The Attic Cinematheque : Sobre a Terra e Sobre o Mar

O belo texto do Manuel Fonseca inspirou-me a lançar breve arqueologia sobre textos que editei noutras cruzadas. Ainda por cima, “Sei Para Onde Vou” é um dos meus filmes de vida, um dos meus filmes da vida. Talvez vá à cave de quando em vez, lançando mensagens mediúnicas para o sotão do Manel. Para o que seja, aqui fica. Foi publicado num número qualquer dum ano qualquer de “O Independente”, o último sonho – o único sonho? – da imprensa portuguesa nestes 25 anos derrapantes.

"Sei Para Onde Vou" "O Retrato de Jennie"

 

 

 

 

 

 

Em 1950, numa carta ao amigo James Sandoe, Raymond Chandler escreveu: “Não deve perder de forma alguma um filme inglês chamado ‘I Know Where I´m Going’, filmado em grande parte na costa ocidental da Escócia, face às Hébridas. Nunca vi um filme que cheirasse tanto a vento e a chuva, nem que explorasse de forma tão bela a paisagem e o povo que nela habita”.

 “I Know Where I´m Going – Sei Para onde Vou”, escrito por Emeric Pressburger e realizado por Michael Powell em 1945, é um exemplo maior do universo da dupla britânica. As regras desse universo são simples: o amor contagia, todas as tonalidades encerram um significado, no limite, espiritual, e a acção é ditada por um febril  romanesco. “I´m very much against naturalism”, acentuava Powell, e as traves-mestras da sua estética são o poder da mise-en-scéne, os artifícios do estúdio, o diálogo com a música, a literatura, a pintura, o puro génio na utilização dramatúrgica dos recursos técnicos. Powell era um mestre das transparências, das sobreimpressões, das trucagens, e a sua arte, “bigger than life” mas “independente” avant la lettre, influenciou mais realizadores do que qualquer outra filmografia da sua geração: Coppola, Lucas, Scorsese, Wenders, Spielberg – a lista de fiéis não acaba.

 Abordar Powell/Pressburger e as obras-primas do par – “Uma Questão de Vida ou Morte”, “A Vida do Coronel Blimp”, “Black Narcisus” (sério candidato a mais absolutamente absoluto dos filmes), “Os Sapatos Vermelhos”, “Peeping Tom: A Vítima do Medo” – exigiria uma pilha de volumes com encadernação epistolar. Mas nenhum tempo é desperdiçado para celebrar “Sei Para Onde Vou”, certamente um dos grandes filmes da História que quase ninguém viu (a magnífica edição americana em DVD da Criterion Collection é uma possível porta de entrada, já que tem mais extras do que um coupé topo de gama, embora custe quase o mesmo).

 Joan Webster (Wendy Hiller, a futura dame do teatro britânico) é uma rapariga a tentar chegar a uma certa ilha escocesa, onde irá casar por dinheiro com o proprietário da Consolidated Chemical Industries. Irá, mas lá não chegará. Powell conta que se preparava para rodar “Uma Questão de Vida ou Morte” em Technicolor quando o laboratório anunciou que só estaria disponível para ele vários meses depois. Enquanto esperava, tornou-se necessário, por motivos contratuais, filmar uma longa-metragem a preto e branco. O parceiro-argumentista Pressburger tinha a vaga ideia da história de uma mulher que pretende ir a uma ilha próxima da costa mas, por uma razão ou outra, é sempre impedida de o fazer, acabando por ficar no cais. Powell perguntou a Pressburger porque queria a mulher ir à ilha. Pressburger, incapaz de responder do pé para a mão, escreveu o script em quatro dias.

 Joan Webster, Aquela Que Sabe Para onde Vai, será obrigada a aguardar em frente à ilha por que tanto anseia, e no seu tempo de espera conhece um habitante local, Torquil McNeil (Roger Livesey, um “habituée” da dupla). Não é tiro e queda, mas é uma vitória romântica pela exultação do cansaço.

Na cena final, Joan tenta alcançar a terra do acomodado compromisso, mas os elementos – mar, chuva, vento e o Corryvrecjan, o remoinho que, em certas condições de maré, se forma entre as Hébridas – atiram-na para os braços de McNeil: é o triunfo da fantasia telúrica, tão cara a Powell, que abana o hiper-realismo da produção britânica dos anos 40 para o virar ao contrário, oferecendo-nos um conto moral de estrutura clássica mas ambições modernas. E a modernidade em Powell & Pressburger vem da representação dos elementos naturais como arenas psicanalíticas, timbradas reproduções do interior das personagens numa constante “relação do inconsciente com a paisagem”, como escreveu a propósito Peter von Bagh.

Amar o Mar

A relação do relevo exterior com a “paisagem interior” – tema clássico da observação do cinema a partir de finais dos anos 50 – atinge a transcendência num filme realizado, três anos depois de “Sei Para Onde Vou”, em pleno coração dos grandes estúdios de Hollywood: “O Retrato de Jennie”, do alemão William Dieterle.

O retrato de "O Retrato de Jennie"

Velho parceiro de Max Reinhardt, Dieterle cria aqui um dos expoentes audiovisuais do romantismo “entre a vida e a morte”, fermentado nos delírios românticos de certa literatura anglo-saxónica do século XIX. O delírio não é psicologicamente acidental: “O Retrato de Jennie” é uma carta apaixonada do produtor David O. Seznick (“E Tudo o Vento Levou”, “Rebecca”, “Duelo ao Sol”) à companheira de então, Jennifer Jones – “Duelo ao Sol”, no seu impulso ultra-misógino de provações, levantará dúvidas quanto ao futuro do relacionamento.

 Eben James (Joseph Cotten) é um pintor na penúria que descobre inspiração em Jennie (Jennifer Jones), a adolescente com quem se começa a encontrar num parque público.

Is beauty truthful or beautiful?

Cada vez que Eben a vê, Jennie está um pouco mais velha, até atingir uma plena – e solar – maturidade. Portanto: Eben sabe que se está a apaixonar por um fantasma.

“O Retrato de Jennie” é talvez o mais onírico de todos os filmes da Idade de Ouro hollywoodiana: os seus códigos, símbolos e significados estão próximos do surrealismo. O climax, ou a “sequência do farol” é, a esse respeito, transbordante:

 Eben tenta juntar realidade e encantamento numa ilhota onde as vaga marítimas surgirão para lhe oferecer Jennie uma última vez, mas o barco que o transporta naufraga nas rochas, Eben alcança o farol contra ventos e marés, sobe a elipse do fosso que lhe escapa, avista Jennie, devolvida pelo mar, abraçam-se junto às escarpas, renegam todos os relógios – “o tempo errou”, diz-lhe ela – mas o oceano que a trouxe é o oceano que a leva, e Jennie desaparece para sempre nas águas.

Oh God

 O vento forte que varria os montes partiu em pedaços as rochas, diante do Senhor, mas o Senhor não estava no vento.

 “Sei Para Onde Vou” e “O Retrato de Jennie” são filmes curtos. Porque já não se fazem filmes curtos assim? São também filmes-mundo, capazes de mudar oceanos e estrelas, de redimir o Destino dos homens, levando-os a bom porto ou arrancando-lhes a esperança.

 Holderlin disse uma vez que há fantasmas capazes de transformar “o esforço de passagem deste mundo para o outro num esforço de passagem do outro mundo para este”. Esses fantasmas chamam-se filmes.

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a The Attic Cinematheque : Sobre a Terra e Sobre o Mar

  1. Rita V diz:

    ainda bem que estou de férias
    tempo para procurar isso tudo
    até quem sabe
    encontrar os meus
    fantasmas!

    😀

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Fiquei com uma enorme vontade de ver ambos, de saborear o que as belíssimas fotografias apenas insinuam…realmente o mundo dos “fantasmas” é quase infinito e há que atacá-lo persistentemente.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Peter, brother in arms, grande ideia desencantares os textos do teu Indy. Justíssima a aproximação deste Powell ao sonho de amor do Selzenick. Fico à espera de mais, mais!

    Agora, indo às tricas: essa de citares o finlandês Peter von Bagh é assombrosa. Tu sabes que o conheço? Bebemos uns copos em Pordenone e aprendi com ele a gostar de Laphroig. Nada de mariquices de gelo ou água… Ela programava um canal finlandês e eu fazia a programação de cinema do canal 2. O homem morria de inveja quando me via exibir Ozus! Escreviamos faxes. Uma coisa pré-histórica.

  4. fernando canhao diz:

    Caros seguidores de Bartleby the Scrivener, pois ainda bem que preferem escrever.
    Wim Wenders numa entrevista antiga desarmou o entrevistador ao dizer que so fazia filmes porque nao sabia escrever. Ainda por cima nao mentiu. Por outro lado considerava se salvo pelo Rock & Roll. No Amigo Americano, Bruno Ganz ao cantarolar o “Baby you can drive my car” ainda hoje supera McCartney. Pois escrevam e em doses mortais para darem alegria a muita gente, eu incluido. Pena a vossa rapariga ter sido comida por um tigre, por exemplo.

  5. Teresa Conceição diz:

    Pedro, ainda não consegui ler tudo.
    Estou com vontade de chegar a casa para ler como no cinema.

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