Disco-de-companhia para estimular a produtividade

 

Há uma certa categoria de discos, que muitos conhecerão, que servem, acima de tudo, para nos fazer companhia. Não se trata de uma qualquer companhia. Nada que ver com a companhia de uma dama. Nada que ver com a companhia de um amigo com quem afogamos mágoas ou dividimos solidões. A sua função é, simplesmente, a de nos fazer sentir acompanhados quando temos pela frente alguma tarefa árdua ou penosa que nos obrigue à máxima concentração. Qualquer coisa como trabalhar pela noite fora com um resultado em vista. Se ainda não experimentaram fazê-lo ao som de Home Again, o brilhante álbum de estreia de Michael Kiwanuka, nem sabem o gozo que isso pode dar. Não estou a brincar, tive-o por companhia nas últimas noites e garanto-vos que é o perfeito dois-em-um do lúdico ao serviço do profissional. É tudo como se voltássemos a ser criancinhas, e a um tempo em que se fazia do entretenimento o meio por excelência para a aprendizagem. É que já está o dia a raiar, e nós com vontade de continuar a trabalhar, desde que o Michael Kiwanuka se mantenha ali ao lado, a cantar só para nós. Fosse o nosso país permeável a ilusões destas e estaria descoberta a receita para combater a falta de produtividade.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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13 respostas a Disco-de-companhia para estimular a produtividade

  1. teresa conceição diz:

    Diogo, que óptima companhia. É uma delícia.
    Quanto a ser estímulo à produtividade já não tenho tanta certeza. Vou pôr a tocar outra vez para ver o que acontece.

  2. Diogo Leote diz:

    Teresa, aposto consigo que ainda vou ouvir o Kiwanuka como banda sonora de uma sua peça.

  3. Teresa Conceição diz:

    Diogo, não aposto… que ainda perco.

  4. Rita V diz:

    gostei de conhecer …
    mais!

    • Diogo Leote diz:

      Rita, peço desculpa pela demora. Já me sentia em falta em atender o teu pedido de mais música (esta, se “ranhosa”, é só porque é capaz de provocar lágrimas e ranho a almas sensíveis).

  5. sem-se-ver diz:

    ontem, tb por aqui. mas o chico violão do arthur nestrovksy levou-lhe a palma.

    : )

    • Diogo Leote diz:

      Cara sem-se-ver, e eu que não conheço o Arthur Nestrovsky. Falta grave a minha. Obrigado pela informação.

  6. heloisa diz:

    Caramba, que lindo!!!

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Bela companhia sim senhor, mas quando se tornar mais do que isso, passa a ser outra coisa qualquer? a música faz companhia mas não é só isso…é bem mais do que isso.

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, este Michael Kiwanuka é, obviamente, muito mais do que uma boa companhia. Desconfio que será o grande nome da música negra nos próximos anos.

  8. manuel s. fonseca diz:

    Belíssimas baladas. Pareceu-me um Otis Redding que tivesse convertido o soul, devagarinho, a um lirismo mais pop e feminino.

  9. Diogo Leote diz:

    Manuel, este Kiwanuka tem soul de Redding, jazz e folk em formato pop. E nervo de Ben Harper. Vai dar que falar.

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