Uma noite no sótão: com François Truffaut

Tenho a certeza de que se tivesse no sótão uma caixa que, como na Alice, dissesse “infância”, dessa caixa me havia de sair o princepezinho François Truffaut.
Este Truffaut que abaixo se recorda foi escrito em Janeiro de 1990, no Expresso.

 O menino de François

François Truffaut escreveu muito e muito bem. Quando queria mostrar que amava um cineasta chamava-lhe príncipe. Lubitsch por exemplo. A Truf­faut nunca ninguém lhe deu, de mão beijada, ceptro e coroa: quem se ia agora lembrar de chamar príncipe a um burguês esclarecido, ao mais generosamente burguês dos cineastas da Nouvelle Vague?

Burguês? Ele, rapazi­nho de fugir de casa e de muito má vida a acabar em reformatório e casa de correcção? Burguês, ele, desertor da tropa fandanga, a malhar com os ossos na prisão mili­tar? Ele mesmo: bur­guês, burguesíssimo, de uma burguesia conquis­tada palmo a palmo; burguês de cesariana, de uma cultura tirada a fer­ros de autodidactismo.

Palavra de honra que não me consigo lembrar de ninguém, entre os ilustres e os humildes deste mundo, que tenha revelado metade, ape­nas metade, do imenso prazer que Truffaut sen­tia em compreender. E nos seis mil milhões de almas que povoam este planeta, a de Truffaut não terá mais do que uma dúzia de almas gémeas partilhando o desejo obsessivo de se fazer entender.

Admito não me ter feito en­tender: deponho-vos, nesse caso, nas mãos do Menino Selvagem. É o corolário lógico da visão de Truffaut, que no filme incarna, como actor, a figura do professor Itard, responsável pela reeducação do menino selvagem.

Como todos ou quase todos os filmes de Truffaut, em particular os «filmes sobre a infân­cia», o Menino Selvagem parte de uma «falta», a mais radical, a falta da linguagem.

Nos 400 Golpes era a falta de ternura; em Fahrenheit 451 a falta de cultu­ra. No Menino Selva­gem é a frustração do conhecimento, com a tentativa obstinada de Itard para anular essa falta.

Itard escre­veu nas suas memórias: ‘Sem a civi­lização, o homem seria um dos mais fracos e menos inteligentes dos animais.’

O Menino Selva­gem é um filme sobre a comunicação, a troca, a linguagem, a cultura. É mesmo. E Truffaut, que sempre quis estar na pele das crianças dos seus fil­mes — lembrem-se de Les Mistons e Os 400 Gol­pes — promoveu-se em O Menino Selvagem a adulto e a pedagogo. Acreditem: Truffaut é bom pro­fessor e consegue não ser mau actor.

Uma cábula para os mais distraídos: o filme é a história autêntica da educação de um menino encontrado na floresta por caçadores. Abandonada há 8 anos, a criança perdera todos os traços de humanidade, em particular a fala.

Para fazer de «menino selva­gem», Truffaut descobriu um menino cigano. Dirigiu-o supe­riormente, ensinando-o a «olhar como um cão» e a «mexer a cabeça como um ca­valo». Para exprimir o espanto, Truffaut serviu-se de outra refe­rência do reino animal, miman­do para o menino os gestos de Harpo Marx.

Poucos filmes na carreira de Truffaut serão tão intencionalmente anti-modernistas como O Menino Selvagem. Em 1969, quando o filme saiu, en­cerrava-se uma década que, no cinema, fragmentara todos os discursos, ameaçando com a guilhotina a menor tentativa de linearidade. O expoente máximo deste «movimento» talvez tenha sido a celebrada «trilogia da incomunicabilidade» de Antonioni. Frontal, como sem­pre, Truffaut respondia: «No meu desejo de fazer este filme entrou uma parte de revolta contra aquilo de que se fala há algum tempo: a incomunica­bilidade. Sobretudo Antonio­ni. Acho que se ‘sofisticou’ demais à volta dessa ideia. Já disse algumas vezes que ele é o único bom cineasta de que não gosto.»

A inversa é verdadeira. Truf­faut nunca foi tão bom cineasta como Antonioni, mas gosta-se muito dele e da sinceridade que se solta dos seus filmes. Para ser sincero, em O Menino Selvagem, Truffaut teve de ser «distante».

Como ele mesmo afirmou: «Quanto mais uma cena era emocional mais eu colocava a câmara longe. Tinha necessi­dade desse recuo. Filmei tudo como um pequeno teatro.»

Talvez por isso, Truffaut te­nha filmado O Menino Selva­gem a preto e branco e tenha escolhido, no essencial, enquadramentos frontais, a meio caminho entre o lirismo de Vigo e o espírito demonstrativo de Bresson. Como se fosse ele o pajem entre dois príncipes.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Uma noite no sótão: com François Truffaut

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Este seu sótão é uma caixinha de surpresas 🙂
    Um dia peço para espreitar…
    Belo texto

  2. manuel s. fonseca diz:

    Já está a espreitar Ana. Nada mais na manga…

  3. Rita V diz:

    Vi o filme há milénios … lembro-me de ter gostado

  4. manuel s. fonseca diz:

    Ai de si, Rita, se não gostasse!…

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eu sei que não se pode comparar, mas sempre pendi mais para Truffaut do que para Godard…Não revejo “o menino selvagem” há uns largos anos , mas a impressão de um filme directo e “honesto” ficou para sempre…

  6. pedro marta santos diz:

    Gosto muito de “O menino Selvagem” – e este gosto muito é o de um puto de 12 anos, que foi quando o vi pela primeira vez – mas gosto muito mais do “The Miracle Worker” do Arthur Penn, com que este filme tem mais do que um vaso comunicante (e, já agora, há algumas coisas em comum entre Truffaut e Penn). Gostei de me lembrar do filme, e dos 12 anos em que o vi, através do teu texto.

    • manuel s. fonseca diz:

      Sorry Pedro, pela atrasada resposta. Gostei que te lembrasses e ainda para mais dos teus 12 anos. Devias ser lindo, devias: para aí corrido a faltas disciplinares de todas as aulas!

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