Gasparenko

 

 

A semana passada, outra vez, a Fitch veio dizer que não acredita. E Vítor Gaspar rebateu dizendo que não concorda com a opinião, que é apenas isso mesmo, uma opinião, e que “a posição do governo português é a que decorre do terceiro exame do programa de ajustamento, segundo o qual o programa está no bom caminho”. É o bom aluno a falar.

(Mesmo depois de eu já ter pedido para que se abandonasse este caminho e se adoptasse a do “bom aluno a tudo, menos a comportamento”. Ou seja, que cumpríssemos tudo o que tínhamos a cumprir mas que nos portássemos mal, que reclamássemos das injustiças e das perversões do acordo, que nos rebelássemos, vocalmente, contra a doutrina do empobrecimento da economia e que usássemos a coluna vertebral com orgulho. Mas ninguém liga nenhuma ao que eu digo.) 🙁

Há duas semanas escrevi no Dinheiro Vivo os quês e os porquês da estratégia do bom aluno não funcionar. O artigo chamava-se “Um primeiro-ministro sem vergonha” e clamava para que o nosso primeiro se enchesse de coragem, perdesse a vergonha e fosse antes um aluno mal comportado e rebelde. Precisamos de alguma rebelião, precisamos de mostrar dignidade e de introduzir alguma imprevisibilidade no discurso para que ele seja ouvido e para que possamos, de algum modo, controlar o que se diz de nós: a nossa reputação. Precisamos de afirmar identidade.

A estratégia do bom aluno, de Passos Coelho e de Vítor Gaspar, como foi de Cavaco, não promove o melhor português possível, promove o português o mais parecido possível com o estrangeiro.

Era, sobretudo, preciso fazer o contrário do que o nosso CFO, Vítor Gaspar, fez e que o vídeo mostra: um Gaspar curvado, ao alemão, a chamar a sua misericordiosa atenção para o facto de estarmos a cumprir o castigo exemplarmente, e insinuando um pedido de clemência, que o alemão lá diz ser muito difícil, porque os seus pares não estão preparados para acreditar na nossa bondade.

É aflitivo. Parece um personagem de Dostoievski, um funcionário angustiado e ao mesmo tempo reverente, um funcionário do salamaleque-vexa-sotor, curvado às excelências, para depois se endireitar em poses altivas sobre os lacaios que somos nós. Mas que entretanto tem dúvidas amarguradas sobre as decisões que tomou e o rumo que leva. E que se interroga, mentalmente, sobre os caminhos que tem de trilhar para que os outros, a boa sociedade dos funcionários das finanças, dos bancos centrais e dos FMI, pense bem dele, ou melhor, não pense mal, não pense que ele é dos de cá (que é) e não dos de lá (que não é).

Nota-se, na voz e no tom de Vítor Gaspar, quando fala com o alemão, a angústia do homem inteligente que vem da contradição de saber que os modos que as suas excelências lhe impõem não levam a bom porto nenhum, mas que, por outro lado, nada pode fazer: ele é o bom aluno e o bom aluno porta-se bem e espera que o mérito seja racional e justamente reconhecido por suas preconceituosas excelências. É Dostoievski. É a angustia do funcionário Viktor Gasparenko que está plasmada naquele vídeo.

(Reedição do artigo Viktor Gasparenko publicado no Dinheiro Vivo)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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11 respostas a Gasparenko

  1. Rita V diz:

    … coitado …

    • Pedro Bidarra diz:

      se fosse mesmo um personagem do Dostoievski, matava-se ou era internado de angústia. Mas não é 🙁

  2. Um erro de casting, um dos muitos erros de casting.

    Gaspar poderia ser Secretário de Estado do Tesouro ou do Orçamento (se é que ainda têm estes nomes); tal como o Álvaro não tem o mínimo perfil para a função; e etc.

    Se os submetessem a uma bateria de testes (vulgo assessment) talvez escapassem uns dois ou três e, mesmo assim, com muita sessãozita de coaching em cima.

    O que, portanto, remete para a qualidade de quem fez as escolhas…

    Ou seja, concordo com o seu texto.

    • Pedro Bidarra diz:

      É um funcionário, apenas um funcionário, mas muito empossado, não só pelos de cá, mas também pelos de lá. Espremer as nossas vidas é a função deste funcionário

  3. Panurgo diz:

    Coitado do Vítor. Não pode ser de outra maneira. Fosse ele para lá impor a identidade e o alemão mandava-o ir comer areia. Este governo não deixa de ser uma vergonha, mas, lá está, comparado ao anterior…

  4. Pedro Bidarra diz:

    Mas há maneiras de usar a coluna vertebral, direita, com dignidade e sem medo. Mesmo para um funcionário

    • Panurgo diz:

      Pois, eu também gostava que o Vítor vivesse o livro terceiro da Ética a Nicómaco. Só que não se brinca às Antígonas com os sacerdotes de Mammon. Ainda para mais, depois de lhes termos jurado obediência, e de adentro fronteiras, suicidarmos um povo em nome do Espírito Santo da Quinta Patino. As coisas são o que são.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Pois é, mas quem nesta altura do campeonato gostaria de ter este papel ingrato?
    Estar num Governo que tem que fazer as maiores reformas que alguma vez já foram feitas, não é pêra doce. Nos anteriores governos já era difícil, quanto mais agora.
    Isto acontece porque Portugal anda a brincar com coisas sérias há anos…
    Hoje em dia gosto dqueles que não são políticos e não estão agarrados ao poder, esses sim são senhores que talvez consigam fazer alguma coisa pelo país. O problema é que nem sempre conseguem porque são barrados pelos tais “políticos partidários cheios de poder” que dão a sensação que não querem andar com o país para frente.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A real tragédia é que prefiro enfiar a cabeça entre os livros de Dostoievsky , e ter a esperança de acordar como o Idiota….claro que me irrita a ideia do bom aluno, mas verdade seja dita que entre este e o outro ” muito competente” que dizia que afinal estava tudo bem…sem dúvida que prefiro este que me avisa que vou cair, para eu ter tempo de aprender a voar.

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