Nenhum de nós é Cary Grant

Cary Grant será Cary Grant?

Dizem-nos que Portugal não é a Grécia e ninguém se interroga sobre o verdadeiro mistério: e se Portugal não fosse Portugal?

Conto uma história que amigos me contaram. Fernando, nome fictício, porque o verdadeiro nome é João, veio de Sintra a uma festa de amigos. A festa era nas Avenidas Novas, talvez na Visconde Valmor, não muito longe da Gulbenkian, como convém a festa que se preze. Fernando, nome fictício, chegava sempre atrasadíssimo. Os amigos decidiram pregar-lhe uma valente partida, com requintes de moralismo e cinefilia. Inspiraram-se em Hitchcock, lembrando-se do que acontecia a Cary Grant em “North by Northwest”.

Fernando já tinha estado uma vez no apartamento. O elevador levou-o ao 2º andar. Abriu-se a porta e deu de caras com um casal desconhecido. “Ah, queres ver que me enganei no andar”, desculpou-se. E não! Era o exacto 2º andar mas, pela porta entreaberta, viu que a decoração do hall não era, de facto, a dos amigos.

Desceu ao café mais próximo, àqueles telefones vermelhos de moedas – era ainda Portugal – e ligou. “Eh pá, confirmem-me o número que devo ter-me enganado”. Os amigos, como se falassem com Cary Grant, confirmaram o mesmo número. Bom, talvez tivesse entrado no prédio errado, são tão parecidos, e Fernando insistiu. Subiu e volta a aparecer-lhe o casal desconhecido, o hall irreconhecível. Fernando já nem sabia como se chamava e, cabeça feita em conspirações e muito cinema, sentiu-se perseguido, fosse pela PIDE, fosse pelo KGB (ver wikipédia para estas duas siglas). Correu ao telefone vermelho. Os amigos, pressentindo um soluço, consolaram-no: “Pá, vamos buscar-te ao café:” Foram uns, enquanto os outros mudavam o mobiliário, repondo a ordem do mundo que era, neste caso, o aspecto original do hall.

Como Cary Grant quando vai com o FBI e a mãezinha à mansão onde alegava ter sido raptado, Fernando voltou com os amigos: o mesmo prédio, mesmo elevador, mesmo andar, mesma porta e, pasme-se, um hall diferente. “Não pode ser, não pode ser, como é que eu me enganei!” E batia com os punhos no peito: “Bem vos disse, não ando bem, não ando bem, este país sufoca-nos, este país sufoca-nos.” (Nessa altura – Portugal era Portugal – as pessoas proclamavam sentimentos de culpa duas vezes, para gáudio do confidente ou confessor.)

Quando lhe contaram que tinham mudado o hall e posto um casal desconhecido a recebê-lo, Fernando partiu pratos, um jarra chinesa, e riu-se aliviado. Perdoou o gozo que sofrera pelo Cary Grant que se sentia.

Alguém mudou agora Portugal: já não reconhecemos o átrio de entrada, o casal grego que nos abre a porta é uma piada de mau gosto e nenhum de nós é Cary Grant. Os filmes de Hitchcock são fatias de bolo, este filme português é uma fatia de triste vida… Seja como for, não partam é as jarras chinesas.

 

Publicado ontem no Expresso. No próximo sábado, o mal donde vem tanto bem.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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18 respostas a Nenhum de nós é Cary Grant

  1. Rita V diz:

    não sei se concordo consigo
    acho que Portugal não mudou
    … nem os portugueses.
    That’s the issue!

    • manuel s. fonseca diz:

      Pois é, Rita, nem Cary Grant tinha deixado de ser Cary Grant, mas lá que o queriam fritar por pensarem, uns, que ele era o Cary Grant que não era, outros para fazerem crer que ele era o Cary Grant que eles sabiam não ser… Veja bem, até a mãe já tinha dúvidas que ele fosse o Cary Grant que ela sabia que ele era.

  2. Panurgo diz:

    Só que esse “Alguém” que “mudou Portugal” tem nome, esses alguém viciados em importação, como aqueles demónios do outro russo. E já se sabe que as ideias são mais frágeis do que morangos. Quando chegam a Portugal, já chega tudo estragado. É ainda mais triste do que escrever.

    • manuel s. fonseca diz:

      Toda a razão Panurgo, há nomes. Há sítios onde devem ser ditos. Ainda por cima a lista é tão longa.

  3. teresa conceição diz:

    Belo texto e ideia, Manel.
    Já tinha lido no Expresso ontem. Mas no nosso blog fica muito mais bonito, claro.
    E com filme sabe ainda melhor.

  4. Pedro Bidarra diz:

    Em minha casa ainda está tudo igual.
    Ainda vivo a vida que vivia, ainda tenho os mesmos móveis, os livros, os canais e a ligação à internet. O problema é quando abro a porta da rua: está tudo diferente lá fora.
    Fecho a porta e penso que estou louco.
    — Mas como é que a minha casa mudou de rua? Esta não era a minha rua. Ou era?
    Volto a abrir a porta e a rua mudou mais uma vez, é outra ainda (ou será a mesma mas tão transtornada que nem a reconheco?) e volto a fechar a porta. Não quero saber.
    Sei que estou louco. Que de outra meneira se explica que ao abrir a porta de minha casa a rua esteja sempre a mudar.
    Fecho-me em casa e esqueço a rua. E com ela o facto de que sou louco porque ela muda.

    • manuel s. fonseca diz:

      Pedro, era para ir agora ali à janela, já não vou. Grande imagem a da rua: deixa qualquer GPS maluco.

  5. pedro marta santos diz:

    Uma imagem bem fotografada de Portugal, Manel.

    • manuel s. fonseca diz:

      Tens de ver, PMS, que o material de Sir Alfred puxa o brilho à menos pintada das crónicas. Thanks, man!

  6. G. diz:

    Soberbo! Adorei esta analogia! De facto Portugal já não é Portugal… ou será que alguma vez foi?!?!? nunca saberemos…. uma coisa sabemos de certeza…. deixaríamos de ser Portugal pelo rumo que ele seguia….

    • Manuel S. Fonseca diz:

      É que deixávamos mesmo: são para aí 20 anos a perder gás… E obrigado pela gentileza.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Se fosse o tal Fernando tinha dado em louco…tenho fobia e ainda me arrepio ao ver o North by Northwest…mudaram-nos os moveis e o hall sem nos avisar, e por isso andamos às turras de noite e dia… já estivemos mais longe de alguns dos episódios da Twilight Zone !

  8. Vasco diz:

    Excelente Manel! Como aqui não me chega o Expresso (ou talvez não o saiba procurar) agradeço-te este teu Segundo Canal…

  9. Carla L. diz:

    Excelente, do começo ao fim.
    Certa vez, passando temporada num local de veraneio, eu e mais duas amigas insones resolvemos trocar algumas peças da decoração de lugar, assim como colocar de ponta cabeça alguns quadros.Depois de 3 dias, somente uma pessoa percebeu que havia algo diferente. Essa coisa da percepção alheia dá panos prá manga.

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