O sonho e a grandeza

Somos souls without longing. Foi esse, aliás, o título que Allan Bloom começou por dar ao livro que escreveu sobre a educação universitária americana, o mais belo livro que li sobre o que deveriam ser as nobres motivações da Universidade, dos seus professores e dos seus alunos, e que acabaria por ser publicado com o título “The Closing of the American Mind”.

Essa terrível doença do desejo perpassa por nós e pelo tédio dos nossos dias. Deixámo-nos enquistar por motivações medíocres, longe do sonho e da grandeza de Platão, Shakespeare ou Tolstoi  que Bloom canta no seu livro. (Camões diria eu.)

Deixámos de aspirar ao Absoluto entronizando um corrosivo relativismo. Adoecemos o desejo. Precisamos de nos curar na tremenda, ambiciosa, elitista Beleza de séculos do passado – e nela e com ela compararmos a grandeza que hoje julgamos, e podemos, construir.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a O sonho e a grandeza

  1. manuel s. fonseca diz:

    Tem a Eugénia toda a razão, mas é exactamente para que possa não ter razão e que alguém, de cornos alçados, salte olimpicamente a parede, que vale a pena seguir o meu flautista americano, recusando jubilar-nos com a resignada genialidade de Agustina e Tamen.
    Não tem também razão em estar desse lado em vez deste, mas é sempre legítimo não se ter razão.

    • Rita V diz:

      A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre, (não fui eu que disse) foi ele – Oscar Wilde

    • manuel s. fonseca diz:

      Agradeço-lhe a veemência, pese o exagero justiceiro que me parece incluir até a morte de Twain, mas a verdade é que se também vejo muitas bocas abertas, não posso deixar de sublinhar que há algumas, porventura as suficientes, que se abrem para se comprometer. Hoje como ontem. Amanhã de certeza. Seja como for escrevi o post para louvar um livro que fez agora 25 anos. Escreveu-o um homem que já morreu e que, com o luxo que o desafogo americano lhe permitia, abriu a boca para se comprometer. Ainda por cima, divertindo-se.
      Merci bien, a ele que por certo falava francês, e a si que também.

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eugénia, que bom é “ouvi-la” uma vez mais, por isso até breve, esperemos…

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel o relativismo não permite a diferença nem qualquer tabela de valores. Por isso deixam de existir a beleza e a grandeza porque tudo passa a ser indiferente. Fomos todos nós que construímos este mundo “medíocre” como refere a Eugénia? Provavelmente , e em última análise deixámos que isso tivesse acontecido…

    • manuel s. fonseca diz:

      Deixámos sim, Bernardo, e de vez em quando não deixamos, como, muito de vez em quando e modestamente aqui acontece ao Tristemente Escrever(mos). Pena seria deixarmos de!

  4. A universidade iluminará quando arder, entretanto está muito à frente de o ensino secundário, nas suas salas de aula cabem muito mais que trinta.

    Vamos lá a ver se isto sai bem. Se abre no sítio certo. Joan Bennett, numa das melhores frases dos movies: “paint me Chris”

  5. Bolas! ficou o filme todo. Já suspeitava. Está por volta de 1:06:20, aqui vai a cena:

  6. fernando canhao diz:

    Nao creio que neste momento se caminhe para coisa muito diferente do que era antes. So os tontos se atiram contra as paredes, os outros os lucidos vao la deixando uns bocados mas nao lhes faz grande mossa. Os “a serio” sabem muito bem para onde devem ir e encontram solucoes, nao se tornam mediocres, a mediocridade nao se aprende, quem nela cai ja la andava apenas ia disfarcando, e para evitar incomodo ou mau ambiente era aceite pelos seus pares . Claro que desejos existem que podem parecer menores, Lawrence of Arabia depois de perceber que os arabes nao eram o que pensava, voltou para a aviacao, com um nome diferente como soldado raso e passou a reparar motores, a guiar motos e depressa que sera a unica maneira para quem goste do genero. Claro que tinha a rainha das motos mas apenas por ser vaidoso ao ponto de nao se notar. Acerca de Agustina BL resignada nao vejo onde. Claro que dada a grandes exageros (a meu ver uma delicia a nao perder) pois considerar tudo abaixo de cao, com algumas excepcoes para caes de trela ou de guarda sera sempre um pouco excessivo. Parafraseando Clint Eastwood “um homem tem de reconhecer as suas limitacoes”, mas entao e Paulo Branco, Bento de Jesus Caraca (quase ontem), J. Cesar Monteiro ou Saldanha Sanches nao serao prova de que nem tudo caminha para para o abismo dos “gostava de”, e nem estou a mencionar meninas. Saude da melhor e forca na verga que as pevides ainda vao voltar para precos decentes com o sal em fartura para nos andarmos a lamber na rua. Mas claro que quem nunca provou queijo da serra se pode deliciar com “tipo serra” que mesmo assim e melhor que o flamenguito, e parece me que os gostos se discutem.

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