Escrever em pé é um castigo

Por causa de uma adivinha literária, um muito estimado leitor e por vezes comentador, invocou um escritor dele em fogo para queimar outro da nossa estimação. Vai aqui uma grande fogueira. Deixem-me pôr água na fervura.

Ó Panurgo, o Nabokov era um motor a quatro tempos que em vez de queimar gasolina para se pôr em marcha, queimava escritores. Devia ter poucos complexos, devia: além de queimar o Faulkner, também queimou o Conrad que ele odiava: “I cannot abide his souvenir-shop style, bottled ships and shell necklaces of romantic clichés.” É malévolo, mas tem uma graça, olhe, do caralho. E ainda assim eu não trocava o “Heart of Darkness” nem pela obra toda do Nabokov. (E nem vale a pena metermos o “Lord Jim” nesta caldeirada.)

Além do mais, o Nabokov, cuja “Lolita” (maravilhoso carmesim da obscenidade) com a idade – a minha, entenda-se – cada vez mais me leva aos arames, escrevia em pé. Porra, um gajo que escreve em pé estafa-se todo e tem de começar a marrar com alguém. Sobretudo, se calhar, com os gajos que escrevem sentados.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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30 respostas a Escrever em pé é um castigo

  1. Rita V diz:

    ah! este não comento!
    andam a fazer grupinhos à parte
    ( risos)

  2. Panurgo diz:

    Eu estava aqui sossegado a ouvir a canção da Rita aqui em baixo. Lá tive de ir à estante. O Lolita ainda vá, nunca gostei daquilo. Agora, O Dom troca-se por pouca coisa. E já que se fala de bordéis…

    PRIMEIRA PROSTITUTA
    Tudo é água. É o que diz o meu cliente Thales
    SEGUNDA PROSTITUTA
    Tudo é ar, disse-me o jovem Anaxímenes.
    TERCEIRA PROSTITUTA
    Tudo é número. O meu calvo Pitágoras não pode estar errado.
    QUARTA PROSTITUTA
    Heráclito acaricia-me, murmurando ao ouvido Tudo é fogo
    COMPANHEIRO SOLITÁRIO (entrando)
    Tudo é destino.

    Faulkner? Dass. Quem gosta muito dele é o Bloom, é verdade. Não posso com ele. Com os dois.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Panurgo, haja Deus, mas acha que havia putas pré-socráticas? São todas socráticas. Pelo menos é o que vem agora nos jornais.
    E já que meteu as mãos no lume pelo homem, junte aí à fogueira do Vladimir: Dostoievsky, o Guerra e Paz do Tolstoi, a treta do Dom Quixote e o Finnegans Wake do Joyce (o que por acaso nem é mal pensado). Acho que há mais, mas olhe, arderam…

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, e adoro o Bloom, o Allan. Espero que este também ache o Faulkner uma flor.

    • Panurgo diz:

      Ahahaha está bem visto…

      Não é o Allan. Estava a falar do Harold. O Faulkner escreveu o quê que mereça a pena ser lido duas vezes? O Absalom? Pfff… quando se ouve o livro, ainda fica pior.

      A fogueira do Vladimir havia de arder sem fim. Eu gosto dele (não tanto como do Bulgakov, que prefiro a todos os russos), gosto muito das aulas de literatura dele. Tenho ideia que um dos apontamentos dele era sobre esse do Joyce – (mas é do Ulisses, de facto)

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Bem sei de que Bloom falava. O Joyce que ele defende é o do Ulysses… Depois malha no Finnegans e malha no Pound, outro!
    Por honra da firma ainda hei-de escrever um post, que terá de “gramar”, com uma imbatível (sic) defesa do Faulkner. E depois do Maugham… ou o que é que julga!

    • Panurgo diz:

      Isso de ver um Yazalde de verde e branco a arrumar o glorioso deu cabo de si ahaha

      Mas quer dizer, o Pound tem os seus Ensaios que são maravilhosos. Roubei a um alfarrabista a edição da Faber. Valeu bem a pena. Comove-me. Mas nunca gostei dos Cantos, nem do resto, diga-se. Não me entra aquilo. E o Maugham escreveu o pior livro que me lembro de ter lido até ao fim, o seis vinténs. Santo Deus.

  6. RB diz:

    Um diálogo caralho de interessante. Continuem senhores. Estou a gostar 🙂

  7. Pedro Bidarra diz:

    Parece que discutem o Pelé e o Maradona. Quem é que é o melhor. E no meio lançam-se Ronaldos, Messis, Van Bastens e Platinis.
    Ó meus amigos que falta de respeito pela genialidade e pelo talento. Ambos nascem com muitas formas e feitios diferentes, tantos quantas as incompatibilidades entre eles. Só sendo diferentes, antagónicas e incompatíveis é que as obras e os percursos podem chegar a algum lado; para nosso gozo. Se fossem todas iguais, na estética, nos princípios e nos desígnios, chegavam todas ao mesmo lugar, que era o lugar comum.
    Mas estou eu a ensinar a missa a monsenhores… que topete do caralho.

    ps: a propósito de bordéis, escritores e russos: já vos disse que estive no melhor bordel do mundo? em 2008 em Moscovo… Um dia escrevo sobre isso

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Um pouco mais de gasolina para a fogueira: sem Faulkner de “O Som e Fúria”, “Luz em Agosto” e “Na minha morte ” viver teria muito menos sentido, Nabokov é gigante em Lolita e alguns contos, e o Philip Roth também escreve em pé ( problemas de costas), o que será também responsável pelo seu comportamento, digamos, menos cavalheiresco.

  9. pedro marta santos diz:

    Outro que escrevia de pé era o Hemingway. Seria para compensar o pobre caralho de que falava a Dietrich?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pedrinho, mas se a tinha pequenina bem podia sentar-se que não se entalava… E já agora, tens a certeza disso da Dietrich? A Dietrich deve ser uma desmedida. Sempre ouvi dizer que o Fitzgerald é que a tinha abreviada, tanto como as das estátuas gregas quando estão em repolho.

  10. pedro marta santos diz:

    Do Fitzgerald nada sei, ams o Hemingway é de certezinha, tanto que ele escreveu sobre isso nas suas “Extremely Short Stories” (just kidding…)

  11. Mc diz:

    Eça escrevia de pé

    • manuel s. fonseca diz:

      Não sei se o António nos está a ler, mas era bom que ele confirmasse.

  12. caruma diz:

    Mas que grande preocupação com o tamanho, o em pé e o xixi. Isto é coisa de pirilaus. Deixá-los lá brincá-los, têm direito outra vez à meninice, prontos -ora -essa, os meninos voltaram às primeiras letras.

  13. caruma diz:

    Vá lá, voltem, estão perdoados. Gostamos de vocês à mesma, esteja o pirilau assim, assado, frito ou cozido.

    • manuel s. fonseca diz:

      Tem a Caruma toda a razão. Rapazes, calças para cima e acabou-se esta triste conversa.

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