Um cinema sem imaginário

Foi no extinto “Semanário”, em 1990. Uma encomenda: para acompanhar uma cronologia das décadas do século, devia ensaiar uma incursão pelos rostos mais marcantes do cinema português. Procedi como se Portugal tivesse gerado as mesma mitologias que as grandes cinematografias, a americana, mas mesmo as europeias, a francesa, a alemã, a italiana. Um exercício quase impossível: os filmes raramente tiveram impacto social e, ainda por cima, a história do cinema português é uma história sem historiadores. O cinema português é um cinema sem imaginário.

 anos 10, rosa do adro

O cinema português começou a matar. Os Crimes de Diogo Alves foi a primeira ficção. Não chegou a ser completada a versão de 1909. À segunda, em 1911, foi de vez. Mas o primeiro galã, marialva embora, estava longe de ser criminoso. Foi Erico Braga, em A Rosa do Adro. Etelvina Serra, actriz «de grande beleza e distinção», foi a «leviana» Deolinda, que quase o perdia. Era da cara deles que os portugueses gostavam nesses anos em que o busto da República era ainda uma criança.

Cirina, uma brasileira serpentina

Antes. no final do século, Paz dos Reis inventara a primeira vedeta: Cirina Polónio, uma brasileira de danças serpentinas.

anos 20, contos de francine

De caras, de caras, os portugueses foram pela de Brunilde Júdice, a Mariana do Amor de Perdição e a protagonista de Mulheres da Beira a quem um fidalgo dizia: «Mais hoje, mais amanhã, serás minha!» Desgraça das desgraças: era mesmo. Fitas à parte, era uma santa. Numa entrevista perguntaram-lhe: «Fuma?» “Não! É para mim uma tragédia sempre que sou forçada, pelas circunstâncias, a fumar em scena.»
Acredito que fosse verdade. Como não acreditar naqueles olhos grandes e no rosto oval tão parecido com o de Brigitte Helm, de quem Fritz Lang fizera a heroína de Metropolis?
Mais misteriosa foi a «formosíssima» Francine Mussey.

Francine, la vedette

A Invicta Films trouxe esta francesinha para ser a vedeta de Cláudia e Lucros Ilícitos. Filmaram-na com flores presas na orelha ou um turbante a apanhar-lhe o cabelo. Com ela havia «dejeuners sur l’herbe» nos estúdios do Carvalhido e as contas de Francine no Grande Hotel davam tratos à imaginação dos tripeiros. O Porto chorou baba e ranho quando o telégrafo disse de França que ela se tinha suicidado.
Homens portugueses e fiteiros eram o sempre elegante Erico Braga, «passeando flanante a apresentar manequins do Dior no Palace do Estoril ou costureirinhas roliças no Coliseu»), e António Pinheiro rotinado em papéis de homem bom, de antes quebrar que torcer. Nenhum tinha cara que se comparasse com a de Arthur Duarte, malandro de 5 filmes nacionais, antes de estagiar com os grandes do cinema alemão.
Fui injusto e de má memória: esqueci-me de Maria de Oliveira e Maria Emília Castelo Branco. Ganhavam para cima de dois contos de réis por fita.

anos 30, canção de lisboa

Galãs portugueses dos anos 30? Deixem-me rir. Aliás, era exactamente o que pensavam as mulheres portuguesas. O que talvez explique o rotundo sucesso de Vasco Santana. É ele o emblema da época: 100 quilos bem amados. Em A Canção de Lisboa trazia pelo beicinho a «grandessíssima Beatriz». O filme foi – ainda é – um sucesso. A estreia de gala, no Grande Hotel, pareceu, a quem a viu, capaz de derreter de inveja as noites do Grauman’s Chinese: a luz feérica perdia a cabeça entre smokings, sedas e organdis.
Todos, todos os homens portugueses amaram Beatriz Costa.

Beatriz, a cabeça, as papas e a língua

Ninguém lhe comeu na cabeça as papas que ela nunca teve na língua. Antes das fraldas, corpetes e aventais da Aldeia da Roupa Branca, casava-se com Vasco na Canção de Lisboa. O povo viu as filmagens e acreditou que era a sério. Atiraram pétalas e arroz à noiva branca e radiante.
Não viram mais caras os corações dos portugueses? Oliveira Martins era galã (Rosa do Adro, Pupilas do Senhor Reitor, Bocage), e formado em Ciências Económicas e Financeiras, António Silva tinha as mãos do melhor dos actores, e Mirinha, para os menos íntimos Mirita Casimiro, foi papoila na única vez que em cinema deu flor. Foram os melhores.

anos 40, artistas da rádio

As mulheres já se riam menos do que nos anos 30 e Ribeirinho não tinha a «envergadura» de Vasco Santana. De resto, a concorrência aos galãs cómicos foi de vulto. António Vilar, Fernando Curado Ribeiro e Virgílio Teixeira foram os homens às direitas dos amores de perdição nacionais. Mas só Vilar se pode gabar de ter corrido Brigitte Bardot à bofetada. Em La Femme et le Pantin de Julien Duvivier.
Mais românticos do que nunca, nenhum homem português ousaria nos anos 40 levantar a mão para Milu.

Milu: levantemo-nos

Foi ela a «grande artista do Rádio e do Cinema», como à época se dizia. Pensou que o cinema era uma comédia e que a vida era para levar a sério. Casou e deixou o mundo do espectáculo. Voltou mais tarde para provar que o casamento e a vida artística eram compatíveis, resolvendo assim uma ingente dúvida nacional.
Houve outras mulheres na vida dos portugueses. Uma só apareceu no final, a outra durou a década toda. A essas duas mulheres se rende o cronista. Teresa Casal começou em Os Fidalgos da Casa Mourisca (39) e teve sempre um ar sofisticado alguns furos acima da média. Por ela um homem podia perder uma fortuna ao jogo, essa última fronteira dos vícios viris.
Amália Rodrigues tinha uma cara com os traços tão grossos como os da Anna Magnani. Mais bonita, claro. Faz a ponte para os anos 50.

anos 50, sonhar é fácil

A inépcia do cinema português dos anos 50 está escandalosamente atestada na incapacidade para dramatizar o rosto de Amália. Não sou o primeiro a queixar-me. Na “Filme”, uma revista com décadas, o lamento dura 4 páginas que não me deixam mentir. Nem eu minto se disser que Laura Alves foi, de Sonhar é Fácil a Perdeu-se um Marido, apenas um paleativo da falta de imagem e imaginário lusíada. E mesmo Mariana Vilar e Maria Dulce não me me fazem mudar de ideias.

Laura Alves, à falta de outra imagem

Como é que era um galã dos anos 50? Olhem para Alberto Ribeiro: era o galã em fim de festa, já com a segurança social garantida. Agora reparem em Artur Semedo: sedutor e saltimbanco, arriscando-se numa vida sem rumo. Único traço de união entre eles, o bigode de latin lovers.

anos 60, sarilhos de fraldas

Pela primeira vez há imagens sobrepostas. Concorrem dois cinemas. Um é revisteiro, muito Florbela Queirós de «pão, amor e totobola». O par romântico foi António Calvário e Madalena Iglésias a quem se deu Uma Hora de Amor.

os sarilhos de Madalena

 Não consta que isso lhes trouxesse sarilhos de fraldas.
Contra esta imagem surgiu outra: um cinema puro e inocente, de verdes anos. Variou nas caras de homens: a cara lavadinha de Rui Gomes e a pele casca grossa de Belarmino. Mas teve só uma cara de mulher, Isabel Ruth. Podia ter sido um começo. Bem se podia ter mudado de vida.

ans 70, perdido por mil

São os anos de Maria Cabral.

Maria Cabral, nasceu para o que nasceu

É o caso mais espantoso em Portugal de explosão de uma actriz na tela. Não vinha do teatro, nem era corista de revista. Era ainda menina e moça e via-se, no Cerco, que tinha nascido para aquilo. A década viu nascer os melhores actores portugueses dos últimos 20 anos: Manuela de Freitas e Luís Miguel Cintra. António Pedro Vasconcelos acreditou que podia, à imagem do bem amado Nick Ray, inventar os adolescentes portugueses: eram José Cunha e Marta Leitão e o filme chamava-se Perdido por Cem.

anos 80, as manas medeiros

O que os anos 70 tinham juntado, parece que os anos 80 separaram. Volta, de uma forma diferente, a haver imagens em confronto. Há várias formas de ser homem. Ser Herman José, Mário Viegas, Luís Lucas, Pedro Ayres de Magalhães ou Joaquim de Almeida não é exactamente a mesma coisa. São estes os nossos homens? Há mais. Há um friso de boas caras tisnadas num travelling de Um Adeus Português. Está lá o Marcello Urgheche que fez sangrar corações na redacção do Semanário. E não me estou a esquecer das caras que fizeram Diogo Dória (S Marginal, Francisca) ou Pedro Oliveira (Lugar do Morto).
Nos filmes, as mulheres de quem estes homens gostam, foram Lia Gama, Vicky Ferreira (Uau!), actriz de um filme só, Ana Zanatti e Alexandra Leite. Mas se ainda há justiça neste mundo, diga-se que Maria de Medeiros foi quem deu a cara aos anos 80 do cinema português. A irmã, Inês Medeiros, e Catarina Alves Costa prometem que ternos serão os anos 90.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a Um cinema sem imaginário

    • manuel s. fonseca diz:

      Aqui para nós, os meus favoritos são o António Silva (que infeliz que ele foi ter nascido aqui em vez da Inglaterra!), a Amália (ó meu Deus se ela fosse italiana) e a Maria Cabral (a nossa Seberg).

  1. fernando canhao diz:

    Hombre, acelere-lhe sem medos e faça se ao muro que aquilo abre-se como o mar Vermelho para Moises, o que nos lavava os pés e sem dar confiança ao ” Rio Tinto. Desde que se saiba da poda Golgotas são meras Rampas da Pena, Pena essa bem mais arriscada a descer pois a crença natural será o travar.

  2. Diogo Leote diz:

    Manuel, da inocente Milu um dia conto-te uma história de décadas, que nada tem de inocente…

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    A história do cinema português, delineada pela pena que já nos habituou a saber esperar e ler de seguida como se de uma conversa se tratasse, como se guião dos próprios filmes de que fala…

  4. manuel s. fonseca diz:

    É tudo fingido, Bernardo, tudo fingido.

Os comentários estão fechados.