O jardim das oliveiras errantes

O fim foi-lhes decre­tado num dia de verão:
seriam desen­ter­ra­das ou então mor­re­riam afo­ga­das.
Foi esta a mór­bida sen­tença. Se a ouvi­ram ou não,
não se sabe ao certo mas para fin­tar a morte,
fugi­ram de leste para oeste à pro­cura de outra sorte.

Vinte e nove oli­vei­ras,
que viviam sobran­cei­ras
sobre um chão que era o seu,
foram um dia arran­ca­das
e envi­a­das para novas
e lon­gín­quas moradas.

Anda­ram seden­tas arras­tando as raí­zes
pelo pó de cerros, serras e vales
— de dia fica­vam qui­e­tas e para­das,
só de noite via­ja­vam, pela calada, cala­das.
O seu estado dava dó.
O des­tino era uma arriba sobre o Atlân­tico,
sítio de nor­tada, angús­tias e marés,
e a ideia sal­tar, da falé­sia para o mar,
se calhar para lim­par o pó;
ou então para serem leva­das
pelas cor­ren­tes que dali cor­rem
até outros con­ti­nen­tes.
Mas foram antes arre­ba­nha­das.
Descobri-as a monte, de raí­zes ata­das
por uma malha de rede de arame
para que não pudes­sem fugir nem pegar,
bebiam pouca água e viviam sal­ga­das
pelos ven­tos do mar.

Comprei-as por um preço justo.
Depois peguei nelas, a custo,
e levei-as na caixa dum camião.
Viajei-as então para uma nova morada
que se chamava o Jar­dim de Quase Nada,
pois nada digno de jar­dim lá havia:
só sil­vas, pasto e pedras, vento e mare­sia.
Aí esca­vei bura­cos na terra e dei,
a cada uma, o seu novo chão.
Durante anos pare­ce­ram não querer pegar,
como se aquele não fosse ainda o seu lugar.
Mas, reni­ten­te­mente, foram rea­pa­re­cendo
e com o tempo novas folhas renas­cendo.
(Renas­cer não é fácil
nem é coisa de um momento,
renas­cer leva tempo.)
Passou a chamar-se
o Jar­dim das Oli­vei­ras Erran­tes,
verde e plácido jardim de aman­tes…
Até que che­gou o dia em que já nada chegava,
o dia em que tiveste, tam­bém tu, que errar.
Elas não. Elas fica­ram e nunca mais erraram.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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14 respostas a O jardim das oliveiras errantes

  1. nem sempre escrever é triste.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Oliveiras fiéis estas, mais do que os humanos, esses não se podem confiar…e com paciência para renascer…

  3. manuel s. fonseca diz:

    Quem me dera, fonseca, ser oliveira! Mas renascer leva tanto tempo.

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Que bonito esse jardim cheio de oliveiras.
    É tempo de renascer
    Gostei muito

  5. Podia ser uma crónica biográfica em linguagem poética, podia ser um poema/narrativa alusivo à Páscoa, podia ser uma metáfora (e, ao escrever isto, lembrei-me do Carteiro de Pablo Neruda), podia ser um lamento, mas pode também ser apenas uma coisa muito bem escrita, agradável de se ler.

    • Pedro Bidarra diz:

      Ou, com sorte, talvez “all of the above”. Obrigado pelo seu jeito de comentar Jeito Manso.

  6. Rita V diz:

    às vezes é preciso saber perdoar
    😛

    • Pedro Bidarra diz:

      Errar é um verbo lindo. Eu erro que me farto e por isso sou também especialista em perdão

  7. Carla L. diz:

    Que linda construção!!! Por um momento me deixei levar pelo ritmo e até esqueci do conteúdo.Gostei de ver o Jardim das Oliveiras por outros olhos.

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