Poesia para impressionar miúdas

Durante aqueles anos em que a vergonha nos falta, fiz da poesia um uso absolutamente lamentável. Felizmente para a poesia, a coisa não durou muito e limitou-se ao Cesariny e ao Drummond de Andrade. Poesia para impressionar miúdas. Decorava meia dúzia de estrofes e, assim que a oportunidade surgia, ia sussurrá-las ao ouvido de uma menina de olhos tristes e sorriso convidativo. A métrica e o ritmo eram sugeridos pelas pernas, que se queriam esguias e bem torneadas. A musicalidade e a teatralidade da voz, essas, variavam de acordo com (e é o Manuel que o diz, estou inocente) as curvas e o decote. Com mais ou menos pernas, curvas ou decotes, essas tristes figuras lá se foram fazendo, com total impunidade. Até à noite em que tudo acabou, claro, com o vigor de um estalo bem dado. Erro de cálculo meu, que devia ter percebido que o sorriso, afinal, não era assim tão convidativo.

Apesar do estalo que acabou com a pouca vergonha, guardei como uma relíquia o mote para a minha pseudo inspiração, que era nem mais nem menos do que uma gravação da Pastelaria dita pelo próprio Cesariny. Como ainda não sabia que as relíquias se fizeram para ser roubadas, de pouco me serviu tanto esmero na custódia da sagrada voz de Cesariny. Misteriosamente, a gravação desapareceu e nunca mais a ouvi (terá sido a autora do estalo?). Ainda calcorreei Fnacs e afins mas nada feito: só se fizera uma edição da preciosidade (incluída no disco Entre Nós e as Palavras do projecto Os Poetas, com poemas de Cesariny, Al Berto, Herberto Helder e Luísa Neto Jorge, musicados por Rodrigo Leão e Gabriel Gomes) e estava há muito esgotada.

Quinze anos depois, dei com a arma do crime no youtube. Nada que se compare com o Cesariny a dizer o seu poema. Nada que se compare, sequer, com o dramatismo e a expressão corporal deste vosso amigo, que tão justamente o fez merecer o estalo que lhe mudou os hábitos de abordagem a meninas de olhos tristes e sorriso convidativo. Mas é melhor do que nada. E o actor Marco d´Almeida até nem se sai mal. Pois é, sem uma mulher por perto, assim também eu.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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23 respostas a Poesia para impressionar miúdas

  1. Agora é mais fácil. Uma hora de ginásio durante uma semana e estão no papo. bfds

  2. MJC diz:

    Como é que a miúda do estalo fez desaparecer a relíquia? A estória está mal contada, Diogo 🙂

    Tenho que reconhecer que tentar seduzir uma miúda com este poema não terá sido fácil. Ou terá convencido a do estalo ao ponto de ela ter tido oportunidade de fazer desaparecer essa relíquia?

    Vá, Diogo, conte lá a verdade aqui p´ra gente, ehheheheh

    • Diogo Leote diz:

      Reconheço, sim senhor, que a história está mal contada. Mas a ficção é muito mais interessante do que a realidade… 🙂

  3. ~CC~ diz:

    Um homem pode amar uma mulher mas se não o sabe dizer, ela não acredita. Outros há, contudo, que sabem dizer que as amam mesmo sem as amar e elas acreditam. São assim as palavras- um engano. E, no entanto, quanto gostamos, quanto precisamos delas…
    A mim qualquer um a dizer como no poema: afinal o que importa é não ter medo – me enganava 🙂 Não é perder o medo a essência do amor?!
    ~CC~
    ~CC~

    • Diogo Leote diz:

      Nem mais, CC, o amor chega a ser temerário na sua total ausência do medo. E ainda bem que não resiste à força das palavras. O poeta fez-se mesmo para ser um fingidor. E ninguém leva a mal um engano que faça sorrir.

  4. manuel s. fonseca diz:

    Já comecei a decorar, Diogo! Para a destrunfa.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, é melhor levares capacete, já não há mulher que não saiba que o poeta é um fingidor.

  5. pedro marta santos diz:

    Ó Diogo, não há um amigo incauto com uma Super 8 que tenha registado um desses momentos de sedução? Ando à rasca de dinheiro, mas ofereço já 10 euros por essa preciosidade.

    • Diogo Leote diz:

      Pedro, naqueles tempos não se andava de super 8 ao ombro. E ainda bem! Mas ofereço uma boa recompensa a quem me consiga recuperar um exemplar do disco dos Poetas.

  6. Só um estalo?
    😀
    Não conhecia o clip e gostei imenso

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Diogo ler poesia para impressionar as garotas parece-me muito arriscado, a solução do ginásio deve ser mais económica e menos perigosa…gostei do clip mesmo sem a bofetada….

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, ainda não experimentei ginásio com poesia. Olha que é capaz de não ser mal visto ouvir Cesariny durante uma aula de yoga. ..

  8. Ana Rita Seabra diz:

    Afinal o que importa é seduzir as miúdas, mas a dizer poesia??
    Acho maravilhoso esse teu jeito de conquistar, mas com este poema não sei será o melhor…
    Gostei imenso do poema e do actor:-)

    • Diogo Leote diz:

      Ana Rita, então não é a sedução feita de poesia? Já imaginaste sedução sem poesia? Eu não. Não necessariamente pelas palavras que se dizem. Mas para o mundo de poesia pura para onde o processo nos transporta….

      • Ana Rita Seabra diz:

        A dizer poesia sim , concordo plenamente contigo.
        Sedução sem poesia não é nada, é verdade.
        Com este poema acho difícil… expressei-me mal.
        beijos

  9. O Eco de Umberto diz:

    Cesariny para miúdas? Hummm… Com Eugénio de Andrade ainda vá que não vá.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Eco, por muito menos já aqui me acusaram de homofóbico! Mas a ideia é mesmo o Cesariny ser o disfarce perfeito para o engano…

      • ~CC~ diz:

        Realmente….fico espantada com a imagem que certos homens têm das mulheres. Não é que o Eugénio de Andrade não tenha coisas bonitinhas…mas Cesariny é outra força! Andam assim ao engano certos homens, talvez à procura de borboletas 🙂
        ~CC~

        • O Eco de Umberto diz:

          É capaz de haver muita verdade nas suas palavras. Fiquei a pensar nisso das borboletas…

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