Só para Senhoras

 

“Vi muitas belas bundas em Portugal, que lá não são chamadas de bundas, mas de cu mesmo, que lá nem é palavrão, veja como são as coisas, grande país subestimado. Bundas de homens e mulheres. Toda a mulher portuguesa dá a bunda, ou pelo menos dava, para manter a santa virgindade vaginal, como aqui. Hoje, com a entrada na Comunidade Europeia e outras mudanças – eles hoje detestam o Brasil, sabia? Português de-tes-ta o Brasil, com excepção do Mário Soares, do Saramago, do José Carlos Vasconcelos e dois ou três outros gatos pingados, desprezam mesmo, é uma pena -, não sei mais como estão as coisas. Provavelmente nunca mais será ouvida a pergunta imoral que um amigo meu escutou, depois de enfrentar galhardamente a primeira com uma portuguesa belíssima, ele que até antes estava com medo de broxar. Ele me contou que, satisfeito e aliviadíssimo, estava fumando o tradicional cigarrinho post coitum, quando ela olhou para ele e falou: “E ao cu, não me vais?”

 

Fique desde já a cara leitora desprevenida a saber que o título que dei ao post é tão enganador como o texto que acima citei. O texto, enganador é porque a santa virgindade vaginal em Portugal está longe, muito longe, do ser o que já foi, e já o estava quando o texto foi dado à estampa, em 1999, como parte integrante do manifesto ao sexo que é o ultra provocador A Casa dos Budas Ditosos, do brasileiro João Ubaldo Ribeiro. E, daqui, já dá para perceber que o título Só Para Senhoras não passa de um aviltante ardil em que a estimada leitora acabou de cair. E já é tarde para voltar atrás. Para que não se precipite na condenação moral do autor destas linhas (as linhas do post, e não as acima citadas, de Ubaldo Ribeiro, para que fique bem claro), a verdade é que o próprio também se deixou levar pela justificação dada pelo escritor para a publicação do livro: a de que se trataria da mera redução a escrito de uma gravação que lhe foi deixada por uma misteriosa mulher, já sexagenária, na qual era narrado na primeira pessoa, sem ponta de remorso, todo um percurso de uma vida totalmente dedicada ao sexo. E a armadilha montada por Ubaldo Ribeiro chegava mesmo ao ponto de por na boca da libertina narradora uma asserção alegadamente indestrutível: toda a mulher que se preze, se não as viveu ainda, aspirará ou desejará, ainda que nos seus mais recônditos e dissimulados pensamentos, passar pelas experiências de que a narradora se faz porta-voz. Não conte comigo a leitora para levantar uma ponta que seja do véu. Dir-lhe-ei apenas que a sua imaginação talvez não seja suficiente para tal. E que o melhor mesmo é ir espreitar pelo buraco da fechadura. Deixo apenas dois avisos. O primeiro: A Casa dos Budas Ditosos é um escrito pornográfico da primeira à última linha. O segundo: foi com ele que me libertei do velho preconceito segundo o qual toda a pornografia é lixo. Mesmo que nunca mais vos ocorra outro exemplo em sentido contrário, poderão sempre contar com a brilhante eloquência do relato dos Budas Ditosos para, despudorada e mesmo orgulhosamente, exclamar, em alto e bom som, que não, que nem sempre é assim, e que a pornografia pode até ser sinónimo de grande literatura. Resta-me desejar o óbvio a todas as senhoras que ficaram presas no ardil: uma boa leitura, claro está.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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19 respostas a Só para Senhoras

  1. Carla L. diz:

    Pegou-me!!!

    • Diogo Leote diz:

      Carla, eu não pego nada, é o João Ubaldo, o malandro do João Ubaldo, que a pegou, e eu sou totalmente impotente para a livrar da armadilha em que caíu…

  2. Não levanto a ponta do véu, não senhor. Apenas confirmo que é coisa boa de se ler. Não sei se é só para senhoras; estou em crer que não pois percebo o interesse que despertou no autor deste texto.

    Relembro apenas, para apimentar a coisa, que, à data da publicação em lusitana pátria, foi livro proibido em alguns locais, nomeadamente, se não estou em erro, em algumas grandes superfícies – vá lá a gente perceber porquê.

    E, se me permite, junto-me aos seus votos: boas leituras.

    • soliplass diz:

      Mas aquilo tem coisas absolutamente imperdíveis, e se me permite junto-me ao louvor à obra.

      Como a de certa senhora que não tinha a certeza da paternidade de dois dos filhos de tão «panorâmicamente» que dava (omito o quê, por respeito ao patriarcado) ou aquela imagem das ambulâncias desgovernadas, que cito se me permite:

      “Por exemplo além de ter saudades do tempo das coxas…Ainda vou contar algumas aventuras do tempo das coxas, tenho material para duas guerras-e-pazes. Passagens espectaculares, uma vez com o padre Misael em pleno colégio de freiras, outra vez com o meu noivo Maurício na porta do apartamento onde estavam dando uma festa, e eu gozando como duas ambulâncias desgovernadas,…”

      Bom post, melhor evocação.

      • Diogo Leote diz:

        Apesar de não saber se pertence ao grupo das senhoras presas no ardil, congratulo-me, Soliplass, com o efeito que o livro também em si provocou. Quanto a passagens imperdíveis do livro, bastará abrir uma página ao acaso, qualquer uma serve para encontrar um exemplo sublime da arte de escrever sobre o sexo. Muito obrigado pelo seu contributo.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Jeito Manso, lembro-me bem desse episódio da proibição da venda do livro nas grandes superfícies. Cá para mim, é bem possível que a vastíssima comunidade de maridos acomodados no nosso país (e lá fora também) tenha receado o poder de um livro destes nas mãos das digníssimas esposas….

  3. Luciana diz:

    Igualmente interessante, ou quase (mas definitivamente igualmente instrutivo e divertido) é ver/ouvir o monólogo com Fernanda Torres…

  4. MJC diz:

    Será que há diferença entre literatura erótica e literatura pornográfica? Alinhado na mesma estante tenho outro que recomendo: “O meu pipi”

    • Diogo Leote diz:

      Cara MJC, antes dos Budas Ditosos, eu colocava o traço separador entre uma e outra das literaturas na marca artística. A literatura erótica poderia aspirar a tê-la, a pornográfica não. Afinal, vou ter de reformular essa visão. Tenho um para a troca: o excelente Pornopopeia, do também brasileiro Reinaldo Moraes.

  5. Ana Vidal diz:

    Gostei imenso do livro quando o li há anos, e não acho que seja pornografia. Ou melhor, talvez seja, mas então teremos de criar sub-categorias para a pornografia, sendo algumas delas estimáveis… e é mais prático considerar lixo toda a pornografia. Ora, eu gosto de limites, daquela estreitíssima linha que separa a segurança do abismo, e é aí, talvez, que eu situaria o livro do João Ubaldo. Prefiro considerá-lo um tratado sobre sexo, irónico, divertido e instrutivo. Mas também não é só isso, não. É a natureza humana que ali está no estendal, ao sol, ou não fosse o sexo o motor de (quase) tudo na nossa vida.
    Bom post, já agora. 🙂

    • Diogo Leote diz:

      Cara Ana, muito obrigado pelo seu comentário. Confesso que também me inclinava para esse traço separador entre erotismo e pornografia. Mas a verdade é que os Budas Ditosos, como também o recente Pornopopeia, não se enquadram no conceito em que eu tinha arrumado o erotismo por oposição à pornografia. Fiquei baralhado. Mas não é essa uma das funções da arte, a de nos interpelar, questionar e baralhar perante aquilo que já tinhamos por adquirido?

  6. teresa conceição diz:

    Belo título, Diogo, e melhor texto.
    Muito bom ter trazido os Ditosos aqui à estampa. Já fizeram parte, há muito, de um dos meus prédios de cabeceira. Fiquei com vontade de lá ir bater à porta outra vez 🙂

    • Diogo Leote diz:

      Ainda bem que gostou, Teresa. A propósito dos seus prédios de cabeceira, avistei numa das suas torres outro belíssimo tratado sobre o sexo: o Complexo de Portnoy, do Philip Roth.

  7. manuel s. fonseca diz:

    Obrigado pelo muito bom post, Diogo. Fui leitor divertido e feliz deste Ubaldo. Escreve bem o sexo.

    • Diogo Leote diz:

      Obrigado, Mestre Fonseca. Isso é sinal de saúde, o de um homem se divertir com a total ausência de limites de uma mulher face ao sexo.

  8. Ana Rita Seabra diz:

    Olá Diogo! Gostei do post sim!!!
    Deu-me vontade de comprar 🙂

    • Diogo Leote diz:

      Compra, Ana Rita, que o tempo já não é de espreitar pelo buraco da fechadura!

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