forte aperto no coração. Conseguiu disfarçar, até que entraram no pátio cheio de pedras polidas pelo tempo.

“Preparei-te o quarto do anexo, é o teu preferido não é ? Se quiseres podes escolher outro, não há problema nenhum.”  E todos me tratavam tão bem, porque seria? Eu é que tinha ido embora, e voltava agora porque estava a morrer…não porque queria mesmo voltar! O cheiro forte das folhas dos eucaliptos refrescou-lhe o nariz, fresco da aragem. Lembrou-se de Gina, que dizia: ” a morte é dura para quem fica, não para quem morre.” Porque eu sempre tive pena de quem morre, mas quem morre tem pena é de quem fica.

Sentia-se demasiadamente bem para quem estava a terminar os seus dias, a única dor era ter de avisar todos os outros. Era isso que lhe custava. Mas deixou o cansaço vencer, e adormeceu, já sobre a cama, ainda vestido, com o dia a acabar na janela escura, o verde que passava a negro, as cores a desaparecer na sombra. Acordou com frio e numa escuridão de campo. Lembrou-se onde estava, e sentiu-se sujo. Olhou lá  fora a luz da casa, o fumo branco da chaminé como mancha na noite escura.

Ao jantar, as paredes amarelas pintadas de novo, as caras alegres, os sorrisos de força. Todos me olhavam com interesse,  admiração, de forma natural, e falavam também do que mais se tinha passado neste lado do mundo, pela quinta, pela casa, pela cidade, lá na capital.  Casamentos, o João tinha ido viver para longe, a Francisca arranjou trabalho e namorava um colega na fabrica.

Aquele não era o seu mundo, mas que mundo era o seu? O que tinha vivido fora dali? Por um momento não conseguiu lembrar-se do passado recente. O jantar tinha acabado, e passaram a conversa para a sala, ainda aquecida pela grande lareira. Os tectos altos de madeira pintada, a velha mesa com gavetas pesadas, fechadas com chaves de ferro, pretas e baças.

No dia seguinte falaria com todos, talvez até ao almoço.  Acordou com sinos. No ar limpo um odor a tudo, fresco como a manhã . Levantou-se com a sensação de ter estado toda a noite acordado.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

10 respostas a De volta, para uma morte inventada (I)

  1. Vasco grilo diz:

    Excelente regresso a casa, Bernardo. Excluindo a doenca mortal gostava que os meus regressos tivessem todos este poetico sabor.
    Abraco.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Vasco, é suposto ainda não ter acabado! E a morte pode vir a ser ” inventada”…

  2. aquele I (UMzinho) lá em cima deixou-me a pensar
    que o ‘resto’ segue dentro de momentos
    😀

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Rita o ” unzinho” quer mesmo dizer isso, vai haver um “resto”, para não ser aborrecido dividi o texto em vários….uma espécie de estratégia de “marketing”….just kidding…!

  3. Teresa Conceição diz:

    Que bonito, Bernardo.
    Por momentos, só por momentos, lembrei-me de Pedro Páramo, de Juan Rulfo.
    Mas esta é outra viagem. E é bom saber que há mais.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Sinto-me lisonjeado !….gosto muito de Rulfo, e o Pedro Páramo marcou-me durante muitos anos, quando vivia nos Estados Unidos e me “aconchegava” nos amigos latinos Sul americanos…

  4. manuel s. fonseca diz:

    Bernardo, bela descrição do desconforto e da estranheza: dito assim, ninguém neste mundo sente que seja este o “seu mundo”. Ou, como dizia o JC, “se o meu reino fosse deste mundo teria aqui os meus ministros para me defender”…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É um sentimento que talvez só acabe com a morte? que mundo o “nosso mundo” senão todos os mundos juntos?

  5. Carla L. diz:

    Isso é tão Portugal…e faz tão bem à alma!
    Desde o comboio, a gare, a carrinha, o oleado, até o quarto preferido, as paredes pintadas de novo e as chaves de ferro, pretas e baças.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É mesmo isso Carla! Mas sabe que muitas das vezes é quando se está longe que se entende melhor o que nos é mais chegado…ainda bem que lhe fez bem à alma, é só isso que interessa…até breve.

Os comentários estão fechados.