Uma noite no sótão: com Gene Hackman

Não foi no sótão que o conheci. Foi num dia em que tomei o pequeno-almoço mais tarde, sozinho, no Sunset Marquis, um hotel de charme, digamos assim, de L.A. Estava eu e um tipo, duas mesas ao lado, a ler o jornal. Escondia atrás do jornal as dimensões de um armário e uma hostilidade do tamanho do muro de Berlim. Quando virou a página vi que era Gene Hackman. Soube-me bem o pequeno-almoço e descobri que havia uma forma exaltante de me sentir íntimo daquele tipo: era armar eu próprio a mesma atitude. Se me saí mal ninguém deu conta, porque não havia mais ninguém. No dia seguinte, voltei à mesma hora. Na mesma mesa, perto da piscina, atrás do mesmo jornal, protegido pelo mesmo muro, Gene Hackman mastigava uns distraídos flocos. Que chatice não lhe ter protestado a admiração que já escrevera, anos antes, em 1990, no velho “Expresso”, quando nos cinemas de Lisboa se exibia Narrow Margin.

 

Quente como Hackman

Pode haver quem sugira tratar-se apenas de um filme rotineiro de indústria. Não digam que não, mas experimentem ir ver na mesma. Por duas razões.

Primeiro, porque o realizador Peter Hyams se fixou no modelo do «thriller» dos anos 40 e 50 e lhe deu a embalagem dos anos 80/90. Reparem: há um homem e uma mulher quase indefesos, perseguidos por tipos absolutamente maus e absolutamente calculistas. Ou seja, é o supinamente conhecido esquema de fuga e perseguição. Velho de barbas e descoberto dois dias depois do cinema ter sido inventado? Mas vamos agora ver como é que Hyams procede: trabalha sistematicamente sobre um único cenário, um comboio que atravessa uma região selvagem, em direcção a Vancouver, e introduz no jogo do gato e do rato de perseguidos e perseguidores, um outro jogo, um tudo nada mais angustiante, o jogo entre o espaço e o tempo. Hyams quer provar, e eu por mim estou convencido, que o tempo se dilata na razão directamente proporcional à contracção do espaço. É evidente que há, tinha de haver, consequências psicológicas: a ameaça dos perseguidores aproxima-se do insuportável e as relações entre os perseguidos transformam-se.

A segunda razão para se ver O Expresso dos Malditos é Eugene Alden Hackman, que todos tratamos, tu cá, tu lá, por Gene Hackman. Não sei se já se deram conta, mas a verdade é que Hackman está cada vez melhor actor e está cada vez mais diferente como actor. Nascido a 30 de Janeiro de 1931, só em 1961 é que fez o seu primeiro filme. Começou trintão – e apenas porque Dustin Hoffman vinha atrás a empurrá-lo – e foi trintão que Hackman, em Lilith e em Bonnie e Clyde, se consagrou como actor capaz de construir personagens nevróticas e crispadas. Quarentão, em 1971, podia ter parado no cliché do polícia duro, à beira da desumanidade, por causa do Popeye Doyle que era em French Connection. Fez-nos o grande favor de mudar, mostrando em The Conversation toda a fraqueza que tinha andado a esconder nos filmes anteriores: e, agora que me lembro, é engraçado como tudo o que mostrava em The Conversation, só o mostrava porque se esforçava muito a escondê-lo.

Cinquentão, nos anos 80, Gene Hackman descobriu as mulheres. Recentemente, e por acasos, desta feita benignos, de distribuição, viram-se em Lisboa, num espaço relativamente curto de tempo, alguns filmes dele: Mississipi Em Chamas, Um Bar Chamado BIue Water, Uma Outra Mulher e Brigada Assassina. Em quase todos, como agora em O Expresso dos Malditos, Gene envolve-se com mulheres. Qual é a novidade? Quase nenhuma, a não ser que Hackman pratica, como lhe chamou Beverly Walker no «Film Comment», um modelo de «relações civilizadas entre os sexos» banido do cinema americano das últimas décadas pelo estrilho juvenil dominante.

Quer isto dizer que Hackman recuperou o romantismo do herói bogartiano para o contexto contemporâneo, marcado pela igualdade dos sexos. E fê-lo, continua a fazê-lo, apesar do corpo parado, um pouco hirto (quando se move, move-se com a graça de um paralelepípedo), usando apenas o rosto. A cara de Gene Hackman mudou muito: agora convoca intimidade, cria para as personagens femininas aquilo que ele gosta que os realizadores recriem para ele, uma atmosfera. De confiança, parece dizer, no filme, a bela mulher que é Anne Archer. «Kind of warmth», dizem os críticos americanos. Masculino, quente como um bom agasalho de lã.

 

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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3 respostas a Uma noite no sótão: com Gene Hackman

  1. fernando canhao diz:

    Hoteis decentes teem destas coisas.
    O epitafio ja sugerido Manuel S. Fon­seca 19xx-20xx “Died tra­gi­cally res­cuing his Family from the wrec­kage of a des­troyed sin­king bat­tleship”, aplica-se a Hackman no The Royal Tenenbaums.
    Luis Bunuel no seu “Ultimo suspiro” revela-nos um Chaplin para o infinito e mais alem.
    Eddie Cantor & Roman Scandals a minha sugestao de fim de semana.

  2. Bernardo vaz Pinto diz:

    Gosto do Hackman, com o seu ar de adulto prematuro, e um profissionalismo subtil que torna credivel qualquer papel que representa. Muito bem apontada a relação com o sexo oposto, madura, confiante, de quem já passou muitos vales e montanhas…

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