De volta para uma morte inventada (II)*

                                                                      G.Courbet “Le flux Noir Puits”, 1865 

A manhã tinha-se feito límpida, um céu aberto que tresandava a campo. A cara feliz e rosada de Zulmira, que carregavas carcaças ainda quentes para a mesa, o olhar de graça de João, depois de soltar as vacas no terreiro. Os animais pareciam-me mais ordenados e inteligentes do que nós, que andamos anos a aprender a ser gente, longe da verdadeira fonte. Lembrou-se do galinheiro por debaixo dos quartos, será que ainda existia? O cheiro a palha seca na manhã, o café com leite em chávenas gordas. Tinha sido o ultimo a acordar, já todos vestidos e aprumados falavam sobre a mesa de granito coberta por uma toalha de plástico aos quadrados, brancos e vermelhos, na sombra do plátano.

Queria ir ver o rio, saber se estava como o lembrava, a luz do sol nas tílias, como lâmpadas acesas durante o dia, reflectida na superfície de água que corria.

Tinha-se quantificado em sentimentos arrumados delicadamente, como livros numa biblioteca sem luz. Do amor já só lembrava o hábito, um par de notas em cima da cama, a cidade muda na janela grande, e beldades de corpos perfeitos que nunca viram o verde da erva depois da chuva.

Saíram pelo pórtico com o sol de chapa na eira, as árvores hirtas deixavam as folhas dançar, a terra ainda húmida da noite, agarrava-se aos sapatos, como o desenrolar de um mundo secreto em pensamentos que corriam uns atrás dos outros, escondendo o sentido das coisas do mundo, ou como tudo era um mistério. O pomar de macieiras largava um odor fresco e líquido, que se bebia no ar, com os raios de luz a trespassar a copa das árvores e a marcar no chão o ritmo de luz, sombra, luz, sombra.

“Já viste? O pomar está maior, desde que o João comprou terras ao Amadeu”. E queria ter um pomar para si, plantá-lo, acarinhá-lo, e uma janela a olhar por cima de tudo.

O vale do rio aproximava-se em silvados repletos de amoras, e pequenos tufos de canas verdes, muito direitas. O ruído da água que corria fazia eco na sua cabeça, demasiadamente alto. Enormes corvos negros pousavam junto à margem plana, sobre o campo de trigo desbastado. Contaram-lhe que a Mistérios tinha sido atropelada no ano passado mas estava a recuperar bem, “podes ir lá visitá-la, ela gostaria muito! Está sempre a perguntar por ti!” A Mistérios! Onde isso já ia, eram crianças mal vestidas sujas da poeira do campo e a cheirar a flores amarelas, o cabelo emaranhado como ninhos de andorinhas.  Mais tarde na passagem para a idade adulta antes do tempo, a liberdade do espaço, as noites de lua deitados de costa na palha a olhar o céu estrelado e negro.

O rio parecia petrificado na memória, até os troncos velhos e mortos mantinham o seu lugar, uma pintura que não se alterara. Passou as mãos na água fresca e límpida, dizia-se que já não se a podia beber, mas foi isso mesmo que fez, as mãos a fazer de malga.

“A vida tem passado por mim como uma rajada de vento frio”, disse em voz baixa olhando Ana, o corpo delgado sob um vestido branco de verão, os cabelos que caíam pelos ombros destapados, uma boca delineada por um traço fino na face de pele queimada. “Então, deixa-te ficar uns tempos!”

Veio-lhe uma enorme vontade de vencer a morte que o comia por dentro.

No caminho de volta, orientado pelos arbustos densos que cresciam morro acima, pegou-lhe na mão e percorreram o caminho como numa procissão que avançava devagar, dominando o tempo.

*estava prometido!

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a De volta para uma morte inventada (II)*

  1. Benvinda Neves diz:

    Nem a morte, quando nos come por dentro, consegue separar-nos da infancia que guardámos no intimo. A infancia será sempre companheira decisiva de uma vida, talvez por isso a vontade de regressar e ter a ilusão que se vence a morte.
    Gostei…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Ainda bem que gostou. A infância é também vida, inseparável do resto. No fundo tudo se liga, acho eu!

  2. manuel s. fonseca diz:

    Vou deixar-me ficar por aqui uns tempos… Está-se bem, devagar

  3. Rita V diz:

    devagar … em câmara lenta …

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É isso mesmo, devagar, longo plano, a camara fixa, alguém que se mexe lá ao fundo…mas não adormeça!

  4. pedro marta santos diz:

    Excelente. Fizeste-me estar lá, a observar os verdes e os azuis, as árvores, o rio.

    • Bernardo vaz Pinto diz:

      Pedro, acho que é sempre bom guardar tempo para parar…e viajar na sugestão das palavras…

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