Duas notícias para Bob Dylan

Se o Sr. Robert Allen Zimmerman me ligasse alguma coisa, teria duas notícias para lhe dar. Uma muito boa e uma muito má. A muito boa o próprio já está farto de conhecer: a de que ele, ou o mito a deu lugar de nome Bob Dylan, é o mais brilhante escritor de canções de sempre. Em relação à muito má, desconfio que se mantém na mais santa ignorância, embora acredito que não seja por falta de amigos que já lha sopraram ao ouvido: a de que é um atroz assassino de canções. Das suas próprias e brilhantes canções. Bob Dylan devia ser impedido de usar a sua horrorosa voz para cantar e, assim, destruir dezenas e dezenas de obras-primas. Pela parte que me toca, não conheça uma versão de uma música de Bob Dylan que não seja melhor do que o original.

Por estes dias, descobri mais um bom exemplo desta verdade indesmentível. Mas julguem os ouvintes por si próprios: comparem o original de Bob Dylan´s Dream, gravado em 1963, com a versão que dele fez o elegante Bryan Ferry em 2006. Estou a ser um tanto injusto, é verdade, ao pôr lado a lado uma gravação ao vivo de quase 50 anos (mas surpreendentemente boa quanto à qualidade sonora) e uma outra feita com todos os artifícios de um confortável estúdio. Mas compenso a injustiça com o favor que faço a Dylan em dar a ouvir a sua voz com límpidos vinte e dois aninhos, numa altura em que, pelo menos, ainda não feria tímpanos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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16 respostas a Duas notícias para Bob Dylan

  1. manuel s. fonseca diz:

    Ó Diogo, se o Dylan te puser de castigo, eu apoio. Então o Times They are a-Changin’ ou o Blowin’ in the Wind podiam lá ser cantados doutra maneira que não fosse com espinhos na voz? A revolução de costumes podia lá ser servida com a voz licor de café do Brian…

    • MJC diz:

      Ahahahahah
      Concordo. Manuel Fonseca. Penso que merece um bom castigo…

      Diria, antes, que o B. Ferry tem voz de licor de merda ehehehe
      O curioso é que da pesquisa rápida que fiz, para além da empresa que comercializa o produto só se ouve falar dele em sites brasileiros e este de um canal espanhol.

      • Diogo Leote diz:

        Cara MJC, eu já tive castigo que chegue com os espinhos da voz do Dylan cravados nos meus tímpanos. Poupem-me a mais sacrifícios! 🙂 E, já agora, poupem também o Bryan, que até deu uma ajudinha ao Bob em matéria de royalties…

        • MJC diz:

          Ok. Gostos não se discutem. Ponto. Regressei para dizer que, de facto, como em muitos “cantautores”, por vezes as coisas saem melhor, quando interpretados por outros. Deixo aqui como exemplo, outra voz “roufanha” em que o mesmo tema ganha contornos excepcionais, quando comparados com os originais. Consigo ouvir, em modo replay o segundo, enquanto o primeiro nem chego ao fim.
          I want you – Bob Bylan
          http://www.youtube.com/watch?v=OrF1QJQEfZE
          I want you – Springsteen

          • Diogo Leote diz:

            Magnífica versão do Boss, cara MJC. Muito obrigado por me dar mais um argumento.

  2. Diogo Leote diz:

    Tens toda a razão, Manuel, em relação ao papel dos espinhos da voz do Dylan no seu activismo social e político. Mas a revolução já tem 40 anos e os espinhos tornaram-se inaudíveis!

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Dylan é um dos grandes compositores, mas confesso que a voz fanhosa enerva-me!
    Não consigo ouvir 3 músicas seguidas.
    Quanto ao BF, é fabuloso, sempre gostei dos Roxy Music e dele a cantar sozinho. Adoro os standarts que canta e para além disso é sexy – na voz e a dançar:-)

    • Diogo Leote diz:

      Ana Rita, como me compreendes! Eu não consigo ouvir nem uma de princípio a fim de há uns anos para cá…

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Diogo a César o que é de César…Dylan não primou pelas interpretações ao vivo, mas as gravações em álbuns ficam na historia do universo…sim essa mesmo voz de cana rachada consegue variações que ao comum dos ditos vocalistas são simplesmente impossíveis…basta ouvir “menphis blues again” e “just like tom thumb’ s blues”, ou o magnífico “forever young”. Gosto muito de Ferry, mas Dylan é Dylan, aguenta as boas versões e até as más como a dos Guns and Roses…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, mas é um facto que a voz de Dylan se tem vindo a deteriorar cada vez mais. Ou não tem todas essas gravações mais de 30 anos?

  5. pedro marta santos diz:

    Diogo, concordo contigo a partir dos álbuns dos anos 80 – aí já não se consegue ouvir o homem. Duvido que ele se consiga ouvir muito bem a si próprio…

    • Diogo Leote diz:

      Pedro, embora a voz nunca tenha sido o seu forte, é claro que me dirijo sobretudo ao Dylan dos últimos 30 anos…

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