O prédio

Há dias em que só um Trono estreito espreita pela porta, há noites até com espaço para Duas Cidades. Paisagem mutante. Mês a mês, o construtor baldas coloca betão de papel sem Loyd nem Wright, pouco Francis, Bacon só ao pequeno almoço. E os andares crescem uns sobre os outros como nas cidades distraídas. 

Não temos o Problema da Habitação, mas despedimo-nos da Terra da Alegria, é sempre Belo, os Bancos não dão empréstimos mas estes apartamentos já vêm habitados, ó vizinho tem um raminho de salsa? Salsa não, temos pena…mas já experimentou Eumesvil? Dá um gosto peculiar aos Complexos. É Noite e Riso, manhãs e madrugadas fazem-se de visitas curtas, dez minutos e o sono vem de assalto. Kaputt. Mil e uma noites é no prédio ao lado, pelo meio há um Canal de lápis e fios de conta.

Obrigatória orientação nascente poente, a luz entra pela janelas abertas dos títulos. Todos alinhados fazem um poema, cada linha uma família inteira de manas de roupa lavada, letras penduradas com molas a secar.

Destoam no pó desalinhado, a senhora da limpeza nem chega perto, desconfiança ou medo, melhor não tocar em tenazes de pássaro sobre livro movediço, que fantasmas sairão desta mesa de cabeceira. Ecoam poetas nus títulos, versos concentrados em poema alto. Instável como um dominó. Depois da Feira, desconfio que vai nascer outra torre nesta cabeceira povoada. Entretanto, adormeço com um apartamento inteiro nos braços, o prédio a desmoronar-se ao lado. E sonho como Alexandria, ou como folhas de oliveira na coroa de Nero. Fogo certo.

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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18 respostas a O prédio

  1. manuel s. fonseca diz:

    Desta terra, Teresa, não apetece despedirmo-nos…

    • teresa conceição diz:

      Não apetece e não dizemos, Manel.
      Aqui há sempre um olá pronto.
      Mesmo que seja muito breve (que pena quando é cada vez mais breve)

  2. Carla L. diz:

    Este post vem lembrar-me que preciso organizar meus livros…mas como , se parece-me que se desorganizam sozinhos?

    • Pedro Bidarra diz:

      Desarrumam-se mesmo…
      As coisas desarrumam-se sozinhas, é esse o trabalho delas, acordam de manhã e desatam a desarrumar-se. Os livros são os piores. O nosso trabalho é arrumar coisas. É este o segredo do universo

      • teresa conceição diz:

        Ora aí está, Pedro.
        Há coisas que a gente pensa que sabe. Mas precisa de as ver escritas para perceber que é isso mesmo. Obrigada por ter revelado o verdadeiro Segredo do universo 🙂

    • teresa conceição diz:

      É uma grande ideia organizar livros, Carla. Sobretudo porque não organizamos nada, mas descobrimos coisas à brava no processo.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Os prédios dos livros são bem mais sugestivos que alguns prédios sem livros, por dentro e por fora…imagina-se toda uma historia com os títulos dos livros, como bem provou aqui…

    • teresa conceição diz:

      Bela imagem essa sua, Bernardo. Não me tinha lembrado dos prédios sem livros. Devem ser muito tristes.

  4. Pedro Bidarra diz:

    os meus prédios de livros não crescem em altura mas espalham-se em comprimento. Parecem favelas de livros, um caos…

    • teresa conceição diz:

      Pedro, não vale revelar assim o desalinho dos livros. Eles também têm algum pudor, embora alguns disfarçem. Os meus, por exemplo, acho que se endireitaram à pressa assim que viram que vinha aí fotografia…

  5. MJC diz:

    Quando decido arruma-los é sempre uma trabalheira para os encontrar novamente. Enquanto estão “naquele monte” sei onde ir ter com ele.

    Ó Teresa, é preciso cuidado 🙂 podemos sempre acabar como o Brauer do livro “A casa de papel” de Carlos María Domínguez (Edições Asa, 2010). Um livro que se lê num ápice e recomendo. Fala-nos da relação dos leitores com os livros. Aproveitando o balanço dado pelo Diogo Leote, uma das frases preferidas de Brauer era “eu fodo com cada livro e, se não houver marcas, não há orgasmo” (pág 35)

    • teresa conceição diz:

      Obrigada pela sugestão, MJC.
      Mas neste caso não me apetece ter cuidado nenhum. Aliás, com os livros, e aproveitando o balanço do Diogo, acho que é uma vida de desbunda mesmo.

  6. Panurgo diz:

    Eu faço isto sempre com cuidado, que sou temente aos deuses. Sigo o conselho do cego, organizar bibliotecas é uma forma de crítica… aqui um maugham não fica em cima de um príncipe como o Jünger…. nunca se sabe se a gente não paga por estes pecados.

  7. teresa conceição diz:

    Panurgo, tem toda a razão.
    Mas repare, na estante os cuidados são outros e nenhum cuidado é demais.
    Só que na cabeceira os livros têm vida própria, nada a fazer. E este Maugham apenas subiu lá para cima porque só tem contos dentro, está levezinho, mais alpinista. Se for ver agora, de certeza que a ordem dos andares, ou desordem, já é outra. Mas acho que de pagar já não me livro. Ou Livro?

  8. pedro marta santos diz:

    Tenho uma relação semelhante com os Blu-Ray, os DVD e as cassetes de vídeo. E não me venham dizer que os livros são diferentes. Cada vez que vejo a capa de um Audiard (filho) em cima de um Zurlini, dá-me vontade de (de)sarrumar tudo outra vez. E olhem que os filmes também se desfolham… Belo post, Teresa.

  9. Diogo Leote diz:

    Nenhum prazer tenho em arrumar, Teresa. Com três excepções: livros, CD´s e DVD´s. E fico doente se vejo em minha casa um ensaio político ao lado de um romance, um russo do séc. XIX ao lado de um autor da nova vaga americana…

  10. Teresa
    Trouxe-nos pilhas de boa disposição
    pilhas de livros
    e pilhas para carregar baterias
    não me parece nada mal
    🙂

  11. Pedro Norton diz:

    Que belo post. Fiquei com vontade de ir desarrumar as minhas torres de babel.

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