Isto Não é Uma Valsa

 

                                                      THIS FILM SHOULD BE PLAYED LOUD!

É a advertência feita logo nos primeiros segundos do filme The Last Waltz. Que por sinal é talvez o meu “filme musical” favorito. Digo filme porque não é apenas documentário, como será “Woodstock”, ou mesmo “The Song Remains the Same”, o filme sobre dois concertos da banda inglesa Led Zeppelin, em Nova York.

The  Last Waltz é mais do que um documentário  porque  é verdadeiramente cinema,  tem um guião, conta uma história para além do concerto que retrata, apresenta um olhar sobre esse mesmo acontecimento, criando uma ficção que nos é servida em imagens.

Tendo como palco o famoso Winterland Ballroom de São Francisco, o filme conta a história de uma vida num concerto de cerca de 3 horas. A história da vida dos “The Band”, um grupo musical de origem canadiana que se notabilizou por ser banda de apoio ( daí o “não” nome “The Band”), de inúmeros músicos norte americanos. Depois de 16 anos a correr palcos, a banda decide parar para sempre. E querem comemorar esse “finnalle” com um jantar, seguido de concerto, para cerca de cinco mil “amigos”.

É este concerto que Scorsese filma.

E logo se percebe que o que está em causa é muito simplesmente um soberbo retrato da música popular norte americana. Pelo palco passam nomes de estrelas conhecidas como Neil Young,  Eric Clapton e Bob Dylan, e outras menos conhecidas mas de forma alguma menores, como Ronnie Hawnkins,  Dr. John, Johnny Mitchell e Paul Butterfield.

The Last Waltz é mais do que um documentário porque encena e constrói a acção  como se fosse uma peça de teatro, ou uma Opera em vários actos. Scorsese utiliza um formato repetitivo: entrevista à banda fora do palco, para depois iniciar a filmagem de um tema captado em concerto, ao vivo. Os artistas convidados só aparecem nas actuações.

Existe no entanto uma cumplicidade consciente entre estes dois registos.  Por cada novo artista (nova personagem) que entra em palco, algo nos é apresentado nas entrevistas exteriores ao concerto. A mestria da edição e montagem ( mais necessárias neste caso dada a presença da componente documental), permitem varias leituras do que vemos. Já não é só o retratar de um concerto, é a ficção de toda a música americana que está em causa.

Porque a protagonista central é mesmo a música. Do blues genuíno de Muddy Waters, ao Country-Rock de Neil Young, ao Gospell-Soul dos Staples, ao Rock-Folk de Dylan.

Tudo se organiza à sua volta, tudo se define se altera e se revela na música, tocada em palco, ao vivo, ou como tópico central nas cenas fora das actuações em conversas informais capturadas.

Claro que qualidade das actuações é parte fundamental do sucesso do filme. Graças a esta qualidade o filme ganha uma credibilidade genuína. E Scorsese presta vassalagem ao enorme talento dos artistas, utilizando sete câmaras criteriosamente colocadas,  balançando o uso de “close-ups” e “long-shots”, entre outros,  de forma a captar as características específicas de cada um desses  monstros da música.

Apenas num curto e breve momento se filma a audiência.  O público ouve-se, mas nunca é objecto da filmagem. O cuidado, a atenção, é para  com os protagonistas, para a música e os seus intérpretes.

O resto é para ser ouvido (e LOUD não se esqueçam!), cada canção como um episódio que vai construindo, pouco a pouco, a catedral melódica revelada através das lentes de Scorsese.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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10 respostas a Isto Não é Uma Valsa

  1. Concordo absolutamente com a magistralidade do filme; mais, deixou-me uma marca tão forte que, apenas por vê-lo, percebi uma parte da América que me escapava. Mas o dispositivo cinematográfico do Scorcese não acrescenta nada na encenação de algo que se encenou a si mesmo, aproveitando a profunda estratigrafia sedimentar, que ali encontou o tempo certo para ser exposta. Aliás, creio que, sem a intervenção do realizador, o filme seria menos rígido e os planos cénicos e narrativos subjacentes bastante mais fluídos. Note: não defendo o filme musical do tipo «registo», por si mesmo. Mas o Scorcese atrapalhou, pela tentativa de dar um enquadramento historicista (a ideia do «adeus»), um objecto que, em outras mãos, poderia ser histórico, no sentido literal. Ficou o realizador a meio do caminho entre ficcionar a realidade e realizar (dar realidade) a uma história de contornos míticos — e, por isso, alta dramaturgia em potência.
    [peço desculpa, é politicamente incorrecto falar mal do Martin Scorcese, bem sei.]

  2. Bernardo vaz Pinto diz:

    Caro Manuel, ninguém está acima da crítica, nem o Scorsese! Que Scorsese conscientemente quer construir um lado “ficcional”, a tal ideia de um “adeus” de que fala, isso parece-me claro. Onde eu acho que reside a diferença é na ligação (montagem) entre o “documentário” fora do palco, e a encenação das apresentações em palco (porque essas também são óbviamente “documentais”), como se estas extravasassem os proprios protagonistas, passando estes já a serem “actores”. Aliás o Shine a Light do Scorsese, que documenta o concerto dos Stones em 2006 ( e que gosto pelo espectaculo musical)não passa disso mesmo: de um “registo” musical. Por isso, na minha opinião, The Last Waltz ganha com a tentativa de tornar o registo numa ficção que vai além do concerto em si.
    Obrigado pelo comentário e pela discussão interessante…até breve…

  3. teresa conceição diz:

    Bernardo,
    gostei muito da sua descrição desta última ceia musical, que desconhecia.
    Era uma vez outra Era. E muito bom o que se pressente no trailer.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Vale a pena ver Teresa, ficará com certeza na história da música, e eu não sou muito de nostalgias….é difícil recomendar um dos temas ou das conversas, por isso pode escolher ver o filme todo!!!!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Rita o filme está recheado de historias de bastidores, ou não estivéssemos a falar de rock and roll, de Scorcese, e de Bill Graham (o produtor )…das drogas, às “jam sessions” ao agente de Dylan que não queria deixar filmar o “mestre”… Vale a pena também ver a entrevista a Scorcese sobre o “making of”. Até breve…

  4. Caro Bernardo, obrigado pela sua observação (em duplo sentido). Estaria quase de acordo consigo se, recorrendo a uma expressão sua, não fosse demasiado evidente e espartilhasse o filme a «ten­ta­tiva de tor­nar o registo numa fic­ção que vai além do con­certo em si». A grelha do dispositivo parece-me demasiado ‘formatada’.
    Independentemente de tudo isto, é um grande filme, e uma grande festa (o que não é contraditório com o que penso). Muito obrigado por me (nos) ter recordado da «última valsa».

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Que estranha coincidência, ou como a vida nos há-de sempre surpreender!! o Levon era um grande musico, baterista , vocalista , e compositor…ainda bem que escolheram “The Weight”, onde a sua voz e bateria soam melhor do que nunca…É o que digo: o céu já está cheio de boa música…

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