Encontros cá longe

Há certos acontecimentos na minha vida que são o corolário exacto do errático e caótico que por vezes ela realmente é.
O melhor exemplo está no facto de o grosso das minhas descobertas serem fruto dum quase acaso, e só digo que é quase-quase e não um completo acaso porque, valha-me S. Polifemo de Cortegaça, a minha curiosidade mais instantânea guia-se por reflexos e ecos de coisas que já vi ou ouvi – e de que gostei o suficiente para que os arredores das suas míticas moradas se mantivessem de alguma forma presentes na memória, e assim disponíveis para um reacordar.
Além do S. Polifemo (que por acaso não existe), conto ainda com a novidade operacional disponível na net – onde Youtube e Facebook fornecem aparelhos de ginástica e musculação de assinalável eficiência.
São os tempos modernos!
Chegámos a eles, afinal, com mais ou menos mazelas, e, é certo, correndo o risco de estarmos todos a ser inocentes cronistas, lentos mas eficazes, da nossa própria derrocada. Resta-nos portanto usufruir da paisagem.
Mas vamos à minha primeira descoberta caótica da semana (que por sinal é a segunda, como adiante provarei).
Quase sem sentir a vontade do gesto imperceptível do indicador direito, cliquei na imagem antiquada de uma cara bonita que aparecia na capa de um disco nunca visto ou ouvido, referenciada apenas pelo nome da desconhecida Monica Zetterlund, num lettering de reduzidas dimensões, e por um considerando publicitário de sabor genérico e tamanho garrafal: «Sweedish Sensation».
Gostei imenso do que ouvi, não sem achar que aquela cara tão desconhecida pelo nome era-me no entanto familiar. Depois de investigar a senhora, descobri porquê.
Além de grande intérprete de jazz, várias vezes convidada por monumentos como Louis Amstrong, Stan Getz ou Bill Evans, Zetterlund foi adventícia representante da Suécia no Festival da Eurovisão em 1963 onde obteve uma votação nunca atingida por mais nenhum outro concorrente em todas as edições do nefando objecto televisivo: zero pontos.
Até se percebe porquê.

Por momento pensei que seria daqui que a conhecia, mas estava enganado.
Entretanto, ouvi outra música dela e percebi melhor o cartaz de «Sweedish Sensation»: gostei muito deste Pearlie’s swine.

Mas foi quando li que a senhora também andara pelos cinemas que se me arrebitou a orelha: mais de 20 filmes, entre eles The Emigrants (1971), de Jan Troell, onde contracenou com Max von Sidow e Liv Ullman, num papel secundário que lhe valeu o mais conceituado prémio sueco de cinema.
É DAQUI que me lembro dela: é a senhora que penteia…
Ah! E a primeira música onde a encontrei é este Nothing at All.
Gostei tanto que deu para descer até ao drama: Monica viveu a última década da sua vida com uma escoliose deformante, numa cadeira de rodas, e morreu em 2005 num incêndio que consumiu o seu apartamento em Estocolmo.
Para acabar em grande, mostro só agora a primeira descoberta de que falei no início (sinceramente porque a achei mais conhecida, talvez por ser casada com Bill Evans, e também porque me parece  que já lhe vi o nome em qualquer lado).
Chama-se Meredith d’Ambrosio, e este seu Dancing in the Dark sabe-me a um Barca Velha de ano absolutamente vintage.

É ou não é?

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo.
E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado.
Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.

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14 respostas a Encontros cá longe

  1. Minhona David diz:

    Um autor que numa dúzia de linhas dá vida a um santo e o baptiza com um nome subtilmente aristocrático, ressuscita uma sueca imolada pelo fogo reencarnando-a numa ave doméstica com timbre melodioso, e rega o texto com um néctar voluptuoso e inebriante, é ou não é uma manifestação genial como mágico e compositor ?

    • António Eça de Queiroz diz:

      Uau, Minhona, ruborizo a pontos de pegar fogo que nem uma tocha!
      Ainda bem que gostou…

  2. manuel s. fonseca diz:

    Uma questão, António, “ela” ensinou-te a dizer em sueco: “oh que boas que são as sensações da Mónica!”

    • António Eça de Queiroz diz:

      Não Manuel, é uma falha grave da minha existência: nunca conheci uma sueca, nem de falar…

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Encontros destes são sempre bem vindos e bela descoberta esta da mulher de Bill Evans!
    Gostei muito.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    A Meredith é fantástica.
    Ainda bem que gostou, Ana Rita.

  5. António
    Gostei imenso
    Mas
    “Dancing in the Dark,” é do Arthur Schwartz 1931
    Letra de Howard Dietz
    e o
    Eu sei que Vou te Amar é do Tom Jobim (1958)
    Letra de Vinícius de Moraes

    São muito parecidas
    (fica-me mal dizer que são quase iguais)

    • António Eça de Queiroz diz:

      Não fazia ideia, mas tem toda a razão, há ali acordes muito semelhantes…
      Então esta é anterior à do Tom Jobim.

  6. teresa conceição diz:

    Que gostosa descoberta, António! Gostei de conhecer.
    Quanto a S. Polifemo, escusa de fingir que não existe, pois já tá no meu altar
    reservado às pesquisas mais rubicundas. E que invocar o seu nome não seja em vão.
    Não tá bem a ver a falta que um santo destes faz. Olhe que não é só em Cortegaça.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Teresa, neste momento o S. Polifemo de Cortegaça já tem vida cibernética, a que eu lhe insuflei (ao que isto chegou!…, ainda há quem acredite que o mundo não está todo de pernas para o ar), mas ainda é muito pouco conhecido mesmo em Cortegaça…
      Ainda bem que gostou.
      Quando regressa?!…

  7. sem-se-ver diz:

    é. obg, não conhecia, lá vou explorar : )

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    António acredito que o acaso é uma das razões que levam o homem a repensar a sua propria detruição: o não controlo das emoções e dos acontecimentos levam-nos à descoberta, ao desconhecido, que como bem nos mostrou reveste-se de laivos maravilhosos …

  9. António Eça de Queiroz diz:

    É isso, Bernardo, o acaso tem um papel absolutamente fundamental na nossa existência – não só pessoal mas também colectiva.
    E acho que ele realmente por vezes pode tocar o maravilhoso.
    Ainda bem que gostou.

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