Improbabilidades

"Amigos Improváveis", de Olivier Nakache e Eric Toledano

Há um preconceito, comum entre o público, de que o cinema francês é aborrecido. “Francês? Poupa-me, deve ser uma chatice”. É o inverso do preconceito que leva certas análises críticas a considerarem “fácil”, “televisivo”, ou, para os que gostam de referências, “cinéma de papa” um filme como “Amigos Improváveis”. Nem o público nem a crítica deve tomar o todo pela parte: com mais de 19 milhões de espectadores em França – serão todos ignorantes e desmiolados? – e 281 milhões de euros de receitas mundiais, “Amigos Improváveis” já é o maior sucesso de sempre do cinema francês, e é um sucesso justo. Baseado no caso verídico de Philippe Pozzo di Borgo, o neto do dono da Moet & Chandon que ficou tetraplégico aos 42 anos num acidente de parapente, e de Abdel Sellou, um desempregado de origem argelina que é contratado para cuidar dele, tornando-se o seu melhor amigo, “Amigos Improváveis” conta a história da relação entre Philippe (grande François Cluzet), um milionário paralítico, e Driss (Omar Sy, uma das revelações do ano), jovem senegalês dos subúrbios de Paris. Com um invejável timing cómico, sem maniqueísmos face a um tema que tem tudo para resvalar, o filme aproveita os contrastes do “caucasiano rico” e do “negro pobre” para jogar com os lugares-comuns. Por vezes, pergunta-se como tudo seria se Philippe fosse o enrascado da periferia e Driss o ricaço paraplégico, e talvez esse filme fosse mais interessante em termos humanos. Mas “Amigos Improváveis” não falha uma nota – e há muitas, de Bach aos Kool & the Gang – e a empatia entre os protagonistas torna-o inesquecível. Divirta-se, é um filme francês. PMS

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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8 respostas a Improbabilidades

  1. rita vaz pinto diz:

    Completamente de acordo!
    Muito bom filme, boas interpretações, boa música, bom tema.
    Gostei imenso

  2. manuel s. fonseca diz:

    Vi na 6ª feira santa. Desenjoou-me logo de um enjoo que não vou dizer qual foi… É um filme escorreito, sem nenhum problema de ser um filme funcional, cómico. Sai-se de lá a rir e com muito boa impressão do ser humano. Gramei!

  3. Rita V diz:

    Vou hoje!

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Pela descrição há-de ser o filme francês que me vai levar a fazer as pazes com o ‘género’.
    Obrigado pela dica.

  5. Diogo Leote diz:

    Pedro, deve ser da minha (de)formação pedagógica, mas tenho este terrível defeito de gostar muito de cinema francês. Será que vou gostar menos deste filme, do qual até os detractores de cinema francês gostam?

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Entre os clichés e a realidade vai um mundo, custa-me identificar “um” cinema françês…será mais aborrecido que o “americano”, ou que o “português”? Se for ver tentarei ir sem preconceitos…

  7. pedro marta santos diz:

    Ainda bem que retiraram prazer dessa viagem ao cinema, Rita e Manel. Ele também serve (sobretudo serve?) para isso. Vá, Rita V., penso que não se arrependerá. António, o filme recorda algum cinema europeu de grande público, desenvolto e perspicaz, que perdeu a batalha com a distruição americana em meados dos anos 70. Acho que te vais divertir, Diogo. Como lembra o Bernardo, não há um cinema francês, há muitos, como não há um cinema americano. O Techiné é tão diferente do Beineix como a lua da Terra, e o Carax do Bonello, e o Assayas (um dos grandes realizadores contemporâneos) do Beauvois… Os franceses conseguem ser mesmo distintivos e contrastantes de filme para filme – o “Summer Hours” e o “Dreamlover” do Assayas são filmes do mesmo autor mas radicalmente opostos. É essa a sua imensa riqueza. O cinema português é um case-study, bastante mais complexo, mas eu sou suspeito…

  8. Maria Lima diz:

    Eu também sofro do terrível defeito de gostar muito de cinema francês mas acho que não ficar desiludida.

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