The Basement Cinematheque: Memórias Brancas de Fita Amarela

 

Down Memory Lane

George Steiner disse uma vez que “somos aquilo de que nos lembramos”. É uma síntese perfeita do cinema de Sean Aloysius O’ Fearna, ou John Martin Feeney, ou John Ford, o irlandês mais americano, o americano mais irlandês.

Joseph McBride, um crítico de cinema que ama os filmes de Ford como ninguém, fala do dia do funeral do realizador em 1973, quando andou de florista em florista por Los Angeles à procura de um cacto em flor para colocar junto ao altar, antes do início da elegia fúnebre. Lá conseguiu encontrar um, mas o seu cacto ficou para trás quando os enormes arranjos de flores frescas foram levados até à sepultura de Ford. Porquê uma flor de cacto?

 Há uma cena num dos últimos “westerns” de Ford, “O Homem que Matou Liberty Valance” (1962) que, segundo outro crítico de respeito, Andrew Sarris, sumariza o cinema do director: “Tudo o que Ford alguma vez pensou ou sentiu está comprimido num único plano. Fotografado, evidentemente, do único ângulo possível”.

O plano é o da flor de cacto que Hallie Stoddard (Vera Miles) deposita no caixão de Tom Doniphon (John Wayne), prestando-lhe a a última homenagem ao lado do marido, Ransom Stoddard  (James Stewart). Trinta anos antes, Hallie estava apaixonada pelo eremita e instável Tom quando conhece Ransom, um púbere advogado, idealista, promovido a herói do Estado e, depois, a senador da nação após matar em duelo Liberty Valance (Lee Marvin), um assassino e um ladrão de gado que aterroriza o condado. Saberemos entretanto, num rasgo digno de Kurosawa, que foi Tom, e não Ransom, a liquidar Liberty Valance, deixando os louros para o advogado lava-pratos.

As sombras são fantasmas do passado

Quando Hallie coloca a flor no caixão de madeira tosca, abandonado no mais pobre dos armazéns, mostra-nos que ama tanto Tom Doniphon como no primeiro dia em que o conheceu.

 Há outras cenas tão líricas e tão belas no cinema de Ford:

 

– o momento de “A Desaparecida” (1956) em que Ethan Edwards (Wayne, outra vez) resgata a sobrinha Debbie (Natalie Wood) após cinco anos de busca – será que a vai matar, abraçar ou tomar como sua?

 

– a convalescença do jovem Huw (Roddy McDowall) na casinha da família mineira enquanto vê o mundo transformar-se através de uma janela, no maravilhoso “O Vale Era Verde” (1941)

 – a despedida de Tom Joad (Henry Fonda) – “wherever there´s injustice, i´ll be there” – no final de “As Vinhas da Ira” (1940)

Irish Tempest, by Maurice Béjart

– o “pas-de-deux” de Wayne e Maureen O’Hara no clímax da tempestade em “O Homem Tranquilo” (1952)

– Frank ‘Spig’ Wead (Wayne ainda) a mexer o dedo grande do pé após meses de paralisia numa cama de hospital, no tão esquecido “A Águia Voa ao Sol” (1957).

 Para cada amante de cinema e para cada amante do cinema, há um pessoalíssimo “coup de foudre”  com uma imagem de Ford.

 

“Os Dominadores” (tradução estrambelhada do bonito “She Wore a Yellow Ribbon” original) foi rodado pelo director em 1949. É o tomo do meio da chamada “trilogia da Cavalaria”. Ford dedica-a aos homens que velaram pela segurança dos colonos na conquista do Oeste – os outros são “Forte Apache” (1948) e “Rio Grande” (1950). O “western” é, juntamente com o “jazz”, a grande forma de arte genuinamente americana, equivalente no século XX à tragédia grega clássica. Ninguém a praticava como Ford. Ao falar-se do director, costuma citar-se “A Desaparecida”, “A Paixão dos Fortes” (1946, essa longa carta de amor a Wyatt Earp e ao mito de Tombstone), o seminal “Stagecoach” (1939) – Orson Welles disse que aprendeu a realizar “Citizen Kane” após ver 57 vezes esta fita – ou “Wagonmaster” (1950).

 No “nec plus ultra” de Ford costuma esquecer-se “Os Dominadores”. Mas é um filme genial, e está lá tudo o que é “fordiano”: o humor picaresco, a honra, o dever, a importância dos rituais como cimento da vida comunitária (da rotina às pequenas idiossincrasias, dos tributos à vigília, dos nascimentos à morte), o respeito pela memória, a familiar “companhia de actores”. A intriga, minimal, é um pretexto para observarmos o que interessa: o coração das personagens.

No território hostil do Sudoeste americano, após a derrota e morte do General Custer às mãos dos índios na batalha de Little Big Horn em 1876, um capitão da cavalaria, Nathan Brittles (um Wayne envelhecido pela maquilhagem) está a seis dias da reforma quando recebe uma última missão: levar a mulher (a impagável Mildred Natwick) e a sobrinha (Joanne Dru) do comandante do forte rumo a paragens mais seguras. A sobrinha, Olivia Dandridge, provoca um pequeno tumulto entre a companhia pela sua beleza, e por   começar a usar uma fita amarela no cabelo (o “yellow ribbon” do título), marca da promessa de envolvimento com um dos militares.

O filme é composto pelos rituais de homenagem e de despedida a Nathan pelos seus subordinados. São todos vestidos por indefectíveis de Ford, do truculento Victor McLaglen (que passou uma vida à pancada com Wayne no ecrã) a Ben Johnson, de John Agar a Harry Carey Jr.. Pelo meio, há uma tentativa de reconciliação do velho militar com os cheyennes que ameaçam o território.

A mulher e as duas filhas de Nathan estão enterradas no pequeno cemitério da colina junto ao forte, e a cena em que o capitão se detém junto à campa é uma gentil ressonância do momento em que Hallie depositara a flor de cacto no caixão de Tom Doniphon.

Na fotografia de ocres e laranjas robustos do deserto (Winton C. Hoch é o autor), Ford mostra Nathan numa fragilidade desarmante, regando a campa enquanto fala com a esposa Mary como se esta tivesse regressado agora de uma viagem breve à cidade. Conta-lhe os planos para experimentar o sol da Califórnia, a morte de Custer, o desaparecimento de um velho amigo, Miles Keogh, que costumava dançar a valsa com Mary para sua confessada inveja.

 Por um momento, a sombra de uma silhueta feminina preenche a lápide de Mary, como se esta regressasse do Além, amor consumado em matéria. Afinal é Olivia, a rapariga “da fita amarela, que é muito parecida contigo”, confessa Nathan à esposa. Olivia entrega um vaso com flores a Nathan: são as flores da saudade, como o frágil cacto de Hallie Doniphon dez anos depois, como o frágil cacto de Joseph McBride uma década mais tarde. Porque somos aquilo de que nos lembramos.

 

 Publicado há quatro séculos em “O Independente”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a The Basement Cinematheque: Memórias Brancas de Fita Amarela

  1. manuel s. fonseca diz:

    Isto vai para aqui uma nostalgia pegada com corrida aos baús. Yellow Ribbon é uma coisa genial: ouvi dizer que Ford foi buscar um francês, um tal La Tour, para lhe fotografar as cenas de noite. O homem terá desaparecido e até hoje nunca mais, nem em França, nem nos EUA, o voltaram a encontrar..
    Ah, como o mundo era verde e a vida era barata nesses anos em que ainda havia jornais…

  2. pedro marta santos diz:

    A vida era mais bela quando havia grandes jornais, com todos os seus magníficos defeitos. Um abraço para ti, dottore.

  3. estas vossas descrições dão cabo de mim
    😀

  4. E depois há aquele filme, em que aquela irritante criança, passa durante toda a sua duração, a gritar “Shane!” “Shane!”, e que só apetecia dar-lhe um par de galhetas bem embaladas. É um filme histórico, pois dá início aos maus tratos a crianças, aqueles ecos de “Shane!” “Shane!” pelas indómitas montanhas do Wyoming, som pior que comer pipocas nas salas, ecoaram para a sociedade real e os putos começaram a apanhar nas trombas.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pedro, o western e Ford, passaram a ser uma obsessão após ter passado varias vezes por Monument Valley, ao atravessar os Estados Unidos, (de este para oeste claro), onde pude “vislumbrar” um pouco do que terá sido essa grande aventura americana, que Ford soube captar para toda a história. Fantástico “resumo” de obras e episódios…

  6. pedro marta santos diz:

    O Roger Waters também se lembrava do “Shane”, caro Táxi. Fizeste-me voltar ao “John Ford Point” em Monument Valley, Bernardo.

Os comentários estão fechados.