Livros proibidos

O “Expresso” anunciou a disponibilização, aqui, de um inventário dos livros que a Velha Censura proibiu. Fê-lo José Brandão e a lista que estabeleceu vai em 900 livros. Já fui ver e li imensos antes do 25 de Abril, dos Harold Robbins aos chatíssimos Simonov e Cholokov, passando pelo Malraux (ainda tenho essa “Condição Humana”), o padre Jean Cardonell (este não está alcance nem do mais pintado dos intelectuais, ah, ah, ah), Henry Miller e Harper Lee. Até “A Nossa Vida Sexual” de Fritz Kahn me passou limpinho pelas mãos. Na verdade, o pai de um dos meus amigos de bairro era inspector da Pide e trazia os livros proibidos, assim providenciando, por ínvios e perversos caminhos, à educação dos infantes.

Olhando para as capas que o “Expresso” reproduzia, descubro que li, nesses tempos de Ditadura, em Angola, o Jubiabá e os Capitães de Areia, de Jorge Amado, as Mãos Sujas, de Sartre e, o que diz alguma coisa sobre a minha idiossincrasia, quase todos os livros do mais proibido dos autores, o José Vilhena, até a minha mãe os apanhar e eu ter mostrado vergonha sonsa e adolescente arrependimento.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Livros proibidos

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Tem piada, também li uma data de coisas proibidas (entre elas a Condição Humana e paletes de Vilhenas, claro).

  2. fernando canhao diz:

    e O vestido vermelho, Stig Dagerman, trad e pref de Irene Lisboa. Estúdios Cor, 1958, porque era vermelho e nao encarnado, cor essa aceite pela situacao provavelmente por se aplicar aos carros dos bombeiros. Qual direita, qual fascismo. Parvos, matrecos e pirosos, e sempre de chapeu que a isso eram obrigados, e nao falo nos da secreta.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Afinal o “fruto” proibido era quase todo o fruto da árvore…

  4. pedro marta santos diz:

    O “Condição Humana” que tenho é a mesma edição da “Livros do Brasil”, é curioso. Como é curioso ter escrito a semana passada na “Sábado” um artigozinho sobre livros proibidos ém Portugal – com destaque para o picante, e secular, “Fanny Hill” – e o revivalismo de uma certa literatura erótica “bondage”, sob a forma de um “best seller” duvidoso chamado “Fifty Shades of Grey”. Bem lembrado

  5. Panurgo diz:

    Que giro. Muitas destas edições chegaram-me intactas, quarenta e mais anos depois. O Liberdade ou Morte, os do António Saraiva, do Vilhena, o Piedade Inútil, comprei-os por um euro ou dois cada um, à volta disso, e são estas, que a censura de agora não perdoa nada.

    Um velho amigo contou-me que por este tempo iam à livraria do senhor Barata buscar o Livro Vermelho do Mao e esfregavam-no na cara da malta da Pide, quietinha, andava o Estado Novo metido numas negociatas com a China, ou Macau, ou coisa que o valha, e o Mao passava. Agora os livros não servem para nada.

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