O mais triste museu do mundo

 

o fantasma de Langlois

Descobri que tenho este museu no sótão. O museu que, a 15 de Abril de 1989, trouxe do Palais de Chaillot para uma página inteira do jornal “O Semanário”. Se forem ao Chaillot, lamento muito, mas já não o encontram. Quando pela primeira vez o tentaram mudar, os cinéfilos parisienses conseguiram interditar essa mudança nos tribunais alegando que o conjunto do museu era (e era!) a obra de arte de um homem, Henri Langlois. Misteriosamente, na noite de 24 de Julho de 1997, o museu ardeu. Nessa noite, todas as peças foram salvas, intactas. Estão agora no edifício da Rue de Bercy construído por Frank Gehry. Não é a mesma coisa: eu tenho o original escondido no sótão há 23 anos.

 Um museu de morte

Deve ser – tem de ser – o Museu mais triste do mundo. Nessa tristeza reside o seu maior encanto. O vestido branco de Scarlet O ‘Hara – o vestido que Vivien Leigh trazia em E Tudo o Vento Levou – está, pendurado no expositor, mais gelado do que um cadáver. O chapéu de Henry Fonda em Young Mr. Lincoln grita o seu abandono ao lado dos fatos de Billy the Kid e de Buffalo Bill.

O Museu da Cinemateca Francesa é o mais triste do mundo. É de propósito. Henri Langlois, o seu criador, sabia que nada podia restituir o antigo esplendor ao guarda-roupa das grandes estrelas do passado. Organizou, por isso, todo o Museu em torno da ideia de perda. São glórias passadas, são águas que já não levam a nenhum moinho. E neste mundo perdido, a peça que melhor se sente na sua pele deve ser, sem dúvida, o crânio embalsamado que serviu de mãe a Anthony Perkins no Psico de Hitchcock.

O segredo do Museu de Langlois talvez seja a sua sensualidade mórbida. Da imensa cama de Yul Breyner, concebida por Alexandre Trauner para Once More With Feeling de Stanley Donen, à cota de armas de Nicolai Tcherkassov em Ivan, o Terrível de Eisenstein, todos os objectos deste Museu são almas penadas de que nos enamoramos como a heroína de O Passado e o Presente de Manoel de Oliveira se apaixonava pelos maridos mortos.

Langlois não teve sempre esta sala do Palais de Chaillot. Nem sequer a obteve por meios lícitos. É esse outro dos segredos do Museu. Quase tudo nesta sala exala um arzinho criminoso. Os cinco mil objectos expostos (um terço do que se esconde nas caves) vieram por portas travessas. A alemã Lotte Eisner (a quem chamavam «as pernas» de Langlois) enganou meio mundo, incluindo as alfândegas alemãs, a Leste e a Oeste, para lhe trazer maquetas e adereços.

Voltando à sala: Langlois introduziu-se aqui sub-repticiamente. Meteu-se lá dentro para uma exposição e nunca mais dali saiu. Fez batota e corrompeu um ministro. Sem isso, talvez a França não tivesse o melhor Museu de Cinema do mundo.

O terceiro segredo deste bazar de objectos roubados é, seguramente, a sua perspectiva antipedagógica. O Museu funciona como um labirinto de sombras. As peças não estão propriamente expostas: apenas se deixam ver. Nada as explica. É um cemitério sem tabuletas. Os objectos organizam-se como se fossem actores de um filme. Muitas vezes foram os próprios decoradores que os vieram colocar ou reconstituir. Herman Warm reconstituiu o décor de Caligari e Schulze Mittendorf refez o robot de Metropolis. Max Douy e Trauner vieram refazer os seus cenários e expor as suas maquetas. Por essa razão, o Museu de Langlois é uma rede de corredores e de sentimentos. Comove e faz impressão. Aqui não se aprende nada, ao contrário do que sucede num  museu vivo e dinâmico. Aqui vive-se com a intensidade só possível num museu de morte.

No Museu de Sombras, entre a capa de Antinea e a túnica de Valentino, ou entre o retrato a óleo de Francesca Bertini e o auto-retrato de Asta Nielsen, quem for capaz de sentir muito, pode ver deambular, fugaz, o fantasma inumano de Langlois, ele próprio a última das divas. Passou a vida a mudar o seu testamento. Este museu foi a última versão.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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10 respostas a O mais triste museu do mundo

  1. Rita V diz:

    adorei a visita

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Rita, não conheci o Langlois, mas ainda conheci a Lotte Eisner, já velhinha, quando veio a Lisboa. Fartou-se de roubar coisas nas duas Alemanhas para dar ao Langlois… A visita ao museu era uma coisa delicioso-assustadora.

  2. fernando canhao diz:

    “Knowledge speaks, but wisdom listens.”
    ― Jimi Hendrix

    • manuel s. fonseca diz:

      Hey Joe!!!!

      • fernando canhao diz:

        Following Nissim his only son’s death, Camondo largely withdrew from society and devoted himself primarily to his collection and to hosting dinners for a club of gourmets at regular intervals. The museum opened the year after Moïse de Camondo died, in 1935. During World War II, his daughter, Béatrice, his son-of-law Léon Reinach and their children, Fanny and Bertrand, died in the Nazi camps. The Camondo family died out.
        Um bom fim de semana.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Obrigado pela viagem e visita! Gostei do “labirinto de sombras” e do “cemitério sem tabuletas”, e imagino-os a ambos na minha visita onírica…estas crónicas já merecem, elas próprias, mais do que um sótão, talvez um museu de palavras?

  4. pedro marta santos diz:

    A próxima vez que for a Paris, não falha.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Agora, só no novo, rue de Bercy!!! Mas as peças são as mesmas.

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