Filhos da Tempestade

 A abertura de “Oliver Twist” de David Lean é uma das mais inesquecíveis da história do cinema. São cinco minutos de emoção pura, restringidos ao essencial: imagens de fúria panteísta, música em comentário exacto, uma actriz, um drama, o fim da vida. E o reinício.

 David Lean era um gentleman do Surrey, de corpo esguio e gestos elegantes, 1, 88 m de classe britânica. Começou ao serviço da nação, com obras patrióticas (“In Which We Serve”, “This Happy Breed”) cuja energia propagandística para o esforço de guerra (1939-45) era superada por uma direcção virtuosa, de composições largas, entre duas cartas de amor às personagens. Depois de “Blithe Spirit”, uma história de paixões fantasmásticas, e do magnífico “Breve Encontro”, fita-mãe do melodrama romântico contemporâneo (basta ver a sua influência em obras tão diferentes como “L´Hotel des Ameriques” de André Techiné, “The Bridges of Madison County” de Clint Eastwood ou “Lost in Translation” de Sofia Coppola), Lean iria demonstrar a criatividade do seu trabalho de câmara e todo um fulgor plástico nas adaptações de dois clássicos maiores da literatura inglesa do século XIX: “Great Expectations” (1946) e “Oliver Twist” (1948), ambos de Dickens, prosador eminentemente “cinematográfico” – basta ler o arranque de ambas as novelas, ou de “Tale of Two Cities”.

Espírito discreto mas flâneur, de formação conservadora, Lean era um perfeccionista – entre o Griffith dos anos 10 e o Visconti dos anos 60, ninguém cuidava dos detalhes cénicos como ele. Começou na década de 20, primeiro como “rapaz da claquete”, depois distinguindo-se nas mesas de montagem (trabalhou em 25 filmes, incluindo dois de Michael Powell) até chegar à realização em “In Which We Serve”, na primeira de três colaborações com Noel Coward. Quando aportou a “Oliver Twist”, aos 40 anos, já era o filho predilecto da indústria de cinema britânica: “Brief Encounter” demonstrara o seu talento na fusão de temas e formas – um caso de curta infidelidade tratado como retrato melancólico de uma época em vias de desaparecimento – e “Great Expectations” revelou-se um triunfo de síntese narrativa (Lean, comme il faut, cortou largas fatias do livro sem perder nada de essencial). Dois anos depois, “Oliver Twist” confirmava uma capacidade singular para resolver a dicotomia livro/filme: no espírito como na substância, livro e filme eram irmãos gémeos mas de vidas distantes e independentes. À semelhança de Dickens, Lean distinguia-se como prosador, e os seus parágrafos e travessões eram os raccords e as elipses – alguém se lembra da chama do fósforo que T. E. Lawrence/Peter O’ Toole sopra num escritório do Cairo, transformando-a nos laranjas abrasivos do Sahara?

Depois, sobretudo a partir de “Doutor Jivago”, o autor afunda-se num academismo empedernido, onde já resvalara de 1949 (“Passionate Friends”) a 1957 (“The Bridge on The River Kwai”), e não se reencontrará.

Mais do que “Great Expectations” (apesar da recepção crítica à época), “Oliver Twist” é o exemplo maior do equilíbrio de Lean entre uma sede realista e uma fome impressionista. O director usa contrapicados, câmara subjectiva, encadeados, planos-sequência, luzes e efeitos sonoros para criar a Londres miserável e ameaçadora de meados do século XIX, e fá-lo tanto no carinho pelos pormenores como porfiando nessa economia narrativa que esconde a sofisticação.

Twist (John Howard Davies, escolhido entre muitas centenas de candidatos), um miúdo criado num orfanato, foge para se unir a um grupo de jovens carteiristas comandados por Fagin (Alec Guiness sob a máscara da ignomínia), o clochard que manieta as crianças proscritas da cidade. Twist é preso por engano, oportunistas procuram-no por razões diversas, há um segredo sobre a sua descendência, mas tudo se resume na abertura da acção, que se diz ter sido sugerida por Kay Walsh, uma das actrizes secundárias da fita.

 

Como num pesadelo do cinema mudo – há ali o céu de Sjostrom e  a Natureza de Murnau – as nuvens tapam uma lua indiferente, os ramos das árvores transformam-se em espinhos. A água dos pântanos estremece e uma figura minúscula surge na curvatura da terra.

 A rapariga (Josephine Stuart), bela como um campo de trigo ao nascer do dia, caminha exausta pelo monte. Está grávida, e isso só parece acentuar a fúria dos elementos. Chove aos soluços, depois a cântaros, e trovões fulgem como pragas do Egipto. Vê uma luz trémula à entrada da planície e atravessa o vento, a chuva, as faíscas cegantes.

A luz pertence a um sanatório, onde é recolhida por um velho de cabelo-algodão. Dissolvemos, e encontramo-la acordada em cama pobre mas apaziguadora.

Há o fogo da lareira a um canto, e um recém-nascido chora no chão, enrolado em cobertores. Ela pega no bebé, sorri por um segundo, e morre. Praga, sobrevivência, exaustão, compaixão, derrota, renascimento. São cinco minutos que resumem uma arte.

Uma arte que, por vezes, na sua essencialidade orgânica, parece hoje perdida.

Saudades de Terence Davies, o Lean das tempestades interiores

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a Filhos da Tempestade

  1. Pedro Bidarra diz:

    Eu acho que o Oliver Twist me escapou. Não tenho a certeza, e por isso vou ter que o ver. A descrição do começo já me aguçou o apetite. Belo e épico texto digno do Lean.

  2. Carla L. diz:

    Obrigada pela aula, Pedro! Sempre admirei a figura de David Lean, acho que por conta de toda aquela elegância britânica.E veja que ele começou na claquete.Uma lição para os novos cineastas que já querem escolher a “direção” logo de cara.
    Cresci lendo Dickens, talvez com ele tenha aprendido a criar imagens mentais cinematográficas e só agora, depois do seu texto, é que me dei conta.Porque o que somos hoje definitivamente é um reflexo das nossas experiências na infância e arrisco dizer que, no meu caso, à partir da fase da alfabetização.
    O filme Oliver Twist também me escapou, mas vou tratar de resolver isso.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Que magnífico texto que me vai obrigar a rebuscar o filme…as minhas memórias foram acordadas mas precisam de ser reavivadas com mais uma sessão…

  4. manuel s. fonseca diz:

    Só me livrei do preconceito (em que se misturavam em doses iguais a peregrina ideia de cinema inglês e os pastelões finais e execráveis do David Lean) quando vi o brief Encounter, mas por razões várias não “descobri” o que tu agora aqui aumptuosamente descobres. É uma prazer de ler e ver!

  5. pedro marta santos diz:

    Cumprimentos épicos para vocês, Manel, Bernardo e Pedro. Posso emprestar filme, mas só tenho uma cópia…Carla, se cresceu a ler Dickens, cresceu muito bem. Obrigado pelo comentário.

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