Reconhecimento

Neste tempo estranho, porque não quero dizer difícil, (difícil deve ser morrer na fome dos dias que passam, difícil deve ser perder para sempre o sentido de uma vida que se acarinhou)…neste tempo nebuloso, onde as sombras  substituem as figuras, e as incertezas de uns são usurpadas por outros, talvez mais fortes; neste nosso tempo apetece-me reconhecer que é bom viver a vida, já que  poder vivê-la plenamente é uma graça que nem a  todos chega.

E oiço Coltrane, em  “Aknowlegment” que é isso mesmo:  um hino de reconhecimento da riqueza da vida. Primeiro tema de  “A Love Supreme”, a sua obra-prima de 1964,  “Aknowledgement” reflecte bem  a experiência vivida de Coltrane, e que este descreveu nas sua próprias palavras num texto que integra a versão original: “during the year 1957, I experienced, by the grace of God, a spiritual awakening…At that time, in gratitude, I humbly asked to be given the means and privilege to make others happy through music.”

Coltrane voltava depois de um período onde tinha conhecido os contornos infernais de um mundo negro que o tinha dominado durante parte da sua vida, e pedia apenas que pudesse levar a felicidade a outros, através da musica.

O seu humilde pedido foi-lhe concedido, e podemos hoje deliciarmos-nos com esta felicidade que brota de ouvirmos uma música que nasceu de um enorme agradecimento.

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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12 respostas a Reconhecimento

  1. manuel s. fonseca diz:

    Um Coltrane e um Bernardo que ressuscitam o mais perdido. O que sei é que gosto de andar por aqui.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      É bom “andar por aqui” , a aprender sempre um pouco mais, a ver um pouco mais longe…

  2. Levar e trazer com música é muito bom.
    😀

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      A música é como a palavra : uma paixão que se une e separa mas nunca se perde…

  3. Ana Rita Seabra diz:

    e nós agradecemos estes textos que nos trazem muita alegria e a música do Coltrane faz-nos renascer sempre.
    É bom viver a vida assim 🙂

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Ainda bem…Viver e renascer com música e palavras, uma bela forma de estar na vida.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Renascer na Arte é, sem dúvida, uma dádiva que Coltrane soube recolher e redistribuir.
    Belo texto, grande música.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Obrigado António, é bom que a música fique e que tenha vida para além da dos seus autores, e se torne história…

  6. Pedro Bidarra diz:

    Como as coisas são. Coltrane, e este som, ficou para sempre como a banda sonora da minha adolescência e primeira juventude. A banda sonora dum escapismo bêbado e ganzado, de uma altura em que Portugal ainda era todo búlgaro e albanês, nos modos e nos tons. Triste enfim. E por isso me provoca uma nostalgia de nuvens negras. Mas se calhar é só a mim.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Oh Pedro mas ter várias juventudes não é nada mau…A música lembra coisas diferentes a pessoas diferentes mesmo quando estas se encontram perto…e ainda bem, que eu tenho amigos que gostam de Kriss Kristoferson!!!!

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