Rosas verdes

George Grosz

 

– Então, velho guerreiro, como vai isso?…
– Nem me fales… Tenho o olho do cu como a arena do Spartacus no fim de um dia de intensos combates… Não há qualquer posição em que possa dizer que estou minimamente confortável… Puta de vida!..
– Faz de conta que isso passa, Arménio… Desculpa lá, estou a brincar…
– E com um cu que não é o teu, ora a grande porra!
– Com um cu que não é meu, tens toda a razão… Por acaso lembro-me de um anúncio a isso que vi há uns tempos na contracapa duma Time muito velha…
– Um anúncio a isto?!…
– A um remédio, acho que uma pomada. Mas o que tinha piada era a imagem: um canhão napoleónico num quadro de época, em primeiro plano, e depois, ao longe, as tropas em combate, a cavalaria, lanceiros…
– E?…
– Bem…, dava a entender que o Napoleão tinha perdido em Waterloo, acho que era Waterloo, exactamente devido a uma crise dessas!… Tás a ver? Até tens uma doença de imperadores e tudo! Essa merda é mais uns dias e passa…
Apoiando-se num cotovelo, Arménio pediu ao outro que manipulasse a manivela e lhe subisse a cabeceira da cama, aproveitando o balanço para bebericar na caneca absolutamente hospitalar que se encontrava na mesa a seu lado.
– Ouve aqui: conta-me das coisas…, estou há dois dias e meio a dormir… O que tem acontecido?…
– Oh, o habitual: balbúrdia absoluta e geral, exactamente como há dois dias… Mas em um nadinha mais agudo… Agora já são seis sem capacidade para formar governo…
– Seis? Quem se juntou ao grupo?… A França!…
– Não, em França a aliança entre os militares e os neo-gaulistas está a segurar as pontas, pelo menos até ver.  A Holanda!, porque está tudo em pânico com a subida das águas e já poucos se interessam com governos, querem é fugir dali e rapidinho;  e a Bélgica, porque sempre referendaram a cisão e está tudo agora numa enorme tensão… étnica, sim, é tensão étnica, nem é mais nada em concreto… Isto tudo no meio duma anarquia já muito solta, bastante perigosa mesmo. Morreram mais de cem pessoas só hoje… Ninguém ouve os políticos, há um nítido assalto ao poder pelas linhas mais secundárias dos partidos… Estás a ver o animal…
– Estou a ver sim. Já estava a ver há muito isto tudo… A geração demasiado poética …
– Como é isso?!
– Isso foi a definição que consegui encontrar há quarenta anos atrás para os que, como eu, viam aquilo que então considerei como o ponto mais agudo do processo de entropia humana e consequente extinção…
– E mai nada!..
– E mais alguma coisa. Mas havia uma frase a certa altura…, deixa ver se me lembro… É mais ou menos isto: «Dois biliões fugiam a dois biliões…  Tanto de um lado como do outro houvera sempre quem mandasse e quem fosse mandado, mas às tantas da existência já ninguém queria ser mandado e já ninguém queria mandar: previa-se uma nova personalidade, e inevitavelmente um novo bicho»…
Muito Lobo das estepes no teatro mágico… Era algo escorregadio de romântico, quase barroco, muito mal escrito… Acho que ainda não sabia muito bem o que significavam certas palavras… Acho, não: tenho a certeza…
– Mas lembras-te bem, carambas!…
– É lá possível esquecer o cenário que me estava a servir as ideias… E como as escrevi elas ganharam espaço na cabeça, ao lado de muitas outras do género: o esboroar dos impérios, os conflitos regionais generalizados, a fome, o terror espectacular da natureza… Tudo por culpa de um único factor que nunca, em tempo algum, tinha sido levado em conta por políticos, sociólogos, filósofos, religiosos, economistas… Sobretudo estes dois últimos.
– Que é?…
– O excesso populacional associado aos dislates que a agressividade económica e financeira , a ganância pura e simples, provocaram no equilíbrio das sociedades e da natureza. Atingiu-se o paradoxo do crescimento: cresceu-se desordenadamente sem cuidar em cima de quê. E agora Gaya, tal como faria qualquer cão coberto de pulgas e carraças, coça-se, sacode-se, atira-se ao lago…
– Tu e Gaya, avô!…
– É mais Gaya e eu, meu filho. Isso e as rosas verdes… Vens-me buscar amanhã?…
– Venho, Arménio, pela manhã, bem cedo, que as barreiras passam-se melhor quando está tudo a dormir… Rosas verdes?… Quem são essas?… Ah!, já sei: está-te a dar a poesia…
– Sim, muito. E romântica…
– Inté coroné!…
– Inté, pázinho…

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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10 respostas a Rosas verdes

  1. Rita V diz:

    O Amarelo foi bem escolhido para ilustrar este texto e a memória do filme também.
    🙂

  2. manuel s. fonseca diz:

    Que terível (mas até bem disposta) distopia!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Mas o que tem graça é que no original (de há 40 anos) sai disto uma utopia qualquer…

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Uma conversa apocalíptica numa cama de hospital…bem escolhidos o Grosz , o Kubrick e o Ludwig Van como dizia o Malcom no filme …

  4. António Eça de Queiroz diz:

    A chamada integração do apocalipse como coisa do dia-a-dia.
    Chegaremos lá, acho eu, ao princípio da utopia..

  5. Teresa Conceição diz:

    Que extraordinária conversa, António.
    Um filme de fazer tremer as camas do hospital!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Cruzes, Teresa! Esperemos que as camas dos hospitais sejam as últimas a abanar!
      Estou numa fase «FC de proximidade», o meu víciozinho profético…

  6. Minhona David diz:

    Fantástico: o mix de Grosz, G. Wells, Kubrick e Profeta Eça, António, dá um “Apocalypse later” de fazer inveja a Nostradamus.
    Um canhão de pomada e uma caneca absolutamente hospitalar – obrigada pela receita!

  7. António Eça de Queiroz diz:

    ‘Apocalypse later’ é muito bom!
    Quanto ao canhão de pomada…, nem sei que lhe diga da receita: assim a quente parece-me um pouco violento.
    Ainda bem que gostou!

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