E La Nave Va

 

"Titanic", de James Cameron

Pode detestar-se o festim melodramático, a inocência um bocadinho viscosa de DiCaprio, a inverosimilhança da facilidade com que o seu Jack Dawson passa da terceira classe no porão para os salões do convés, onde vagueia a rechonchuda Rose De Witt (Kate Winslet, antes do reiki e das curas de emagrecimento). Também se pode desprezar a cretinice do noivo milionário de Rose, Cal Hockley (Billy Zane, o pior actor do mundo, que colecciona à dúzia Picassos que ainda não foram pintados), os diálogos adolescentes, a grandiloquência da banda sonora (meu Deus, Celine Dion!). E no entanto: “Titanic” é uma das razões pelas quais o cinema foi inventado. Vibrante, arrebatador, excessivo, de um romantismo sem pudores, continua enorme como a tela, da escala do “Intolerância” de Griffith, “E Tudo o Vento Levou” de Fleming/Selznick, “Os Dez Mandamentos” de De Mille, “Ben-Hur” de Wyler. E há o génio de James Francis Cameron, que comanda esta baleia branca durante três horas até assistirmos a um clímax verídico e conhecido há um século, e que o director tem a desfaçatez de recriar, em animação, nos primeiros 30 minutos. Há um pouco de dramaturgia para toda as idades e desejos: os cinquenta minutos finais (ainda hoje tecnicamente inatacáveis), dedicados aos impacientes dos 12 aos 25 anos; a história de amor, transversal a várias gerações; o trabalho sobre a memória, que confortará os mais velhos. O segredo não está apenas no programa de matriz clássica: “Titanic” é um filme tão pessoal para Cameron como o “Vivre sa Vie” foi pessoal para Godard. O canadiano andou toda a vida a falar de mulheres inflexíveis ao ponto da masculinização (Mary Elizabeth Mastrantonio, a queen bitch of the universe de “O Abismo”), estóicas ao ponto da adopção (Sigourney Weaver feita Mãe-Coragem em “Aliens”), sobreviventes ao ponto da demência (Linda Hamilton nos dois “Exterminador Implacável”). É o problema das assinaturas: elas vinculam todos os criadores que têm algo válido para dizer, mesmo os que não deslizam como seda nos nossos quadros programáticos. Esperemos que Cameron não ceda em definitivo à infantilidade digital – comparado com “Avatar”, que poderia ter sido produzido nos anos 40 por Walt Disney, “Titanic” quase parece Tolstoy. A novidade 3-D? Acrescentada em pós-produção, uma dúzia de anos depois, cheira a requentado. Mas o filme aguenta tudo.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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7 respostas a E La Nave Va

  1. teresa conceição diz:

    Pedro, devo ser das poucas que não viu este filme. Dava-me sempre uma tendência para o vómito só de pensar nele (culpa da banda sonora, porque o trailer invadiu os cinemas e as repetições tornaram-no insuportável).
    Depois de o ler, fico tentada. Em 3D é que me parece excessivo.

  2. Luciana diz:

    Outra das poucas que nunca viu. Completamente irrelevante me parecia até ler este post. Mas, como a Teresa, caso veja, não será em 3D.

  3. Bernardo vaz Pinto diz:

    Tenho de concordar que existe mérito na forma como somos arrebatados até ao final do filme, no meio de alguma incredibilidade e de alguns pormenores menso interessantes…
    Agora em 3D já não vou lá…

  4. pedro marta santos diz:

    Acreditem que não é fácil de defender o filme publicamente. Sou logo abalroado por um iceberg de protesto e indignação. Obrigado pelos vossos comentários.

  5. pedro marta santos diz:

    Maria, experimente rever agora essas “obras-primas” com um olhar fresco. Concordo com a classificação, por motivos técnicos da história do cinema, em relação ao “Intolerância” e, por algumas matérias artísticas, relativamente ao “E Tudo o Vento Levou”. Mas não quanto ao “Dez Mandamentos” e ao “Ben-Hur”, que se arrastam solenemente e coleccionam momentos petrificados. Visite-nos sempre.

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