The Attic Cinematheque: A Passagem do Rex

Sim, Eu Lembro-Me

Fellini só podia ser italiano. A Itália de Fellini é a das vozes cantadas, dos impulsos dionisíacos, da latinidade vulcânica, da emoção à flor da pele, da alegria na miséria, da decepção na riqueza, dos mendigos, das prostitutas, das coristas, dos galãs de matinée, do desfile circense que invade o quotidiano das cidades, das vespas tontas, dos festins à beira-mar, das vidas intensamente vividas. Ao mesmo tempo, o mundo felliniano é um mundo mental, deriva cinética de um profeta que opera a sua máquina de sonhos (ele apontava todos os que tinha num bloco de notas). São filmes radicalmente anticlericais – apenas F.F. conseguiria rodar passagens de modelos com freiras e bispos e safar-se sem reprimenda – e obcecados pelas formas femininas, a transbordarem de cores e tecidos kitsch, recordações íntimas, labirintos pagãos, crises existenciais, pesadelos de celofane, artes mágicas, como o trabalho de um Meliés mediterrânico e embriagado – Fellini gostava de se proclamar “o Grande Mentiroso”.

Mestre de cerimónias e domador de leões psicadélicos (trabalhou num circo quando era miúdo), Fellini é dos raríssimos artistas da história do cinema que reinventou totalmente a realidade – como ele, talvez só Preston Sturges, Nick Ray, Tarkovsky, Cronenberg e, a um nível menor, Tim Burton -, chapinhando entre o grotesco e o sublime. Os seus filmes deviam fazer parte da educação dos adolescentes, pois abrem os olhos e despertam a consciência para as delícias do sexo, da auto-ironia, do riso. E do amor.

Há várias fases na carreira de Fellini. Temos a imersão, sempre intransmissível, no neo-realismo com “I Vitelloni” (de 1953, onde a adolescência é um fogo de artifício extinto pelas chuvadas da responsabilidade), “La Strada” (1954) e “As Noites de Cabíria (1957, a primeira das obras-primas) até à aurora moderna de “La Dolce Vita” (1960). A fita seguinte, “8 ½ (1963), reflexo duma crise de meia-idade, marca a erupção das “paisagens interiores”, das angústias pessoais e dos universos oníricos numa narrativa até então nos limites do naturalismo. A partir de “Julieta dos Espíritos” (1965), é o delírio: “Roma” (1972), com o Cristo-Rei que sobrevoa a cidade, “Casanova” (1976, a minha favorita das suas fitas, de um contínuo sentido de invenção, e tão triste…), “A Cidade das Mulheres” (1980), “O Navio” (1983), até às melancólicas – mas carregadas de sentido do espectáculo – reflexões finais. Favorecendo os símbolos herméticos e as vertigens espontâneas, o cinema de Federico tendia a fechar-se sob si próprio, como uma concha renascentista num oceano de chianti. “Amarcord”, dirigido em 1973, é o filme mais amado do ‘fantasista’, talvez por ser o mais universal.

A neve vermelha de Gradisca

Amarcord relata – talvez seja correcto dizer “sonha” – um conjunto de episódios no quotidiano de uma vilazinha costeira do noroeste de Itália: Rimini. Não são menos do que episódios baseados na infância do próprio Federico, aí nascido (“Amarcord” significa literalmente no dialecto da região, a Romagna, “Eu lembro-me”). Numa fragância pirandelliana, de humor mordaz mas sempre imerso na nostalgia, a fita é uma colecção de sequências, ora hilariantes, ora de uma tristeza longínqua, traduzindo como nenhuma outra obra de Fellini uma das suas máximas: “Não há princípio nem fim, só a paixão infinita pela vida”. As cenas que se recordam são várias: as deambulações na praia da prostituta louca Saraghina (os padres da escola do Fellini miúdo juravam que ela era o Diabo em pessoa), o septuagenário Ciccio Ingracia a subir a uma árvore para gritar

"Voglio una Donna!"

os esquemas de aldrabice da rapaziada na sala de aula, a sedução ululante de Gradisca, Titta sufocando nos seios colossais da vendedora de cigarros… se todas as infâncias fossem assim, os homens, chegados à vida adulta, seriam magnânimos.

Se tiver os teus seios, para que quero o futuro?

Mas nenhuma sequência representa melhor a doçura de “Amarcord” do que a passagem do paquete Rex ao largo da costa.

A vila em peso enfia-se nos botes e barcos de pesca disponíveis, fazem-se cânticos e cozinhados, fala-se do que a vida poderia ter sido ou do que poderá ainda ser, adormece-se pela madrugada. O colosso “Rex” surge de nenhures, sono dentro, feito vulto de grandeza, luxo, ilusão, viagem, felicidade, num mar de tecido e papelão, o mar de Fellini.

O "Rex" é a Europa. Apenas podemos dizer-lhe adeus

Há filmes que nos amam por amarem tanto a passagem do tempo. “Amarcord” é um deles.

 

Publicado em “O Independente”, numa galáxia longínqua

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.

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9 respostas a The Attic Cinematheque: A Passagem do Rex

  1. Ah! Gosto muito desse conceito da latinidade vulcânica. É isso mesmo. 🙂

  2. teresa conceição diz:

    E eu vou com eles nos botes ver a ilusão passar no mar de papelão.
    Sim, Amarcord é o mais querido e belo dos filmes. Cola-se-nos como se as memórias fossem nossas.
    Mas não é fácil falar dele e recordá-lo com palavras. Que bom tê-lo trazido aqui desta maneira, Pedro.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Fellini é o teatro filmado em bruto, é a escrita tornada plano, o texto como linha musical. É isso que mais aprecio, um despretensiosismo que quase nos faz pensar que tudo aquilo é sorte, que é quase documentário quotidiano…Belas memórias Pedro, de um grande cineasta que mereçe sempre a pena de ser revisitado…

  4. manuel s. fonseca diz:

    Ah, grande Pedro. Que texto eufórico. Eu vi Amarcord quando o filme chegou a Luanda, logo que o filme saiu, julgo que em 1973. Escuso de dizer que o Voglio una donna se converteu num slogan popular, popularíssimo.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Que bom lembrar Fellini!
    Gostei muito do texto

  6. pedro marta santos diz:

    Gostei da oportunidade de vos relembrar o filme, e o seu mágico louco. Abs e beijos.

  7. Rafael Moreira Fabro diz:

    Cheguei a este cantinho através do fantástico texto sobre o genial “Amarcord” de Fellini. Inebriantes palavras que estão à altura do encantamento causado pelo filme. Obrigado e os meus parabéns por tão bela escrita, Pedro!

  8. pedro marta santos diz:

    Obrigado pelas suas palavras, Rafael. Volte sempre.

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