O lugar da Rainha

O lugar da Rainha

A Eugénia era uma das meninas dos meus olhos. Deixou-me. A mim e aos outros 11 Tristes. Preferiu ir de viagem sem escarcéu de despedidas. Imito-lhe a discrição e venho só dizer que com ela a Tristeza era fulgurante e única. Ninguém escreve como a minha Eugénia, uma escrita de ímpetos, de raccourcis, imagética barroca e lailailais. De vez em quando, à francesa, um sufoco no estômago de tão bonito que é. Uma escrita delicada, mas nunca uma escrita para delicados.

Não é uma questão de nos fazer falta. Ela continuará aqui. Nesse lugar do Rei que, sendo dela, é o lugar da Rainha. Ou não fosse o lugar do rei, sempre e também, o lugar de uma ausência.

Eu e os meus Tristes continuamos. A escrever. Também para ela.

Sobre Escrever é Triste

O nome, tiraram-mo de Drummond. Acompanho com um improvável bando de Tristes. Conheço-os bem e a eles me confio. Se me disserem, “feche os olhos”, fecharei os olhos. Se me disserem, “despe-te”, dispo-me.
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5 respostas a O lugar da Rainha

  1. Acho mal. A tia deles devia ter trancado a porta, levantado o dedinho em ameaça, essas coisas. Acho mal.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Para começar, a rendilhada escrita das ficções da Eugénia.Vai fazer-nos falta até doer ficarmos sem o alfabeto, cada letra uma heroína, agarrando-nos ao alfabeto como o Keith Richards se agarrou ao cavalo.
    Para a destrunfa, os posts temáticos em que o olhar da Eugénia vem sempre de outro lado, de um lado de que ninguém se lembrou, um olhar exógeno, um olhar em que os olhos vinham mesmo até ao pé de nós, ou então um olhar bailarino, de passos flexionados como um demi-plié, de frases tão esticadas como um arabesque… passo de gato ou gata e logo ela que também nos leva o Cão.
    Já ardemos de saudades, mas perdoamos-lhe tudo se daqui a uns infinitos três meses nos anunciar um livro.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Acreditamos que a tia não poderia fazer nada, resta-nos sempre uma satisfação para escrever: aquele sentimento de que fora do nosso olhar e da nossa escrita a “menina dos olhos” da tia continuará a surpreender, quem sabe com a tal publicação de um completo alfabeto literário.

  4. Que pena.

    Apetece-me começar por dizer, referindo os restantes Tristes, ‘…não desfazendo…’ – mas, de facto, era um olhar de menina rebelde e precoce, com uma jovialidade a tender para a erudição, uma traquinice, uma ternura.

    Tomara que um dia destes apareça, de novo, por aí.

    E, até lá, desejo que os restantes Tristes se mantenham inspirados para que, mesmo sem ela, este Escrever se mantenha como é, tudo menos Triste.

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